Não, as mulheres não são “melhores” na política

A equipe de comunicação feminina de Joe Biden parece uma façanha cínica para satisfazer o prometido

Joe Biden gosta de manter as mulheres por perto. E, em uma das etapas mais comentadas em seu caminho para a Presidência, ele anunciou a nomeação de uma equipe de mídia feminina para a Casa Branca.

Suas escolhas são incontroversas. Jen Psaki será sua secretária de imprensa. É uma porta-voz democrata de longa data que trabalhou no governo Obama e por pouco perdeu o cargo principal nos anos anteriores. Kate Bedingfield é diretora de comunicação. É amiga de Psaki e também uma veterana ativista democrata. Karine Jean-Pierre (anteriormente chefe de gabinete de Kamala Harris) atuará como secretária de imprensa adjunta. Elizabeth Alexander assume o papel de diretora de comunicações de Jill Biden, enquanto Neera Tanden vai liderar o escritório federal de gerenciamento e orçamento (agora que excluiu todos os tuítes de #MoscowMitch sobre a teoria da conspiração favorita dos democratas — que a Rússia roubou a eleição de Hillary Clinton em 2016).

As pessoas estão elogiando a equipe de comunicação feminina de Biden. Ele está cumprindo a promessa de que sua Presidência será um “momento de cura”, afirmam. Mas alguns estão chateados com as alegações de que a inclinação de Biden por mulheres é um avanço significativo. A secretária de imprensa de Donald Trump, Kayleigh McEnany, destacou no Twitter que Trump já tem uma equipe exclusivamente feminina. Na verdade, mais mulheres foram nomeadas secretárias de imprensa durante os governos republicanos do que nos democratas. Antes de McEnany, houve Sarah Sanders e Stephanie Grisham. E quem poderia esquecer Kellyanne Conway?

Não há nada de excitante ou revolucionário em colocar um grupo de mulheres em posições de poder simplesmente porque são mulheres. Feministas argumentam que ver as mulheres no poder é a única maneira de inspirar outras mulheres a fazer melhor. Ou dizem que as mulheres podem apresentar uma estratégia política “menos masculina” em um mundo de Trumps, Putins e Kim Jong-uns. Quase se tornou cansativo lembrar que muitas mulheres na política fizeram o oposto de “consenso” e “cura”. Margaret Thatcher pode ter sido a primeira mulher primeira-ministra britânica, uma líder excepcional, que conduziu a nação para o rumo da prosperidade, mas isso não a impediu de reprimir as liberdades. Aung San Suu Kyi, de Mianmar, anteriormente premiada com o Prêmio Nobel da Paz por simbolizar o “poder dos impotentes”, foi cúmplice na perseguição aos muçulmanos rohingyas. É claro que nem todas as mulheres são politicamente corruptas, mas também não devemos presumir que elas sejam mais conciliatórias simplesmente por causa de seu sexo. Sylvia Pankhurst não estava interessada em conciliar sua política com uma imagem pública mais feminina — ela queria uma revolução.

O anúncio de Biden parece cínico. E a reação positiva da mídia a isso é oportunista. Os norte-americanos não estão sofrendo de amnésia coletiva: eles se lembram que muitas das comentaristas femininas atualmente torcendo pelas nomeações femininas de Biden eram as mesmas pessoas que o chamaram de “Joe assustador” há alguns meses ou que até apoiaram as alegações de que ele havia abusado e assediado mulheres.

Ao selecionar um grupo de mulheres mais jovens e diversificadas, o que Biden está realmente dizendo é: “Não se preocupe, sou mais empoderado do que Trump”. Parece oco e vazio — especialmente considerando que muitas dessas mulheres trabalharam sob presidências ou campanhas democráticas por anos, e nem os Clinton nem Obama proporcionaram qualquer mudança radical para as mulheres no que se refere a direitos ao aborto, creches ou melhores salários. Na verdade, sob as políticas do Título IX (regulamentos federais que regem o tratamento das alegações de agressão sexual e assédio sexual por faculdades e universidades norte-americanas) da administração Obama no câmpus (apoiado por Biden), efetivamente se restabeleceram as regras de in loco parentis de proteção para as mulheres na universidade, que eram sexistas e infantilizantes. Kamala Harris — celebrada por ser a primeira vice-presidente negra — causou grandes danos à vida das mulheres como promotora na Califórnia, ao encarcerar milhares de seus irmãos, pais e namorados.

Para um grupo que é tão obcecado por quebrar limites, confundir linhas e desafiar estereótipos, a elite política de hoje está inexplicavelmente obcecada pela ideia de que as mulheres naturalmente proporcionam um ambiente mais seguro, agradável e “curador” na política. Esse é apenas um entendimento sexista do século 19 do papel das mulheres na sociedade reabilitado para um público feminista moderno. Não importa se o secretário de imprensa de um presidente é homem ou mulher — o que importa são as políticas que estão anunciando e promovendo. Como é o caso da política de identidade de maneira mais ampla, a celebração das mulheres por Biden faz muito para massagear o ego das feministas de classe média, mas pouco para mudar a vida e as perspectivas das mulheres em toda a América.


Ella Whelan é colunista da Spiked e autora de What Women Want: Fun, Freedom and an End to Feminism (O que as Mulheres Querem: Diversão, Liberdade e um Fim para o Feminismo, em tradução livre).

 

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