Viagens interiores em tempos de pandemia

O ano de 2020, embora marcado por tanto medo e tanta revolta, também foi quando milhares de pessoas se perguntaram: o que realmente importa?

Parques, lojas, bares e restaurantes fechados. Familiares e amigos distantes. Rostos cobertos por máscara. Escolas fechadas para crianças. Residências transformadas em local de trabalho. E um inimigo invisível e desconhecido do lado de fora. Com o confinamento em casa, a opção foi viajar para dentro. O ano de 2020, embora marcado por tanto medo, tanta insegurança e tanta revolta, também foi quando milhares de pessoas ao redor do planeta se perguntaram: o que realmente importa?

A pergunta abriu um vasto leque de caminhos: muitos se dedicaram à culinária, outros a trabalhos manuais, alguns à pintura. Uma parcela considerável decidiu mergulhar na busca da espiritualidade e do autoconhecimento. “Todas as nossas referências vêm do mundo externo: rotina, amigos, família, trabalho, academia, escola, faculdade”, observou a psicóloga Márcia Grechi Della Negra, gestora da Escola Livre de Estudos Biográficos de São Paulo. “Quando tudo isso desaparece, as pessoas começam a buscar o sentido da própria vida e a se questionar: ‘O que estou fazendo?’, ‘Para onde estou indo?’, ‘Como posso ir ao encontro de quem realmente sou?’”.

Segundo a Hotmart, uma das maiores empresas no mercado de produtos digitais no Brasil, a procura por cursos no segmento de Espiritualidade e Autoconhecimento, que já crescia em ritmo acelerado, quase triplicou neste ano. Em 2019, o aumento foi de 52%. Em 2020, saltou para 130%. Entre as principais categorias estão espiritualidade, meditação, religiosidade, teologia e astrologia.

O catálogo da Hotmart é amplo. As opções vão desde um programa de “21 dias para ressignificar a sua vida com a Monja Cohen” até formação profissional em Feng Shui e um master de hipnose clínica, passando por cursos denominados “Reconexão com a essência” e “Sobre o budismo”. O programa ministrado pela Monja Cohen, por exemplo, promete ensinar a “conectar-se com seu mundo interno e a ouvir sua voz, e, mais importante que tudo, criar um lugar seguro dentro de você de forma que todas as situações difíceis com as quais terá de lidar se tornarão mais fáceis e menos estressantes”.

Formulada pelo cirurgião plástico norte-americano Maxwell Maltz em meados da década de 1960, a chamada “teoria dos 21 dias” passou a ser bastante usada em grupos de meditação. A tese sustenta que pacientes levam em média esse período para começar a notar os benefícios e mudanças depois de um procedimento cirúrgico. Neste confinamento, não foram poucos os que se arriscaram no programa de 21 dias de meditação do médico indiano Deepak Chopra, criado em parceria com a apresentadora Oprah Winfrey. Ou no oferecido pela Arte de Viver, fundação com sede em mais de 150 países, criada pelos seguidores do guru indiano Sri Sri Ravi Shankar. A proposta da Arte é autodesenvolvimento e eliminação do estresse por meio de técnicas de respiração, meditação e ioga.

Outro fenômeno na área é a norte-americana Adriene Mishler, fundadora do canal Yoga with Adriene, no YouTube desde 2012. Nos primeiros três meses da pandemia, a média de 500.000 visualizações por dia de seus vídeos na rede social passou para 1,5 milhão. Segundo uma reportagem do jornal New York Times, no Halloween, Mishler pintou seu rosto como o de um cadáver e fez um vídeo chamado “Yoga para quando você se sente morto por dentro”. Os comentários funcionaram como uma espécie de termômetro emocional mundial, escreveu o jornal. “Alguém chamado Joel postou que atualmente se sentia morto por dentro ‘na maior parte do tempo”’, destacou a reportagem.

No oceano de lugares-comuns e promessas duvidosas, há dezenas de cursos, aulas, workshops, podcasts, vídeos e páginas em redes sociais de qualidade indiscutível, tanto pagos quanto gratuitos. Entre eles, o Elefantes na Neblina. Com 37 capítulos disponíveis, o podcast é produzido por três anônimos que se identificam pelos codinomes Larry Go, Larry Be e Larry Snow. “Somos ninguém. Assim podemos ser todos”, diz o slogan. Desde 19 de março, o trio se encontra de tempos em tempos (a regularidade é incerta) para conversar sobre assuntos relacionados à vida, à espiritualidade e aos efeitos da pandemia no comportamento das pessoas.

Outra boa novidade foi o PositivApp, aplicativo que reúne práticas de meditação e autoconhecimento, idealizado por Renata Rocha, que há mais de 20 anos trabalha nessa área. “Sabemos que todo esse clima de tensão e isolamento pode gerar sentimentos coletivos de incerteza, medo e ansiedade”, diz o texto de lançamento da campanha #meditacomigo, também lançada em 19 de março na página do PositivApp no Instagram. “É importante lembrarmos que a internet é uma forma poderosa de conexão e que a meditação é uma ferramenta eficaz para acalmar a mente e ajudar a lidar melhor com esse momento tão desafiador.”

