O tombo da velha mídia

Como e por que os veículos de comunicação tradicionais chegaram ao fundo do poço

Houve um tempo em que antes de escovar os dentes as pessoas pegavam o jornal do dia na porta de casa. O mundo entrava na sala. Liam toda a primeira página, passavam os olhos pelas seções, focavam as partes que mais interessavam, conheciam as opiniões dos diversos colunistas. Tomavam o café da manhã com uma visão razoável da realidade lá fora (e as mãos sujas de tinta).

À noite, a maioria dos brasileiros prestava muita atenção no que era dito pela voz de trovão de Cid Moreira, no Jornal Nacional. O que saía no JN era tido como a verdade. Logo depois passava a novela noturna. E ninguém perdia um único capítulo. Aquele era um ato diário de cumplicidade. A gente confiava naquelas instituições. Na manhã seguinte abria novamente a porta para pegar o jornal. E começar tudo de novo.

Esse mundo de algumas certezas acabou. Está difícil confiar até no horóscopo que sai publicado em alguns dos maiores jornais e revistas do Brasil. Tudo foi politizado ao extremo. O velho Jornal Nacional virou um ritual fúnebre de celebração de uma doença. Praticamente todas as revistas e jornais tradicionais estão trafegando na faixa que vai da esquerda à extrema esquerda. Um desses veículos promove abertamente a ideia de um golpe militar, empilha ofensas contra o presidente e sugere seu assassinato. Quem gosta disso aplaude. Quem não gosta afasta-se. O difícil é chamar de “autoritário” um governo que permite isso.

Não é só o linchamento diário do presidente da República que une essa imprensa mais tradicional. Está vetada também qualquer dúvida sobre os números da pandemia. Ou qualquer contestação ao trancamento geral determinado por prefeitos, governadores e juízes do STF. Os profissionais que promoviam debates hoje espalham certezas pétreas. Escrevem para os companheiros de simpatia partidária, não para os leitores em geral. Estes estão partindo.

A “velha mídia” está encolhendo. E não só por razões ideológicas. São raros os veículos que conseguiram se adaptar satisfatoriamente à era digital. Ou falar com as gerações mais novas. Muitos não compreenderam os novos modelos de negócios. A ex-maior editora do país, a Abril, é o melhor exemplo dessa incapacidade de adaptação. Dominava o mercado brasileiro e parecia invencível. Até que desabou.

Desde a posse de Jair Bolsonaro, essa velha mídia age de maneira aparentemente irracional. Quanto mais público perde, mais parece se fechar em guetos ideológicos, em vez de tentar ampliar seu mercado. Em 2014 (meros sete anos atrás), a revista Veja tinha uma tiragem semanal de quase 1,2 milhão de exemplares. Hoje, tem cerca de 260 mil. A revista Época, da editora Globo, lançava 380 mil exemplares. Hoje, esse número se resumiu a menos de 90 mil.

O Jornal Nacional continua relativamente poderoso, atingindo mais de 18 milhões de televisores e aplicativos. As novelas da Globo têm um alcance de cerca de 11 milhões de televisores ligados (e uma quantidade similar nos aplicativos). Números como esses impressionavam muitos mais há algumas décadas. Hoje, o Brasil já atingiu 213 milhões de habitantes. Se a Rede Globo alcançar 40 milhões de pessoas, isso representará 19% da população. É bastante. Mas a Globo não é mais a dona de 80% da audiência, como acontecia nos tempos de Cid Moreira.

Rede Globo à venda?

Em termos de mercado, aparentemente a Rede Globo fez tudo certo para se adaptar aos novos tempos. Quando percebeu que a TV aberta não teria mais o domínio total do público, criou uma série de canais por assinatura: GloboNews, GNT, Multishow etc. Depois lançou seu serviço de streaming, o bem-sucedido GloboPlay. O aplicativo foi o melhor negócio que a empresa realizou nestes tempos de encolhimento. Para se ter uma ideia, o gigante Netflix tem 17,9 milhões de assinantes no Brasil. A GloboPlay soma 20 milhões, informa matéria da revista Forbes. Segundo o jornal Meio & Mensagem, o crescimento do GloboPlay em 2020 foi de 80% na base de assinantes e 112% no faturamento.

