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Mossul e a volta do Estado Islâmico

O ISIS mudou o foco de ação para a África. Já matou no continente mais de 1,5 mil pessoas e deixou 250 mil desabrigadas

Mosul, o filme — sucesso instantâneo na Netflix —, começa com uma cena real. Um drone sobrevoa ruas que desapareceram entre os escombros. Não existe um prédio, uma casa, um muro em pé. Tudo é ruína. O drone voa sobre a morte.

Mossul, a cidade dividida pelo Rio Tigre, fica na região norte do Iraque. Na margem esquerda do rio estão os restos de Nínive, a cidade de 8 mil anos por onde caminharam assírios e babilônios. É uma ironia que em Mossul a civilização humana tenha tido um de seus berços. E que em Mossul a civilização pareceu ter encontrado seu fim.

O filme é perturbador. Com excelente elenco iraquiano, mostra um dia na vida de Mossul durante a luta para expulsar os militantes do Estado Islâmico. Os combatentes do ISIS parecem zumbis saídos da série Walking Dead. Ninguém espera deles uma rendição, um diálogo, um gesto de humanidade, qualquer dúvida existencial. São máquinas de matar. Acreditam que a morte em combate os levará direto ao paraíso, onde 72 mulheres eternamente virgens os esperam junto a rios de mel e leite.

O Estado Islâmico anda sumido do noticiário. Especialmente depois que foi anunciada a morte de seu líder máximo, em outubro do ano passado. Fisicamente, já não ocupa um território do tamanho da Coreia do Sul. Não mantém mais uma população de escravos nem transmite degolas coletivas ao vivo. Mas o Estado Islâmico não morreu. Voltou em novo estilo.

Em seu livro ISIS: The Essential Reference Guide, Brian L. Steed conta que a organização nasceu modesta, com a sigla JTJ, significando “Grupo de Monoteísmo de Jihad”. Era mais um dos muitos filhotes da Al-Qaeda, a organização estrelada por Osama bin Laden que provocou o grande massacre do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, no ano seguinte, o JTJ se mudou para o Iraque.

Lá, cumpria a “rotina” de uma organização terrorista: recrutava e treinava seguidores, que eram enviados para realizar atentados em países muçulmanos moderados como Jordânia, Turquia e Marrocos. Quando os EUA invadiram o Iraque, em 2003, para derrubar o ditador Saddam Hussein, o JTJ se esforçou para se destacar como o mais violento e impiedoso entre tantos grupos rivais que combatiam os norte-americanos.

A estratégia deu certo. O JTJ cresceu. Em 15 de outubro de 2006, mudou seu nome para ISIS, ou “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”. Usava métodos típicos de quadrilhas — sequestros, domínio das ruas pela violência, manipulação de chefes tribais, tráfico, roubo. Mesmo assim, ainda era apenas uma de muitas organizações terroristas em busca de atenção.

Dois fatores ajudaram a transformar o ISIS num fenômeno global. Em 2010 teve início o movimento conhecido como Primavera Árabe, que reivindicava mais liberdade na região. Na Síria, o movimento deu terrivelmente errado. O país entrou na guerra civil que prossegue, uma década depois. No Iraque, a queda de Saddam Hussein alterou drasticamente o equilíbrio de poder. Nos dois casos, as respectivas populações sunitas se sentiram prejudicadas e ressentidas.

Revistas digitais do ISIS descreviam a técnica correta para “fatiar a carne de quem se opõe ao Islã”

O ISIS soube aproveitar essa frustração e optou por ser definitivamente uma organização de sunitas. O grupo se firmou na convicção de que o islamismo deveria se fixar em suas raízes do século 8. A lei da Charia trouxe de volta punições como o apedrejamento, a crucificação e a decapitação. Todo monumento e qualquer resquício de cultura que não fosse muçulmana deveriam ser destruídos, independentemente de seu valor histórico. O ISIS já estava “cancelando” faz tempo.

Foi no caos da guerra civil na Síria que o acadêmico Abu Bakr al-Baghdadi declarou, em 29 de junho de 2014, a fundação do Estado Islâmico. O ISIS deixava de ser uma organização para se tornar um “país”. Al-Baghdadi autoproclamou-se califa (líder máximo), com autoridade sobre 1,5 bilhão de muçulmanos.

Naquele 2014 o mundo começou a assistir na TV ao desfile de militantes mascarados do ISIS pelas cidades do Iraque e da Síria, dando tiros para o ar e exibindo a sinistra bandeira negra da organização. O ex-presidente Barack Obama subestimou o fenômeno dizendo que “usar o blusão do Lakers não faz deles Kobe Bryant”. Enquanto isso, o Estado Islâmico crescia rapidamente e passava a atacar as forças regulares iraquianas. A cidade síria de Raqqa se tornou sua “capital”. E a tomada de Mossul, com mais de 1 milhão de habitantes, virou um símbolo do poder da organização.

