A inocência do ladrão

Nada aconteceu. Foi uma ilusão de ótica decorrente da vara errada, do tribunal errado, da galáxia errada. A condenação de Lula foi coisa do outro mundo

Fachin acordou invocado e inocentou o Lula. É assim mesmo que a Justiça tem que ser: rápida, decidida e leal aos seus padrinhos. Justiça boa é justiça amiga. A decisão histórica do ministro do STF livrou o Brasil de uma névoa de incertezas com as quais os brasileiros não suportavam mais conviver. A principal delas era a mais óbvia: por que o maior ladrão do país, condenado a mais de 20 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, estava à solta sem pagar pelos seus crimes?

Fachin resolveu essa angústia nacional: o ladrão é inocente. Fim de papo. Ladrão inocente é ladrão solto. Desenvolto. Desimpedido. Desembargado para exercer em paz sua delinquência benévola, sua rapinagem testada e aprovada em altos círculos intelectuais. A burguesia rica que ama seu picareta de estimação, seu revolucionário 171, seu bibelô da falsa preocupação social está aliviada. Ela poderá voltar a fantasiar seu egoísmo de solidariedade só com as duas palavrinhas empáticas — Lula livre. Não precisa nem gastar dinheiro com costureira. É o carnaval mais barato da Terra.

No quesito alegoria e adereços, ninguém barra o desfile de Luiz Edson Fachin. Ele tirou da cartola um embargo de declaração e transformou em purpurina três instâncias da Justiça brasileira. Não valeu nada. Tava tudo no lugar errado. Foram sete anos de confirmações, em cortes de todos os níveis, de que estava tudo no lugar certo. Mas, como informamos anteriormente, Fachin acordou invocado — e quando um homem resoluto acorda invocado ele pode corrigir até o Big Bang. Aí as plantinhas podem ir devolvendo aquela fotossíntese toda porque a luz veio do sol errado. Sem choro: contrata um advogado amigo do STF e vai procurar o seu sol.

A bolsa despencou porque não entendeu a beleza do ato de Fachin. Com uma canetada, ele acabou com a insegurança jurídica no país, desfazendo uma torrente de dúvidas que paralisavam os brasileiros. Para início de conversa, ninguém conseguia entender por que o sítio do Lula que não era do Lula tinha pedalinhos personalizados com o nome do ladrão mais honesto do Brasil. Ou por que o caseiro do sítio se comunicava com o Instituto Lula para informar a situação dos pintinhos que não eram dele. Todo mundo sabe que Lula assaltou a Petrobras sem deixar de ser um homem bom. Mas usar o dinheiro roubado para cuidar do pintinho dos outros já é bondade demais.

Fachin resolveu essas angústias. Nada disso aconteceu. Foi uma ilusão de ótica decorrente da vara errada, do tribunal errado, da galáxia errada. A condenação de Lula foi coisa do outro mundo. Neste aqui sempre esteve tudo bem. Como diria a quadrilha do PT: o petróleo é nosso e o pixuleco também. O resto é choro de perdedor. Otário é você que não soube fazer as amizades certas. O Fachin soube — e agora está fazendo história. O Brasil odeia quem dá certo.

A angústia passou. Aquela incerteza incômoda sobre se iria ou não ser instalado um elevador privativo no tríplex do Guarujá acabou. Foram anos de sofrimento dos brasileiros, pensando que isso era assunto deles. Agora está esclarecido, para alívio geral: isso era assunto particular do Lula com os empreiteiros que o ajudaram a assaltar a Petrobras, e ninguém tinha nada com isso. Finalmente as coisas estão sendo colocadas nos seus devidos lugares.

O astral está tão bom que já é hora de a imprensa amiga plantar uma notinha dizendo que Lula vai processar o Brasil por danos morais. Seria mais do que justo. Passar anos sendo alvo da desconfiança de milhões de pessoas? E não tendo feito absolutamente nada além de se locupletar e enriquecer seus familiares, amigos, correligionários e cúmplices com o produto do roubo progressista e democrático? Que país é este?

Exija reparação, Lula! E não só você. Também o Bumlai, o Vaccari, o Dirceu, o Delúbio, o Cerveró, o Paulinho do Lula, o Duque, o Silvinho, o Valério, o Valdomiro, a Rose, a Erenice, enfim, o bando todo. O Fachin certamente vai se sensibilizar com a perseguição raivosa sofrida por vocês. E andem logo, porque, se isso aqui não tiver virado um bordel, daqui a pouco a polícia estará voltando a conversar com vocês sobre as suas obras completas. Nem 200 milhões de Fachins poderão apagá-las.

Leia também a reportagem de capa desta edição, “Farra na republiqueta”

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