Esta parece ser a única notícia realmente boa que a Globo pode oferecer sobre sua situação financeira atual. Segundo a colunista especializada em TV Cristina Padiglione, a empresa teve de cortar R$ 1,1 bilhão em despesas e conseguiu fechar 2020 com um lucro de R$ 167 milhões. “É um tombaço: em 2019, o lucro havia sido de R$ 752,5 milhões.” A gestão financeira complica-se ainda mais em razão da alta do dólar. A dívida passou de R$ 3,47 bilhões para R$ 5,4 bilhões.

Alguns sinais de mudanças são simbólicos dessa crise. Fausto Silva já avisou que vai deixar o Domingão do Faustão em dezembro, quando acaba seu contrato. Ele é um marco do predomínio da Globo há 32 anos e seu salário é calculado em R$ 5 milhões por mês. William Bonner também já teria declarado que pretende deixar o Jornal Nacional entre dezembro de 2021 e agosto de 2022. Mas a informação não foi confirmada. A mesma “ameaça” de desembarque já foi revelada por Luciano Huck, que tem planos para se candidatar à Presidência da República no ano que vem. Provavelmente decidirá de olho nas pesquisas eleitorais.

O mesmo inevitável clima de decadência aparece num território onde a Globo era absoluta há poucos anos: os esportes. Perdeu a Fórmula 1 para a Band. Perdeu a transmissão do torneio Libertadores das Américas para SBT, Facebook, Fox Sports e Conmebol TV. Já não tem mais a Copa e a Recopa Sul-Americanas. A transmissão da Copa do Mundo de 2022 no Catar ainda é incerta. Os jogos do Brasil nas eliminatórias deverão ser transmitidos pela nanica TV Walter Abrahão, ex-PlayTV. O Campeonato Brasileiro de 2021 ainda está sendo negociado. As transmissões da elite do tênis passaram para a ESPN. A Globo também já não transmite a Liga dos Campeões, que se transferiu para o TNT e o SBT. O Campeonato Carioca de futebol também está fora da grade, assim como o campeonato baiano. A emissora sugere que está fazendo “jogo duro” para renegociar todos esses contratos. Pelo jeito, está perdendo o jogo.

Existem fortes rumores de que a Rede Globo estaria a caminho de mudar de dono. O bilionário mexicano Carlos Slim, considerado o 11º homem mais rico do mundo, seria um dos principais interessados. Ele já possui a operadora Claro e adquiriu a NET em 2012 — gosta do prestígio conferido pelo setor de mídia, tanto que é o maior acionista individual do jornal The New York Times. Segundo empresários ligados a Slim, ele estaria esperando um sangramento financeiro ainda maior da Globo para fazer sua oferta final.

Não poderia ser uma compra direta. O artigo 222 da Constituição determina que “apenas brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos e empresas brasileiras que tenham sede no país podem ser proprietários de empresa jornalística e de radiodifusão (TV e rádio).” A negociação teria de ser intermediada por um grupo brasileiro.

O jornal Correio da Manhã noticiou no dia 13 de março que o interessado nesse papel seria o grupo J&F, a holding de José Batista Sobrinho, com intermediação feita pelo banco BTG Pactual. A J&F é o conglomerado que inclui os frigoríficos da JBS e o Banco Original, entre outras empresas. O preço oferecido pela J&F pelo complexo Globo, segundo o Correio da Manhã, é R$ 25 bilhões. Carlos Slim entraria como parte indireta dessa negociação. Essa hipotética compra mudaria os atuais rumos da Globo? Ninguém sabe.

