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Os fantasmas de Wuhan

O documentário 'Coronation' revela a atuação da ditadura chinesa durante a pandemia e a reação da sociedade local

“A flecha que deixou o arco nunca mais retorna.”
Morador anônimo de Wuhan

Wuhan é uma metrópole de 11 milhões de habitantes no meio da China. Importante centro industrial e ponto de convergência de diferentes meios de transporte. À noite, seus arranha-céus se transformam num megatelão no estilo Blade Runner. A imagem eletrônica de gigantescos punhos cerrados, com a bandeira chinesa ao fundo, reflete-se nas águas do Yang-tse.

Não se sabe exatamente como essa pandemia de covid-19 começou. Foi nos “mercados molhados”, onde o sangue de animais domésticos e selvagens se mistura com pilhas de fezes de várias espécies? Ou o vírus escapou de um laboratório militar? Não sabemos. O governo chinês não permite nenhuma forma independente de investigação.

A única coisa que sabemos com certeza é que o novo vírus foi descoberto na cidade de Wuhan, no último dia de 2019. Por semanas, as autoridades chinesas negaram o perigo da contaminação, enquanto seus habitantes morriam em hospitais lotados. Em 23 de janeiro, a cidade finalmente foi colocada em lockdown. Quem estava dentro não saía, quem estava fora não entrava. Àquela altura, o vírus já havia se globalizado. Mas os segredos de Wuhan permaneceram trancados.

É aí que entra em cena o indomável artista e cineasta chinês Ai Weiwei. Perseguido no país, Weiwei hoje mora em Cambridge, na Inglaterra. Sua mais recente e polêmica obra é o documentário Coronation, exibido na última Mostra de Cinema de São Paulo e disponível para aluguel no site Vimeo.

Coronation mostra a intimidade de Wuhan na virada do ano e segue sua vida pelos meses de confinamento. As cenas foram gravadas por diversos colaboradores. Weiwei recebeu o material e montou o filme num estúdio da Alemanha. Não há narração nem textos explicativos. Apenas a realidade, sem interpretação. Coronation é o retrato de uma epidemia, de um sistema político e de um modo de vida.

“Não vamos ficar falando da doença para as crianças! Mostrem paisagens bonitas”

No início, o documentário nos guia pelas ruas vazias da cidade, nos primeiros dias de 2020. A população parece perdida, a neve cai, a gasolina congela na bomba. Os restaurantes estão fechados, os mercados também. Num hospital, dois cientistas observam radiografias detalhadas de pulmões infectados. Um deles conclui: “Isso aqui não é sars”.

A partir daí temos a invasão da cidade por pessoas cobertas com várias camadas de plástico branco e máscaras triplas. Parecem fantasmas sem rosto, agindo com eficiência e objetividade. Ocupam os enormes hospitais de campanha erguidos em quinze dias. No meio dessa situação, uma professora organiza uma excursão escolar aos gritos: “Não vamos ficar falando da doença para as crianças! Mostrem paisagens bonitas da cidade. Temos de ser positivos”. Esta é a ordem: não se preocupe. Está tudo bem. O governo vai cuidar do problema. Siga as instruções em ordem. Seja positivo.

Coronation se aprofunda na vida cotidiana de Wuhan por meio de três depoimentos mais longos. São retratos que condensam três tipos de reação ao status quo: a obediência, a apatia e a revolta.

O primeiro depoimento é de uma idosa que vive num apartamento confortável com o filho. Ela começa comparando a pandemia ao processo de extermínio de insetos. “Contamine uma formiga e todas as formigas do prédio morrerão”. Quando o rapaz diz que os governantes locais foram substituídos por causa da má administração da epidemia, sua mãe lembra o que aprendeu nos tempos em que foi dirigente sindical:

“O Estado deve ser estável”, diz ela. “Se os chefes de Estado forem sendo substituídos, isso é muito perigoso.” A idosa repete então as famosas palavras de Mao Tsé-Tung, o patriarca do comunismo chinês: “O poder está na ponta do fuzil. Se alguém controla o fuzil e o aponta para a cabeça dos governantes, pode tomar o poder. Como disse Mao há muito tempo, o Partido comanda os fuzis. E os fuzis nunca devem ser usados para comandar o Partido”.

