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Bia Kicis no olho do furacão

Na linha de frente do governo Bolsonaro, deputada enfrenta artilharia pesada da oposição no comando da CCJ

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) é a mais importante em qualquer Casa legislativa do país. Na Câmara dos Deputados, é uma espécie de portão de embarque para projetos de toda natureza, quer pretendam alterar um trecho da Constituição Federal ou deliberar sobre questões eleitorais, civis, penais, pedidos de anistia, intervenções federais ou direitos e deveres dos mandatos. Tudo passa pela CCJ.

Desde o começo do ano, quando teve início a corrida pela presidência da Câmara, a CCJ é o principal foco de disputa nos corredores da Casa. O motivo: a indicação da deputada Bia Kicis (PSL-DF), uma das mais importantes escudeiras da trincheira de Jair Bolsonaro no Congresso, para comandar a comissão caso Arthur Lira (PP-AL) fosse eleito. Para o alagoano, a vitória foi mais fácil do que as manchetes pintavam, mas para Kicis, não.

Se antes mesmo de assumir a cadeira a parlamentar já era o alvo favorito da massa antibolsonarista e seus satélites na imprensa, o cerco passou a ser mais intenso a cada sessão. O auge ocorreu nesta semana quando um grupo liderado pela menina-prodígio dos jornais Tabata Amaral (PDT-SP) anunciou uma representação em que pedia a cassação do mandato de Kicis no Conselho de Ética por incitar um motim policial na Bahia pelas redes sociais. O embate ocorreu porque a deputada afirmou que o PM Wesley Soares Góes teria sido baleado por colegas de farda ao se recusar a cumprir ordens do governador petista Rui Costa. Mais tarde, quando foi revelado que o policial trocou tiros durante um surto psicótico, ela apagou a postagem.

O recuo, contudo, foi insuficiente para frear a artilharia dos adversários de diferentes matizes, que hoje se misturaram com o uníssono discurso que lhes restou: atacar qualquer um que não use os adjetivos genocida e golpista para se referir ao presidente da República. A bancada inclui frequentadores de listas de propina, como a presidente do PT, Gleisi Hoffmann; o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que até hoje não aceitou ter sido barrado no baile — leia-se: não ter concorrido a um terceiro mandato —; além de outros tantos midiáticos como o psolista caviar Marcelo Freixo. Veja os ataques abaixo.

Em conversa com a Oeste, Bia Kicis avaliou que seu comentário inicial foi “inoportuno, mas jamais criminoso” e disse acreditar que os ânimos vão melhorar com o tempo — quiçá, quando os rivais assimilarem a derrota na eleição para a liderança da comissão. “Eu jamais quis promover motim; reconheço a necessidade da hierarquia militar, mas fizeram disso uma tempestade. Conversei com os líderes dos partidos e com os integrantes. É uma minoria que carrega esse discurso, amplamente reverberado pela parte da mídia que se tornou oposição ao governo e seus aliados. Vamos trabalhar serenamente para que seja uma comissão muito produtiva”, afirmou.

Faz parte do jogo democrático que a oposição use os mecanismos regimentais para tentar impedir o avanço da agenda do Executivo no Congresso Nacional. Ou seja: o bloco tem o direito de tentar obstruir, independentemente da natureza do projeto — e isso se chama fazer política. Porém, o que se pode notar nas últimas semanas na CCJ é diferente: o objetivo claro é tentar tirar Kicis da cadeira de presidente da comissão no grito.

“O que estamos vendo na CCJ é uma tentativa incessante de problematizar e politizar todos os temas pautados. Não é fazer política, mas, sim, obstruir e atacar a presidente. Falta para alguns ali a compreensão de que, num regime democrático, é preciso respeitar a pessoa que é eleita. Nem sempre o nosso lado estará no comando, mas, se você não respeitá-lo, na sua vez não poderá reclamar que não foi respeitado. Precisamos trabalhar para que esta comissão fique mais democrática”, afirma Kicis.

Procuradora no Distrito Federal por 24 anos, Bia Kicis é a primeira mulher a comandar a CCJ — o mandato é anual. Uma pesquisa rápida nos arquivos dos últimos vinte antecessores dela no posto elenca pelo menos três deputados que passaram pela cadeia (João Paulo Cunha, Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha) e mais de dez que caíram na malha fina da Lava Jato, entre outros inquéritos por crimes de corrupção. Como essas parecem não ser mais credenciais para ocupar a cadeira, Kicis está no lugar certo.

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