O melhor retrato de como essa mídia mais tradicional parou no tempo fica mais claro no território da TV aberta. Um levantamento do início de março mostra que a novela das 21 horas ainda manda, com 11,3 milhões de aparelhos ligados. E o Jornal Nacional vem em seguida. Os campeões das outras emissoras estão bem distantes em números, mas não em antiguidade. A novela com motivo religioso da rede Record chega a 4 milhões de aparelhos ligados. Os tradicionalíssimos shows de sorteio e games do SBT fazem pouco acima de 2 milhões. O programa do Ratinho, também na emissora de Silvio Santos, fica na média do 1,5 milhão.

No início de março, a lista dos programas mais vistos na TV aberta se assemelhava a uma tabela do Ibope de 30 anos atrás. Os três primeiros lugares são da Globo: novela das 21 horas, Jornal Nacional e Fantástico. Depois vêm a novela da Record, o Programa Silvio Santos, o sorteio do Baú da Felicidade, o Roda a Roda Jequiti e o Programa do Ratinho.

Por quanto tempo esse panorama vai continuar assim, congelado no tempo? As novas gerações tendem a assistir à TV aberta cada vez menos. A atenção tende a se fraccionar em inúmeras telas — da TV, do computador, do tablet, do celular. Uma situação cada vez mais distante da constatada naquele dia de outubro de 1972 em que (segundo o site Observatório da TV) o capítulo 152 da novela Selva de Pedra registrou 100% de audiência na cidade do Rio de Janeiro. A novela das 21 horas da Globo continua mandando no Ibope. Mas seu reino está cada vez menor.

Apenas uma sombra dos tempos de glória

Existe outra maneira de avaliar a real penetração das mídias na sociedade: o buzz. Ou seja, a reação que elas causam nas redes sociais. O grupo Kantar Ibope Media lançou seu relatório dos números de buzz em 2020.

No ano passado foram computados no Brasil 363 milhões de tuítes comentando conteúdo de vídeo. Mais de 90% desses tuítes se referiam a programas da TV aberta. E só 10% falavam de canais por assinatura e serviços de streaming.

Nessa grande maioria fiel às TVs abertas, 287 milhões de posts (85 a cada 100) comentavam reality shows. Os 15% restantes se dedicavam a séries (16 milhões), novelas (13 milhões) e jornalismo (12 milhões). Ou seja: em matéria de atenção do público, as novelas perderam o trono, foram expulsas do palácio e levam uma surra dos realities. E o jornalismo, do jeito que anda, causa cada vez menos buzz, com apenas 3% de presença nas redes sociais.

Mudanças tectônicas no mundo das mídias não são novidade. A televisão derrubou o domínio do rádio na metade do século passado. O ciclo do jornal impresso, fonte diária de conteúdo desde o século 18, só está se encerrando agora. A televisão aberta, que nos fez sentar no sofá todas as noites partir da década de 1960, hoje enfrenta um caleidoscópio de conteúdos fracionados. Repetindo um velho clichê, a internet mudou tudo.

Obrigou até os mais sólidos nomes da imprensa tradicional a entrar de vez no mundo digital. O The New York Times é considerado o modelo de sucesso dessa transição. Em 2011, tinha 390 mil assinantes. Dez anos depois, está com 4,7 milhões. O salto deveu-se sobretudo à estratégia comercial. O NYT criou escritórios na Ásia que vendem combos de assinaturas para corporações, escolas de negócios e cursos de inglês. Ao mesmo tempo, os jornalistas passaram a dominar a arte da edição digital — o que não quer dizer que não estejam passando por dificuldades, até porque também resolveram se assumir como um veículo de esquerda. Quanto à publicidade, as dificuldades são extremas, dada a migração de receita prioritariamente para Google e Facebook. Mesmo os anúncios da bem-sucedida edição digital caíram 12,6% de 2019 para 2020.

