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Edição 332

O que a KGB deixou escrito sobre Cuba

A infiltração cubano-soviética no Brasil não era apenas fantasia da direita fardada

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Em 1976, um agente da Direção-Geral de Inteligência cubana fotografou a fiação de uma máquina de cifra na embaixada do Brasil em Angola, parte de uma estratégia de espionagem de Cuba, apoiada pela KGB, para decifrar comunicações diplomáticas brasileiras. Um relatório recente do Departamento de Estado dos EUA destaca como Cuba, desde a Revolução, utilizou espionagem e infiltração política para expandir sua influência na América Latina, incluindo o Brasil, onde apoiou movimentos guerrilheiros antes e durante a ditadura.

Em algum momento de 1976, num escritório da Direção-Geral de Inteligência cubana em Luanda, um agente da DGI fotografava, peça por peça, a fiação de uma máquina de cifra suíça instalada na embaixada do Brasil em Angola. O equipamento havia chegado de Moscou nas mãos de um técnico do Décimo Sexto Diretório da KGB, especializado em interceptação de sinais. O objetivo era simples: decifrar as comunicações diplomáticas de Brasília.

O episódio, documentado nos arquivos que o coronel Vasili Mitrokhin contrabandeou do QG da inteligência soviética e que o historiador britânico Christopher Andrew organizou no livro The World Was Going Our Way: The KGB and the Battle for the Third World, é mais que um detalhe curioso de arquivo empoeirado. Trata-se da marca registrada de um método: havia muito tempo que Havana deixara de ser uma ilha caribenha simpática ao socialismo e se tornara sócia operacional de Moscou na tarefa de espionar, influenciar e, quando possível, capturar o Brasil.

Capa do livro The World Was Going Our Way, de Christopher Andrew e Vasili Mitrokhin | Foto: Divulgação

Essa é a história que boa parte da nossa intelligentsia progressista preferiria manter enterrada — e que o Departamento de Estado americano acaba de trazer de volta à luz, num extenso relatório divulgado há alguns dias, intitulado Cuba: The Capital of 21st Century Communism. O documento, elaborado sob a gestão do secretário Marco Rubio, sustenta uma tese que qualquer estudioso da Guerra Fria conhece há tempos: Cuba jamais teve poder militar ou econômico para disputar a hegemonia continental por meios convencionais, de modo que construiu, desde o primeiro ano da Revolução, uma arquitetura alternativa baseada em espionagem, infiltração política, formação ideológica de quadros e exportação de guerrilhas. O relatório descreve como essa engrenagem, batizada nos anos 1960 de Dirección General de Inteligencia (DGI) e hoje reorganizada como Dirección de Inteligencia (DI), sobreviveu ao colapso soviético justamente porque nunca dependeu apenas do Estado cubano: ela se alojou em universidades, sindicatos, ONGs, movimentos sociais e organizações de “solidariedade” espalhadas por dezenas de países — os mesmos canais, a propósito, que ainda hoje formam a espinha dorsal de boa parte da militância latino-americana que se apresenta como sociedade civil.

Vale lembrar que o Brasil nunca foi um caso isolado dentro desse projeto. Nosso país era apenas uma das peças mais valiosas de um tabuleiro continental. O relatório do Departamento de Estado recorda que, já em 1966, a Conferência Tricontinental reuniu em Havana centenas de delegados de movimentos revolucionários da África, da Ásia e da América Latina, consolidando a ilha como polo intelectual da chamada Nova Esquerda terceiro-mundista. No ano seguinte, nasceu, também em Havana, a Organização Latino-Americana de Solidariedade (Olas), concebida precisamente para coordenar a luta armada em todo o continente. Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Guatemala, El Salvador, Nicarágua: o documento americano lista essa dezena de países como destinatários, em algum momento da Guerra Fria, de treinamento militar, assessoria política ou apoio logístico cubano — e o Brasil figura nessa mesma lista, não como exceção, mas como regra. Foi dentro dessa engrenagem regional, e não à margem dela, que o país recebeu seus primeiros focos de guerrilha rural ainda sob o governo constitucional de João Goulart.

Fidel Castro com Amílcar Cabral em Cuba, durante a Conferência Tricontinental, em janeiro de 1966 | Foto: Domínio Público

Segundo o material reunido por Mitrokhin, a DGI foi criada em 1961 sob o comando de Ramiro Valdés, com Manuel Piñeiro — o lendário “Barba Roja” — à frente de uma Direção de Libertação Nacional dividida em três comitês, um deles dedicado especificamente à América do Sul. Che Guevara e Piñeiro passavam noites debruçados sobre mapas do continente, sonhando com focos guerrilheiros que incendiariam país após país. O Brasil não escapou dessa mira.

Muito antes do golpe de 1964 — sob plena vigência democrática, portanto —, Cuba já financiava e orientava as Ligas Camponesas de Francisco Julião, treinando quadros para a luta armada rural. No livro O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil, a historiadora Denise Rollemberg, cujas inclinações políticas são tudo menos conservadoras, documentou esse apoio cubano anterior ao golpe com riqueza de detalhes e demonstrou que a opção de setores da esquerda brasileira pela revolução armada não foi reação ao regime militar, mas uma de suas causas. A inteligência soviética, agindo por intermédio de Cuba, estava lá desde o início, tratando o Brasil — nas próprias palavras do serviço, registradas nos arquivos do Centro de Moscou — como um alvo cuja dimensão territorial e peso estratégico justificavam atenção redobrada, ainda que os limites impostos pelo governo brasileiro ao tamanho da representação soviética mantivessem a residência da KGB relativamente enxuta.

