publicidade
Pessoas em situação de rua formam acampamento embaixo de viaduto com grafite de Salvador Dalí na capital paulista | Foto: Reprodução/X
Edição 332

O retrato da ineficiência

População de rua dobrou e cartões do Bolsa Família foram parar com traficantes

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Jadson, um morador de rua de 44 anos em João Pessoa, não conhece o programa Ruas Visíveis, lançado pelo presidente Lula em 11 de dezembro de 2023, para combater a população em situação de rua, que quase dobrou desde a posse de Lula, passando de 198,7 mil em dezembro de 2022 para 392,4 mil em junho deste ano. O plano, que envolve R$ 982 milhões, não apresentou resultados efetivos, e muitos cadastrados no Bolsa Família não recebem o benefício ou os cartões vão parar nas mãos de traficantes como garantia do pagamento de dívidas de crack.

Na Paraíba há quase 15 anos, quatro dos quais dormindo nas calçadas de João Pessoa, Jadson não sabe se está registrado no Cadastro Único (CadÚnico) do governo, obrigatório para receber qualquer benefício. Baiano de Jequié, era ambulante até que a vida piorasse depois de um divórcio. Aos 44 anos, recebe o Bolsa Família e manda parte para a mãe. Nunca ouviu falar no Plano Ruas Visíveis, programa de quase R$ 1 bilhão que o governo federal criou para tirar das ruas gente como ele. “Não sei do que se trata”, diz. Foi essa a novidade anunciada pelo presidente Lula em 11 de dezembro de 2023 para tratar das pessoas mais vulneráveis. “Se essas pessoas existem”, disse o orador, “a culpa não pode ser outra que não do Estado”. Em seguida, avisou que tinha “mais três anos de mandato” para consolidar a promessa. Perto do fim desse prazo, a população de rua foi quase duplicada.

Jadson, de 44 anos, ao lado de um colega que também mora na rua | Foto: Yasmin Alencar/Revista Oeste

Em dezembro de 2022, o CadÚnico tinha 198,7 mil pessoas em situação de rua. Em junho deste ano, eram 392,4 mil, uma alta de 97,4%, equivalente a 193,6 mil novos registros. Depois do lançamento do plano, 130 mil pessoas ingressaram no cadastro. A média de novos registros por mês passou de cerca de 2 mil, entre 2019 e 2022, para 4,6 mil sob Lula 3. O CadÚnico não é um censo das ruas. Obrigatório para o recebimento de benefícios sociais, é a base em que os municípios inscrevem os mais pobres, e parte da alta pode refletir um cadastramento mais eficiente. Mesmo assim, a régua é a mesma desde 2019, e os registros seguiram subindo até o primeiro semestre de 2026, quando a pandemia já não servia de explicação.

Plano sem resultado

O Ruas Visíveis nasceu de uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2023, o ministro Alexandre de Moraes deu 120 dias para o governo apresentar um plano de atenção à população de rua. A resposta veio no final daquele ano, com o anúncio de R$ 982 milhões, 99 ações e a articulação de 11 ministérios. O maior eixo — assistência social e segurança alimentar — ficou com R$ 575 milhões; o de saúde, com R$ 304 milhões. Na mesma ocasião, Lula assinou o decreto que regulamentou a Lei Padre Júlio Lancellotti, contra o uso de “arquitetura hostil” que afasta os sem-teto dos espaços públicos. O então ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, classificou o pacote como o mais completo desde a criação da Política Nacional para a População em Situação de Rua, em 2009.

Matéria publicada pela Revista Oeste (03/10/2025) | Foto: Reprodução/Revista Oeste

Mas o que veio depois não acompanhou o anúncio. A Oeste solicitou ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) a execução financeira do plano item por item e uma explicação sobre o aumento dos casos. O ministério respondeu sobre as causas do crescimento, mas atribuiu a execução dos recursos ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que coordena o Ruas Visíveis. Procurada, a pasta dos Direitos Humanos não respondeu.

Segundo o MDS, o aumento dos registros combina dois fatores. O primeiro é o crescimento real da população de rua, associado ao “desemprego, fragilização de vínculos familiares, crises econômicas e eventos climáticos extremos”. O segundo é a melhoria do próprio cadastramento, com o reforço da busca ativa e do cadastramento diferenciado previsto na Portaria nº 810/2022, voltada a grupos específicos, entre eles a população em situação de rua. “O Cadastro Único passou a identificar um número maior de pessoas que antes não constavam na base de dados”, afirmou a pasta. Sobre a tese de que parte da alta decorre de uma subnotificação no governo anterior, o MDS reconheceu não ter um estudo que a comprove. “Essa constatação decorre da própria evolução dos registros administrativos do sistema, não de um estudo específico sobre subnotificação”, informou o ministério.

Ex-ministro da Cidadania no governo de Jair Bolsonaro, o deputado Osmar Terra (PL-RS) rejeita o argumento de subnotificação. Para ele, é uma afirmação difícil de comprovar, porque a inclusão no CadÚnico é feita pelas equipes municipais de assistência social, e não pelo governo federal. “O assunto mereceria uma auditoria”, disse. Terra credita parte da alta da população de rua ao avanço do uso de drogas. “Qualquer cidadão de um grande centro pode constatar o crescimento vertiginoso da população de rua, predominantemente composta, e cada vez mais, por dependentes de drogas.”

Quem atende essas pessoas vê o aumento de perto. Dário Batista, educador social no Centro Pop da capital paraibana, unidade que a assistência social mantém para acolher parte da população de rua da cidade, com banho, alimentação, guarda de pertences e encaminhamentos, conta que a procura disparou nos últimos quatro anos. “Nosso atendimento diário era de 80 pessoas”, diz. “Hoje passa de 150.”