A fama do ISIS se expandiu com o uso esperto de tecnologia digital e das redes sociais. Mesmo advogando ideias medievais, os terroristas sabiam como criar vídeos moderninhos e peças profissionais de propaganda. Usavam drones para registrar degolamentos em massa com estilo de videoclipes musicais. Passaram a atrair a adesão de grupos extremistas de países com forte presença muçulmana.

A organização chegou a publicar entre 2014 e 2017 duas revistas digitais de nível profissional, chamadas Dabiq e Rumiyah. Seus artigos tratavam de assuntos como a importância da escravidão para o mundo muçulmano. Ou descreviam a técnica correta no uso de uma faca para “fatiar a carne de quem se opõe ao Islã”.

O ISIS virou “pop” para hordas de jovens em busca de uma causa, vindos especialmente do Reino Unido, da Bélgica e da França. Colegiais ingleses rumavam para o território tomado pelo Estado Islâmico como adolescentes a caminho da Disneyworld. Garotas “casavam-se” com os terroristas e passavam a procriar seus filhos para povoar o ISIS de amanhã. Segundo o Centro Internacional para o Estudo da Radicalização (ICRS, na sigla em inglês), 41.490 voluntários de vinte países da Ásia, África e Europa deram um jeito de entrar no território ocupado. Muitos, treinados e doutrinados, retornaram depois ao seu país de origem.

Em sua expansão territorial, o ISIS arrasou com minorias não muçulmanas, como cristãos, yazidis e curdos. Com essas minorias praticavam, segundo Brian L. Steed, “assassinatos em massa, escravização, estupros coletivos e raptos”. Jornalistas eram decapitados. Homossexuais, jogados do alto de prédios. Cristãos, crucificados.

Os curdos foram desde o princípio os maiores adversários do ISIS. Suas mulheres guerreiras viraram símbolo de extrema coragem. Fazia parte da mitologia desenvolvida pela organização que um combatente homem morto por uma mulher não conseguiria entrar no paraíso.

A estratégia mudou. Mas a violência permanece

Dados da ONU revelaram que o ISIS escravizou em seu breve reinado cerca de 3.500 pessoas, especialmente mulheres e crianças da comunidade yazidi, que segue uma fé de raízes primitivas. Os números exatos da “limpeza étnica” promovida pelo Estado Islâmico jamais serão conhecidos.

Manter um território de 100 mil quilômetros quadrados e 11 milhões de habitantes, mesmo que nas piores condições, não é barato. O dinheiro entrava na forma de doações de simpatizantes, produção clandestina de petróleo, pagamento de resgate, tráfico de objetos raros e extorsão. Mas não era suficiente. Isolado pela comunidade internacional, o Estado Islâmico não conseguiu se sustentar nem por alguns meses. Restou a violência pela violência.

A guerra se tornou ainda mais devastadora em 2015, com a disputa rua a rua de cidades importantes como Tikrit (onde nasceu Saddam Hussein), Ramadi e Kobani. No final do ano, cerca de 30% do território capturado pelo ISIS havia sido retomado por uma combinação de combatentes locais e ataques aéreos.

Com o passar do tempo, mais forças se uniram para acabar com o domínio do Estado Islâmico. O ISIS conseguiu o milagre de unir contra ele governos que não se suportam, como os do Irã e dos EUA. A situação chegou a tal ponto que as forças aéreas norte-americana e russa tiveram de criar um código de trânsito para que seus aviões pudessem bombardear o território do ISIS em horários alternados, evitando acidentes.

Àquela altura, a violência do ISIS parecia não ter mais nenhum objetivo. Em 31 de outubro de 2015, um avião com 224 turistas russos foi derrubado na Península do Sinai, no Egito, por ordem do ISIS. Catorze dias depois aconteceu o massacre do Bataclan, que levou 130 pessoas à morte aleatória nas ruas de Paris.

A maré virou. Soldados iraquianos e curdos (com auxílio de outras forças) foram libertando aldeia por aldeia das garras do ISIS. A batalha por Mossul foi a mais difícil e durou nove meses, entre outubro de 2016 e julho de 2017. Reduziu a maior parte da cidade aos escombros vistos no filme da Netflix.

O território do Estado Islâmico foi encolhendo até que o governo do Iraque declarou vitória contra o ISIS em dezembro de 2017. Restaram alguns bolsões que precisaram de uma limpeza cirúrgica das forças de segurança. Em outubro de 2019 (já no governo Donald Trump), o “califa” Abu Bakr al-Baghdadi foi cercado por forças especiais dos EUA em sua base secreta no norte da Síria. Aparentemente ele se suicidou durante o cerco. Seu substituto, o egípcio Amir Mohammed Abdul Rahman al-Mawli, começou mal: segundo o jornal britânico The Times, Al-Mawli havia entregue a identidade detalhada (e até os números dos celulares) de 68 membros da Al-Qaeda às forças norte-americanas quando esteve preso em 2008.