Conforme o entrevistador tenta questionar de onde ela tira tanta certeza, a idosa se irrita e mostra as pilhas de medalhas e diplomas que ganhou por bons serviços prestados ao PCC. “Os chineses são igualmente protegidos pelo Estado”, garante ela. “Ninguém deveria pensar em morar fora do país ou gastar dinheiro no exterior.”

Algum tempo depois, seu filho avisa que o isolamento de Wuhan foi suspenso. Quem se infectar a partir daquele momento terá de se isolar sem ajuda financeira do governo. Automaticamente, a idosa muda de ideia. Agora, ela acha que cada um tem mesmo que cuidar de si mesmo. Essa senhora passou 71 anos — talvez sua vida inteira — numa ditadura. Para ela, não importa o que o Partido decida, estará sempre certo.

O governo enviou roteiristas “chapas-brancas” para escrever uma série exaltando o êxito das medidas oficiais

O segundo personagem é encontrado na garagem escura de um edifício comendo arroz frio. Conta que é funcionário do governo e entrou em Wuhan antes do lockdown, cumprindo uma missão oficial. Agora, não pode mais partir. “Ninguém em Wuhan está autorizado a sair”, diz ele, com voz mansa. “Só médicos, pessoal de logística e transportes.”

O funcionário relata que ligou para quase uma dezena de repartições públicas pedindo uma solução para seu caso. Todas elas passaram o problema para a frente. Agora o funcionário “mora” dentro de um carro, na garagem de um edifício. Já foi avisado pelas autoridades: se der entrevistas denunciando sua situação, será devidamente esquecido naquela garagem de concreto.

O documentário registra então um retrato doloroso dos novos tempos. Esse mesmo funcionário liga para a irmã e quem atende é sua sobrinha. O tio fica feliz. Diz que quer voltar à cidade natal para brincar com ela. A garotinha responde, com voz mecânica, as instruções que recebeu: “Se você vier, terá de usar máscara, luvas, roupas protetoras e cobertura para os sapatos. Eu posso espirrar meu desinfetante em você”. Carente, distante da família, o funcionário pergunta: “Você está sentindo minha falta?”. A garotinha não responde. Ele insiste: “Você sente minha falta?”. Silêncio.

O terceiro personagem é um motorista, que não se segura. Conta que, no período inicial em que a peste se espalhou, o governo não fez nada para avisar a população. “Disseram que o vírus não era transmitido de pessoa para pessoa. Por isso, trouxe meu pai até Wuhan. Eles tiraram a vida dele.” O motorista mostra na tela do celular um vídeo com o pai numa cama de hospital, entubado, agonizando em busca de ar.

O celular toca. É a “unidade de trabalho” do pai perguntando por que o motorista ainda não foi buscar seus restos mortais. Oferecem o equivalente a 400 dólares como indenização e 30% de desconto no preço do jazigo. O homem diz que quer apenas apanhar as cinzas do pai sozinho, sem a companhia vigilante da “unidade de trabalho”. “Não tenho mais 3 anos de idade! Não preciso de acompanhamento!” Nada feito. Ou a “unidade” o acompanha para apanhar as cinzas, ou o motorista não vai ter acesso aos restos mortais do próprio pai.

“A máquina do governo é tão poderosa!”, desabafa. “Para manter a estabilidade, o governo usa tantos recursos! Tanta força de trabalho para me monitorar e me controlar! Muitas pessoas já perderam familiares para o vírus, e elas também estão sendo monitoradas pela Secretaria Local de Segurança Pública. Se eles têm tantos recursos e poderes contra as famílias, por que não tentam nos ajudar para resolver nossos problemas?”

Wuhan, que foi o berço e a primeira vítima de covid-19, aparentemente já superou o período crítico. O governo fez da cidade e da própria China um “símbolo global de governança superior”. A jornalista Vivian Wang escreveu para a edição de 6 de novembro do The New York Times uma reportagem sobre a onda de séries, filmes e até uma ópera exaltando os “guerreiros de avental branco” e os “heroicos trabalhos de membros do Partido”.