Roraima, sete vezes mais

Nenhum Estado espelha a crise como Roraima. A população de rua cadastrada saltou de 1,4 mil pessoas, em janeiro de 2023, para mais de 10 mil, quase sete vezes mais. É o maior crescimento proporcional do país. Logo atrás aparecem Rondônia, com alta acima de 450%, e o conjunto da região Norte, que cresceu 367%, de 4,9 mil para 22,8 mil registros. O Nordeste subiu 109%. As demais regiões ficaram abaixo da média nacional, mas ainda avançaram: 85% no Sudeste, 83% no Sul e 79% no Centro-Oeste.

O caso de Roraima tem um componente que os outros não têm: a fronteira com a Venezuela. O Estado é a principal porta de entrada da imigração venezuelana, e Boa Vista virou destino de quem cruza a fronteira ao fugir do colapso do país vizinho. Muitos chegam já sem teto e entram no cadastro como população de rua.

Venezuelano pedindo ajuda | Foto: Yasmin Alencar/Revista Oeste

O cartão na mão do traficante

Nem todos os cadastrados recebem o benefício. Em maio de 2026, o CadÚnico tinha 375,6 mil famílias em situação de rua, e 282,8 mil delas recebiam o Bolsa Família, segundo o sistema do MDS. Cerca de 93 mil famílias — quase uma em cada quatro — estavam no cadastro sem receber o dinheiro. Em São Paulo, que concentra o maior número do país, das 103,5 mil famílias de rua cadastradas, 76,9 mil têm o benefício, e quase 27 mil ficam de fora.

Para o deputado Kim Kataguiri (Missão-SP), a lacuna nasce da própria gestão do cadastro. “Estar cadastrado no CadÚnico não significa que a pessoa será automaticamente aprovada para receber o Bolsa Família”, disse. “Pessoas que vivem nas ruas têm muita dificuldade em manter suas informações atualizadas e em guardar documentos de identidade, o que causa inconsistências no cadastro e faz com que o benefício seja suspenso.” Para ele, a responsabilidade é dividida: “o governo federal tem que criar as regras, dar o dinheiro e analisar os dados com inteligência. Já os municípios têm que fazer o trabalho direto, como procurar as pessoas e inscrevê-las, por meio da rede de SUAS [Sistema Único de Assistência Social] e CRAS [Centro de Referência de Assistência Social]“.

Cartão do Bolsa Família | Foto: Reprodução/Agência Brasil

Na audiência da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, em 11 de junho, convocada por Kataguiri, parlamentares relataram que os cartões de quem recebe o benefício estão indo parar nas mãos de traficantes. “Moradores de rua já deixam o cartão do Bolsa Família com o próprio traficante e só vão no final do mês receber a droga”, afirmou o vereador de Joinville Mateus Batista (União-SC). Kataguiri sustenta que a denúncia não se resume a relatos. “Já existem diversas ocorrências policiais e investigações formais pelo país que comprovam essa prática”, afirmou. Ele cita a Operação Bolsa Crack, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo em maio de 2024, em São José do Rio Preto, que prendeu cinco pessoas e desarticulou uma associação criminosa que explorava moradores de rua. “A investigação confirmou exatamente o que denunciamos”, disse o deputado. “Traficantes retinham os cartões do Bolsa Família dos beneficiários como garantia para o pagamento de dívidas de crack.” A prática aparece também no relato de quem vive nas ruas. Clayton Valci Silva, de 39 anos, em recuperação depois de anos no crack, confirma que a prática é comum. “O cartão fica com o traficante”, declarou. “O de todo mundo.”

Clayton é morador de rua e ex-usuário de crack | Foto: Yasmin Alencar/Revista Oeste

Na mesma audiência, o representante do MDS, Edson Lima, não respondeu à denúncia e disse que o objetivo do programa é combater a fome, e que a dependência química cabe a outras políticas. O deputado Osmar Terra (PL-RS) faz uma acusação mais dura ao desenho atual do benefício. Para ele, os dependentes químicos sem tratamento estariam “agora incentivados com a ‘bolsa droga'”. Kataguiri afirma que não vai parar por aí. “Diante da evasiva e da falta de respostas claras por parte do representante do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) durante a audiência, acionaremos a pasta formalmente”, disse.

Nas ruas, o pedido que se repete não é por benefício, mas por trabalho. Jadson carrega um rótulo que considera injusto e enumera o que ouve dos outros: “Morador de rua é ladrão, morador de rua não gosta de trabalhar.” Ele discorda. O que muda uma vida, diz, é a chance de se sustentar pelo próprio esforço. “Se a gente tiver oportunidade de moradia e emprego, as coisas melhoram muito.”

No lançamento do Ruas Visíveis, Lula assumiu, em nome do Estado, a culpa pela existência de moradores de rua e se deu três anos para mudar o quadro. A poucos meses do fim desse prazo, o número de pessoas morando em calçadas atingiu o maior patamar da série, dezenas de milhares de famílias cadastradas seguem sem o Bolsa Família e parte dos cartões que chegam tem ido parar nas mãos de traficantes. Os R$ 982 milhões do Ruas Visíveis não reverteram nenhuma dessas curvas. O retrato que o governo prometeu corrigir só ficou mais nítido e mais duro.

Leia também: “Ascensão sob suspeita”

Leia mais sobre:

1 comentário
  1. Adauto Levi Cardoso
    Adauto Levi Cardoso

    Só virou mais uma bolsa nao sei de que , para ir parar na mao de corruptos . O Brasil tem que fechar e começar tudo de novo.

Anterior:
O poder de olho no Senado
Próximo:
O mesmo preço, menos produto 
publicidade