Durante os meses em que as medidas de isolamento estavam mais severas, eram oferecidas duas meditações diárias, ao vivo e gratuitas. “Sem podermos sair de casa, estamos sendo convidados a olhar para dentro e a refletir sobre o que queremos fazer com nosso tempo, nossos talentos e o mundo a nossa volta agora e quando tudo isso acabar”, disse Renata, numa entrevista publicada em março na revista Vogue. “Se aproveitarmos a oportunidade para cultivar paz mental e autoconsciência, sairemos da quarentena mais fortes do que entramos.”

Reflexões da quarentena

Foi durante essas “reflexões da quarentena” que a empresária Carla Palermo decidiu pôr em prática um propósito de vida. Dona da agência de viagens NovaSafari, ela conta que, com o mercado estagnado por causa da pandemia, se viu com tempo livre pela primeira vez na vida e começou a estudar temas como saúde, ayurveda e alimentação. Assim surgiu a Omm Journeys, uma empresa que tem como objetivo oferecer roteiros voltados “ao bem-estar, à saúde integral — do corpo, mente e espírito — e ao desenvolvimento pessoal e profissional”.

“Fazia ioga e já me interessava pelo assunto, mas sempre estava ocupada com alguma coisa”, conta Carla. “Até então, era um interesse pessoal, mas comecei a ver que muita gente estava em busca de conteúdo. Como para mim as viagens sempre tiveram um potencial transformador, ficou claro que havia um caminho nessa direção.”

Marcada para o fim de março de 2021, a primeira viagem da Omm será para a Serra da Mantiqueira. Com o lema “A vida como jornada”, ela tem o objetivo de proporcionar a conexão entre mente, espírito e corpo. Na programação, ioga, meditação, conversas, rituais e mantras, conduzidos por Marcia de Lucca e Ana Raia, duas mulheres bastante conhecidas daqueles que estão no caminho do autoconhecimento. “A ideia é inverter os papéis”, explicou Carla. “Normalmente, as pessoas mudam sua vida apenas durante a semana que passam num spa. Queremos que elas aprendam a trazer esse estilo de vida para o cotidiano.”

O nome escolhido para batizar essa viagem inaugural tem relação com a mudança de valores que Carla viu acontecer durante a pandemia. “Em vez de passar a vida em busca de uma realização futura, de uma conquista que está sempre lá na frente, vamos falar da vida como jornada”, contou. “Um fornecedor indiano com o qual trabalho observou que, quando está fora da zona de conforto, com dor, sentindo-se fraco, doente, inseguro, o ser humano procura por Deus. Se a população de uma nação tão espiritualizada com a da Índia age assim, imagine no Brasil.”

Márcia Grechi Della Negra observa que espiritualidade e religião são coisas distintas. A segunda é uma devoção a algo externo. A primeira, segundo a psicóloga, é a busca por si mesmo, um apelo para que se entre em contato com o ser interior. Para explicar como a pandemia mexeu com o psicológico de uma porção de gente, ela recorre a um poema do escritor alemão Ulrich Schaffer: “Eu cresço e amadureço pelo silêncio. / Por este silêncio pleno, interno, / no qual eu não mais me permito / encobrir algo / com o corre-corre de minha vida. / Ali se torna claro / quem eu sou, / de onde eu venho / e para onde eu vou, / quem eu posso ser / e quem eu não quero ser mais”. Para Márcia, o isolamento social provocado pelo confinamento colocou o homem em contato com esse silêncio.

Depressão e ansiedade

Uma das consequências disso e da solidão imposta pela pandemia foi o aumento dos casos de depressão. Nove meses depois de instituídas medidas de isolamento social, os registros da doença praticamente dobraram entre os entrevistados, segundo um levantamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) realizado com 1.460 pessoas em 23 Estados.

O estudo, coordenado pelo professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj, em parceria com o fisiologista do Exercício Clínico Matthew Stults-Kolehmainen, do Hospital New Haven, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, conclui que a prevalência de pessoas com estresse agudo subiu de 6,9% para 9,7% — aumento de 40% em relação ao período pré-pandemia. Os casos de depressão evoluíram de 4,2% para 8%. Já os de crise aguda de ansiedade foram de 8,7% para 14,9% — alta de 71%.

Em entrevista a Oeste, o neurocirurgião Paulo Porto de Melo advertiu que os efeitos psicológicos do isolamento radical eram devastadores. “Os índices de suicídio aumentam em todos os países e nas principais cidades” afirmou. “Já é comum ouvir de pacientes mais idosos que preferem contrair a doença e morrer a permanecer afastados de seus entes queridos.”

Márcia observou que o medo da morte é tão apavorante para alguns que eles simplesmente deixam de sair de casa. Outros se sentem de tal forma imunes que saem sem nenhuma proteção. “E existem aqueles que, apesar do natural medo de morrer, conseguem sair e se proteger”, diz. “Usam álcool em gel, máscara, têm uma alimentação saudável, tomam vitaminas, praticam atividades físicas, cantam e dançam.”

Uma dúvida que fica é: quando tudo isso acabar, esse caminho em busca da espiritualidade continuará a ser trilhado? Para Carla Palermo, ainda que a grande maioria se desvie, uma parte considerável permanecerá nele. “Só o fato de uma parcela da população enxergar que existe outra forma de vida já é válido”, acredita. “E essas pessoas vão plantar sementes em volta delas, que serão disseminadas.” Márcia Grechi é ainda mais otimista. “Essa atitude responsável diante do mundo é um caminho sem volta”, diz. “Não é um compromisso com um deus, com Jesus ou com um ser espiritual que está fora de você. É um compromisso com o seu ser espiritual interior.”

 

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