Terapia: do divã de Freud ao seu celular

A ciência da compreensão e cura da mente não pode ser congelada no tempo e tratada como um culto imutável para privilegiados

Tive algumas poucas experiências de terapia. Em alguns momentos ela funcionou. Mas, no geral, eu não me dava muito bem com aquele ritual estático, meio pomposo de uma sessão. Em dois momentos tentei mudar um pouco as regras do jogo.

Cena 1: estou sentado na poltrona de paciente. Num móvel logo atrás de mim tem um despertador à vista do terapeuta. Eu falo dos meus pais, da minha vida sexual, dos meus sentimentos etc. O terapeuta não para de bocejar, de olho mais no relógio do que em mim. Percebendo que vamos nos afogar no tédio mútuo, pergunto a ele: “Nós temos mais 35 minutos. Vamos caminhar na rua e continuar a sessão lá fora?”. O terapeuta nem leva em consideração minha proposta. Diz que a volta no quarteirão seria violar as regras do Conselho Regional de Psicologia.

Cena 2: o tratamento com outra terapeuta está estancado, não avança. Tento romper o impasse: “Eu sou melhor escrevendo do que falando. E se a gente tentasse fazer uma sessão por escrito? Durante uma hora a gente troca e-mails”. (Não havia nada mais ágil naquela época.) A terapeuta avisa direto que não vai rolar. O Conselho Regional de Psicologia etc.

Está lá, no Artigo 2º do Código de Ética Profissional: “Ao psicólogo é vedado prestar serviços ou vincular o título de psicólogo a serviços de atendimento psicológico cujos procedimentos, técnicas e meios não estejam regulamentados ou reconhecidos pela profissão”. As penas aos faltosos incluem, progressivamente, advertência, multa, censura pública, suspensão por até 30 dias e, como pena máxima, a cassação do exercício profissional. É um convite a que nada mude.

Esse Código de Ética é de 2005. Dezesseis anos depois, a terapia mais ortodoxa prossegue funcionando, com sessões presenciais em consultórios. Ajuda muita gente com um tratamento personalizado, muito focado, indispensável para muitos casos. E costuma ser caro, muito caro.

No entanto, o mundo se move e novos procedimentos, técnicas e meios florescem quando o campo é fértil. Alguns fatores ajudam. Um desses fatores foi a “aplicativação” da sociedade. Há cada vez menos coisas que fazemos na vida que não passam por um aplicativo. Os celulares mudaram nossa relação com o mundo. Não haveria razão para não mudar nossa relação com os terapeutas.

Outro fator: a condenação de populações inteiras à prisão domiciliar (em regime fechado, para muitos) só podia gerar uma pandemia de problemas psicológicos, mentais e emocionais. Não há terapeutas para tanta gente que, nessas condições, se desequilibrou. E muito menos dinheiro para pagar sessões particulares para cada cidadão afetado pelo ano do “Fique em casa” e de tantas perdas por causa do vírus.

A Organização Mundial da Saúde publicou em 2017 (com dados de 2015) um estudo global sobre o estado de saúde mental. A depressão foi considerada o maior fator de incapacitação, atingindo 7,5% da população mundial. A ansiedade vem em sexto lugar — afeta 3,4% da população. Em termos gerais, a depressão atinge 300 milhões de pessoas, o equivalente a 4,4% da população mundial. Pode atormentar qualquer um, mas afeta mais os que vivem na pobreza, estão desempregados, sofreram a morte de um ente querido, passaram por um processo de separação amorosa, sofreram doenças físicas ou estão imersos no alcoolismo e no consumo de drogas. Naquele mesmo ano de 2015, 788 mil pessoas se suicidaram, especialmente nas camadas mais pobres.

No ranking da OMS, o Brasil ocupava o terceiro lugar em números absolutos de casos de depressão (11,5 milhões de afetados) e ansiedade (18,6 milhões). Só perdemos para os megapopulosos China e Índia. É muita gente para cuidar com um método tão elitista.

Como os táxis e os investimentos nas bolsas de valores, as terapias precisavam ser urgentemente popularizadas e modernizadas. A tecnologia e os fatos providenciaram as grandes mudanças. Não tem mais como voltar atrás.

Unir tecnologia com tratamento psicológico era apenas questão de tempo. Foram feitos um para o outro. Na pré-história dos computadores — 1966 —, já existia Eliza. Desenvolvida pelo professor Joseph Weizenbaum, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Eliza foi descrita formalmente como “um programa de computador para o estudo da linguagem natural na comunicação entre o homem e a máquina”. Por exemplo: se o usuário digitasse a palavra “pai”, Eliza devolveria a frase “fale-me mais sobre seu pai”. E assim, de pergunta em pergunta, fazia o usuário refletir sobre si mesmo.

Cinquenta e cinco anos depois de Eliza, aplicativos de terapia já levantaram US$1,8 bilhão em investimentos só em 2020. Em 2019, esse número era três vezes menor. Um dos aplicativos de maior sucesso nos Estados Unidos, o Talkspace, revelou que 60% dos seus usuários estão fazendo terapia pela primeira vez. Hillary Schieve, prefeita de Reno, no Estado de Nevada, conseguiu uma verba de US$1,3 milhão para que todos os habitantes da cidade com mais de 13 nos de idade tenham acesso ao Talkspace.