Engana-se quem imagina que o Estado Islâmico acabou. Sua estratégia mudou. O palco de ação também. Mas a violência permanece. Um exemplo notório aconteceu em abril do ano passado, quando um grupo ligado ao ISIS atacou igrejas e hotéis de luxo no Sri Lanka, matando quase 300 pessoas e ferindo mais de 500.

Cena inicial do filme Mosul, coprodução da Netflix

O novo alvo do Estado Islâmico é a África. A organização aproveitou o colapso inicial provocado pela pandemia de covid-19 para se reorganizar e voltar à ação. Segundo sua máquina de propaganda, o novo coronavírus foi uma “punição divina ao Ocidente”.

Nessa nova fase, militantes ligados ao Estado Islâmico já mataram mais de 1.500 pessoas no continente africano e deixaram um quarto de milhão sem abrigo. Segundo a analista de segurança Jasmine Opperman, a estratégia inclui conquistar um território fixo na parte norte de Moçambique e de lá se espalhar para o resto da África.

Em outubro, mais de 1.300 prisioneiros foram libertados da cadeia de Kanggbayi, no Congo, numa ação coordenada pelo ISIS. Na Nigéria, a estrada para a região nordeste, Maiduguri, é na prática um território sob controle do Boko Haram e do Estado Islâmico. Os terroristas de vez em quando armam barreiras para caçar cristãos. A nova onda de violência do ISIS já atingiu países como Mali, Níger, Chade, Camarões e Burkina Fasso.

O Centro de Informações sobre Terrorismo e Inteligência Meir Amit, de Israel, lançou um relatório em julho afirmando que o ISIS mudou de entidade quase estatal para “um grupo de guerrilha e terrorismo que não controla territórios ou populações”. Outras atitudes adotadas depois da morte do seu líder: 1) abandonar por algum tempo a ideia de formar um califado; 2) continuar as atividades de guerrilha e terrorismo para estabelecer uma guerra de atrito; 3) manter a sobrevivência da organização; 4) descentralizar seu comando; 5) preservar a unidade; e 6) fortalecer o sistema de mídia.

Essa capacidade de se renovar é uma das maiores forças do ISIS — uma prova de que os terroristas sabem se adaptar a novas situações. Se vão ser novamente bem-sucedidos ou não, ainda é cedo para avaliar. Mas a experiência do Estado Islâmico já trouxe duas lições importantes.

A primeira lição é que um grupo de fanáticos decididos pode jogar uma população no caos e na barbárie em poucos meses. Pior ainda — essa falta de limite ético ou moral atraiu para o abismo dezenas de milhares de voluntários, alguns muito bem educados em escolas europeias. O ISIS é mais uma prova de que, com a doutrinação mais primária, você pode levar gente perdida na vida e com sentimento mal resolvido de culpa a se entregar a qualquer causa.

A segunda lição nós já conhecemos. Veio em forma de silêncio. Organizações e personalidades que se manifestam com tanta estridência acerca de causas humanistas, feministas, pela diversidade sexual e contra a exploração de crianças calaram-se. Para muitos desses “ativistas”, a barbárie causada pelo ISIS nem deveria ser condenada. Afinal, pertence a outra cultura. Além do mais, qualquer crítica pode ser encarada como um sinal de islamofobia.

As vítimas do ISIS não mereceram passeatas, posts de astros de cinema ou abaixo-assinados. Muçulmanos moderados protestaram muito pouco e muito tarde. No silêncio de suas noites de terror, as meninas escravas yazidis aprenderam cedo que suas vidas não importam.

Leia também o artigo “Não existe cura para o terrorismo”


Dagomir Marquezi, nascido em São Paulo, é escritor, roteirista e jornalista. Autor dos livros Auika!, Alma Digital, História Aberta, 50 Pilotos — A Arte de Se Iniciar uma Série e Open Channel D: The Man from U.N.C.L.E. Affair. Prêmio Funarte de dramaturgia com a peça Intervalo. Ligado especialmente a temas relacionados com cultura pop, direito dos animais e tecnologia.

 

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16 comentários

  1. Uau! Quanto eu não sei sobre todos esses assuntos! Fiquei muito contente por ter a oportunidade de saber um pouco, através de seu texto. Grata.

  2. Grande texto,. Para quem tenta simplificar os problemas que começam no Oriente-médio e se alastram pela Ásia, África e até mesmo Europa, funciona como um choque de realidade.

  3. Dagomir Marquesi sabe escrever de forma bastante técnica e didática sobre assuntos de dor e morte. E o fecho do artigo merece nota 10, uma bofetada na cara dos hipócritas.

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