Segundo Vivian Wang, os jornalistas locais que denunciaram o descontrole da fase inicial da doença foram presos e alguns ainda estão desaparecidos. O governo enviou à cidade no auge da crise, em fevereiro, roteiristas “chapas-brancas” para que escrevessem uma série chamada Com Você, “exaltando o êxito das medidas oficiais”. Esta é uma fórmula básica do Partido: afastar quem discorda do governo e criar a própria narrativa para explicar a realidade. Parece familiar?

A repórter também diz que outra série, chamada Heróis a Caminho do Problema, foi criticada por sugerir que mulheres não colaboraram na luta contra o vírus. Nenhuma dessas produções cita Li Wengliang, o médico que avisou aos amigos que havia um novo tipo de doença devastadora. Li foi punido e silenciado. Morreu de covid-19. A reportagem do The New York Times sugere que a situação na cidade hoje não está tão sob controle nem tão bem resolvida como sugere o governo.

Uma das cenas mais marcantes de Coronation aparentemente não tem relação com a pandemia. Uma leva de adolescentes é reunida num prédio oficial, de frente para a bandeira da China e o símbolo da foice e martelo. De máscara, os jovens estão lá para prestar juramento de fidelidade ao Partido. Uma comissária ensina a garotada a fazer corretamente o gesto do juramento, levantando o braço direito, com o punho cerrado e o cotovelo num ângulo de 90 graus. Em seguida, cita as palavras que são repetidas frase a frase pelos adolescentes:

“É meu desejo juntar-me ao Partido Comunista Chinês. Apoiar o programa do Partido, observar a disciplina do Partido. Guardar os segredos do Partido. Ser leal ao Partido. Trabalhar diligentemente. Lutar pelo comunismo enquanto eu viver”.


Dagomir Marquezi, nascido em São Paulo, é escritor, roteirista e jornalista. Autor dos livros Auika!, Alma Digital, História Aberta, 50 Pilotos — A Arte de Se Iniciar uma Série e Open Channel D: The Man from U.N.C.L.E. Affair. Prêmio Funarte de dramaturgia com a peça Intervalo. Ligado especialmente a temas relacionados com cultura pop, direito dos animais e tecnologia.

 

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9 comments

  1. Uma maravilha. It’s as “another day in paradise”. Seria uma boa ideia exportar a esquerdalha comunista toda para a China. Face ao momento atual vivido no Brasil e as perspectivas negras já visíveis no horizonte, fico feliz com os meus quase 80 anos, doença aterotrombótica difusa com quatro AVCs, cancer melanoma, câncer de próstata (retirado), enfisema pulmonar, apneia severa e uso de CPAP há 17 anos, linfedema, artrites e artroses com inúmeras degenerações e “otras cositas más”. A chance de viver sob um regime asqueroso desses com seus “adoradores” rastejantes e nojentos é praticamente nula, para mim. O que não me tranquiliza, pois tenho filhos e netos e temo por meus amigos e demais brasileiros inocentes que jamais adeririam a uma ignomínia dessas.

    1. Ney Pereira também tenho câncer, metástases, pressão alta e “outras visitas mas” e concordo plenamente com vc. É realmente muito triste ver a esquerdalha controlar o STF soltando o maior ladrao, de todos os tempos, do mundo inteiro. Soltando um chefão do PCC, proibindo a polícia carioca de atuar nos morros a pedido do PSOL. A esquerdalha controla o STF isso é fato tanto é que ainda persegue jornalistas que lhes fazem oposição, como faz muito bem o PCC, nós não temos o PCC aqui (ainda) mas temos a esquerdalha e pior temos o STF

  2. Espetacular Dagomir…vou divulgar o mais que posso. Saber destas coisas é um direito das pessoas e se não for através de nós…???!!! Da mídia esquerdopata vendida é que não será!
    Obrigado pelo show de reportagem!

  3. Essa brilhante narrativa da vida no INFERNO, seria muito produtiva pra sabermos o que não queremos para nosso querido, bonito e livre BRASIL.

    O problema são os 40 a 50% dos humanos imbecis, cuja capacidade de discernimento é muito parecida com a dos bovinos ou das galinhas, que correm atrás de quem lhe oferece um punhado de milho.

    Como a China é o maior importador de produtos Brasileiros, proponho uma campanha pra aumentarmos nossos pauta de exportação para o parceiro asiático, incluindo é claro, todos os nossos ESQUERDOPATAS…!

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