Capa do livro O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil, de Denise Rollemberg | Foto: Divulgação

O livro de Andrew mostra que essa atenção não arrefeceu com a ditadura. Pelo contrário: a partir de 1974, o Brasil passou a figurar entre os cinco alvos prioritários da KGB na América Latina, ao lado de Cuba, Argentina, Peru e México. Incapaz de recrutar contatos diretos no núcleo do regime militar — o que conseguia com relativa facilidade na Argentina, no Peru ou no México —, o serviço soviético investiu pesado em interceptação de sinais: até 1979, o posto de escuta batizado de KLEN, instalado na embaixada de Brasília, era capaz de captar dezenove mil telegramas cifrados do Itamaraty por ano, além de milhares de outras comunicações oficiais. Um agente brasileiro, codinome IZOT, foi recrutado enquanto servia como embaixador em um país do bloco soviético. E, à medida que o regime militar caminhava para a abertura, os canais só se ampliaram: em dezembro de 1980, o general Golbery do Couto e Silva — arquiteto do próprio SNI — recebeu em Brasília o veterano oficial da KGB Nikolai Leonov, disfarçado de acadêmico soviético, para conversas que, no ano seguinte, resultaram no envio de um “conselheiro” — leia-se, oficial de inteligência — à embaixada soviética, com a missão específica de manter encontros regulares e “não oficiais” com o próprio presidente João Figueiredo, ex-chefe do SNI. Os arquivos de Mitrokhin não registram se esses encontros de fato ocorreram; registram, isso sim, que a proposta foi feita e aceita.

Note-se a ironia: o mesmo aparelho repressivo que perseguia comunistas dentro de casa negociava, no andar de cima, a entrada de um oficial soviético disfarçado no círculo mais próximo do presidente. A história da infiltração cubano-soviética no Brasil não cabe, portanto, na caricatura de que se trataria apenas de uma obsessão da direita fardada. Ela atravessou regimes, atravessou décadas, e — este é o ponto que o relatório do Departamento de Estado obriga a enfrentar — atravessou também a democratização.

Presidente da República João Figueiredo no clássico desfile no Rolls-Royce, ao lado de Aureliano Chaves seu vice, na sua posse (15/03/1979) | Foto: Arquivo/Agência Senado

Porque o método não desapareceu com a queda do Muro de Berlim. O relatório americano descreve como, perdido o patrocínio soviético, Havana reinventou seus instrumentos: menos luta armada direta, mais intercâmbio acadêmico, cooperação médica (o leitor perspicaz se lembrará do famigerado “Mais Médicos”), ONGs, brigadas internacionais e campanhas de solidariedade — os mesmos vetores que, desde 1990, sustentam o Foro de São Paulo, fundado justamente por Fidel Castro e Lula da Silva no momento em que o socialismo real desabava e era preciso costurar uma nova rede continental de partidos e movimentos afins. O documento chama isso de “desenvolvimento de alvos de longo prazo”: identificar jovens ideologicamente simpáticos ainda na universidade e acompanhar sua ascensão, décadas a fio, até que cheguem a posições de poder na política, na academia, na imprensa ou nas organizações não governamentais. Não é preciso recrutar um espião de manual para que o método funcione; basta cultivar afinidades, viagens, bolsas, seminários e vínculos emocionais — o que o próprio relatório chama de “turismo revolucionário” — até que a rede de simpatizantes se torne, ela mesma, um instrumento de influência política permanente.

É esse fio que liga o técnico da KGB fotografando cifras em Luanda, o oficial soviético disfarçado de professor recebido por Golbery, e o adestramento ideológico de gerações inteiras de militantes latino-americanos formados sob a tutela, direta ou indireta, de Havana. Por óbvio, a imprensa adestrada pelo lulopetismo gostaria que se tratasse de uma “teoria da conspiração” trumpista ou bolsonarista. Mas o que temos são arquivos, nomes, datas, cruzados por um historiador de Cambridge com base em documentos que um oficial soviético dissidente arriscou a vida para tirar da União Soviética, e agora reforçados pela sistematização de um órgão do próprio governo americano. A esquerda latino-americana — e a brasileira em particular — construiu sobre esse passado uma mitologia de resistência espontânea e desinteressada ao autoritarismo, quando a documentação mostra algo bem mais prosaico e bem mais grave: décadas de patrocínio, treinamento e infiltração orquestrados por um serviço de inteligência estrangeiro a serviço de um projeto de poder continental.

Gravador de rolo para escuta clandestina. Um aparelho de telefone de campanha da URSS está ao lado. KGB espionando conversas | Foto: Shutterstock

Nem todo militante de esquerda é um agente cubano, obviamente. Mas os arquivos mostram uma coisa mais sutil e mais duradoura do que o recrutamento direto (que também houve): a construção paciente de uma infraestrutura de influência que dispensa o espião de bigode postiço porque já conquistou, ao longo de 60 anos, algo mais valioso — o benefício da dúvida da opinião publicada, a cumplicidade do silêncio acadêmico e a repetição automática, geração após geração, da narrativa que Havana queria propagar. Enquanto essa arquitetura não for encarada de frente, continuaremos a discutir 1964, o Foro de São Paulo ou a política externa brasileira como se fossem capítulos isolados, e não elos de uma mesma corrente que começou a ser forjada há mais de 60 anos, a poucos quilômetros da Flórida.

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2 comentários
  1. Andrea Chaguri
    Andrea Chaguri

    Obrigada Flavio por essas informacoes. Por favor, publique mais sobre esse relatorio para entendermos bem o que ele nos tras de concreto.

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