No Brasil, só não enxerga a crise da imprensa tradicional quem não quer. A revista Veja mantém apenas 22% dos assinantes que tinha há seis anos. O Estado de S. Paulo comemorou em fevereiro a liderança na circulação de jornais impressos: quase 80 mil exemplares, ultrapassado tanto O Globo (76.370) quanto a Folha de S.Paulo (63.353). Para efeito de comparação, em 1994 a Folha bateu seu recorde de tiragem, com 1.117.802 exemplares. Os números atuais são uma sombra dos tempos de glória.

Uma nova mídia mais aberta, mais plural

Existe outro problema além da radicalização política generalizada das redações. A velha mídia abandonou qualquer sombra de ousadia e criatividade. O Brasil já foi potência mundial em televisão e berço de bons experimentos jornalísticos. É claro que existem bons e honestos profissionais trabalhando nos veículos tradicionais. Mas o produto apresentado é cada vez mais burocrático. O profissional que cuida do conteúdo está mais preocupado em se patrulhar, segundo as últimas tendências da correção política. A fuga para os reality shows pode ter sido uma tentativa do público de lidar com uma programação menos previsível. Mas até o último Big Brother Brasil virou um show case de causas da moda.

Estamos vivendo o big one, o grande terremoto que vai mudar toda a paisagem. Hoje qualquer pessoa pode criar seu órgão de imprensa sem ter de pagar o aluguel de edifícios, sustentar redações, alimentar gráficas etc. Altos custos deixaram de ser problema para o exercício de um jornalismo honesto e talentoso. Os aplicativos de edição digital atingiram um alto nível de profissionalismo. Web canais já podem transmitir com definição 4K, o que os canais tradicionais ainda estão longe de alcançar.

Se encaradas com profissionalismo e dedicação, as novas mídias podem sair facilmente do terreno do amadorismo caseiro para se tornarem promissoras empresas sustentáveis. A própria Revista Oeste é fruto desse novo tempo. Acabou a era em que comunicação era um território de magnatas e famílias tradicionais. É natural que, com o tempo, o dinheiro flua das grandes corporações em crise para as startups da mídia. O público, cansado da mesmice e da manipulação política, está ávido por novos rumos.

Exemplo disso é o sistema Jovem Pan. Era uma rede bem-sucedida de rádios FMs musicais e AMs noticiosas/esportivas. Percebeu que havia uma parcela imensa da população brasileira desassistida pelo resto da mídia. Fez uma transição gradual e inteligente para se transformar num canal multimídia e dar voz aos que se opunham ao amplo domínio das esquerdas no mercado tradicional. E criou um aplicativo chamado PanFlix que virou sucesso instantâneo de downloads.

Segundo o site TudoRádio, os vídeos do sistema no YouTube “alcançaram mais de 30 milhões de espectadores únicos e mais de 250 milhões de visualizações”. Em cinco meses de funcionamento, o PanFlix registrou meio milhão de downloads. O presidente da empresa, Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, declarou para o TudoRádio: “Nós temos hoje em nossos canais no YouTube metade da audiência da Globo”.

O declínio da velha mídia abre caminho para a ascensão de uma nova era. Nela não há espaço para megaconglomerados monopolistas moldadores de opinião. Pelas próprias condições tecnológicas, essa nova mídia tende a ser fragmentada pelo mercado, muito mais aberta, plural e democrática e muito mais difícil de ser controlada. Quem sabe entender esse espírito do tempo está largando na frente.

Com reportagem de dados de Artur Piva

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Dagomir Marquezi, nascido em São Paulo, é escritor, roteirista e jornalista. Autor dos livros Auika!, Alma Digital, História Aberta, 50 Pilotos — A Arte de se Iniciar uma Série e Open Channel D: The Man from U.N.C.L.E. Affair. Prêmio Funarte de dramaturgia com a peça Intervalo. Ligado especialmente a temas relacionados com cultura pop, direitos dos animais e tecnologia.

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