Se vivesse hoje, Freud estaria grudado no WhatsApp e nas redes sociais

O Talkspace já tem mais de 1 milhão de clientes e pode ser pago pelos planos de saúde dos EUA. Funciona 24 horas por dia e atende a praticamente qualquer tipo de problema: depressão, dificuldades no relacionamento, ansiedade, estresse, problemas com os pais, desajustes sexuais, doenças crônicas, distúrbios de alimentação, controle de agressividade, traumas de infância, variações de humor, desordem obsessivo-compulsiva, abuso de drogas, conflito familiar etc. Você entra no aplicativo ou site, escolhe um terapeuta, liga a câmera e a sessão. (Só em inglês.) O Talkspace ainda oferece tratamentos especializados de psiquiatria (incluindo receitas para remédios), terapia para casal e para adolescentes entre 13 e 17 anos.

O cliente fala com terapeutas licenciados, que podem estar em qualquer lugar, por vídeo, por texto ou por voz. Objetivos e prazos passam a ser definidos pelos pacientes. Os preços não são nenhuma pechincha — embora bem inferiores aos cobrados por terapeutas que atuam exclusivamente pelo método tradicional. Você pode escolher um plano de meio ano por US$ 700. Ou uma assinatura do tipo Netflix de US$ 65 a US$ 100 por semana. Cancela quando quiser.

O sucesso do Talkspace abriu caminho para uma onda de aplicativos de terapia no mercado internacional. O Youper cria as condições para que o usuário seja guiado a fazer sua própria terapia. Uma assinatura básica custa US$ 13 por mês. Gráficos monitoram sua evolução. Se precisar de remédios, o psiquiatra os receita e eles chegam de mês em mês. O Paired estabelece um canal de contato e orientação para melhorar a vida do casal. O distrACT é voltado especialmente a quem sente impulsos suicidas.

A lista vai longe: Woebot, Bloom, BetterHelp, Brightside, Calmerry, Doctor on Demand, Amwell, iPrevail, SuperBetter, MoodKit, MindShift CBT, MDLIVE, Real, Larkr, 7Cups, BestHelp, Sesh, Sanvello. Alguns são mais caros; outros, mais baratos. Alguns são mais completos; outros, mais limitados. E existem os que formam um campo de atuação em comum com os também muito populares aplicativos de meditação.

E, se você pensa que um dia essa onda vai chegar ao Brasil, fique sabendo que já chegou. O Cíngulo, por exemplo, já tem até um plano para empresas. No Zenklub, você encontra listas de terapeutas, cada um com sua especialidade, com preços de R$ 70 a R$ 150 por sessão de 50 minutos. Para marcar sua sessão por vídeo, basta clicar na lista de horários disponíveis.

No OrienteMe (de R$ 280 a R$ 359 por mês), além das consultas você pode dispor de orientação por escrito duas vezes por dia. O Terapia mistura psicanálise com práticas alternativas, como constelação familiar, reiki e ioga. No Cogni e no MoodPath, o usuário anota sensações, emoções e pensamentos na hora em que os identifica. O aplicativo é útil na técnica conhecida como terapia cognitivo-comportamental, ou TCC. O registro detalhado do que passa por sua cabeça é de grande utilidade no tratamento.

O Ombro Amigo e o Amigo Virtual ligam pessoas de forma anônima para que conversem sobre assuntos que não têm coragem de contar a nenhum conhecido. Não é exatamente ciência, mas pode ajudar muito. O Metamorfosis cumpre papel semelhante, misturando atendimento pessoal com criação de comunidades de usuários que enfrentam os mesmos problemas. São aplicativos de desabafo.

Claro que os princípios científicos da psicanálise e da psiquiatria precisam ser respeitados. Mexer com a mente das pessoas a distância exige muita responsabilidade e senso ético. Mas o processo de cura está descendo do pedestal das fórmulas e procedimentos imutáveis.

O próprio fundador da psicanálise não era tão estático e isolado quanto muitos de seus atuais seguidores. Sigmund Freud se preocupava com a popularização do seu tratamento, especialmente após o trauma da 1ª Guerra. Ele escreveu um livro chamado A Psicopatologia da Vida Diária, no qual comentou a importância analítica de pequenos atos, como erros inconscientes na fala, esquecimento de nomes e até a criação de piadas e trocadilhos. Além disso, era um escritor compulsivo de cartas — calcula-se que tenha escrito cerca de 30 mil durante seus 83 anos de vida. Se vivesse hoje, provavelmente estaria grudado no WhatsApp e nas redes sociais.

A ciência da compreensão e cura da mente não pode ser congelada no tempo e tratada como um culto imutável para privilegiados. A apresentação do aplicativo BetterHelp resume bem o espírito da coisa: “Terapia não tem de ser conversar sobre sentimentos. Terapia pode ser o que você quiser que seja”.

Leia também “A cura na realidade virtual”

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13 comentários

  1. Sou estudante de psicanálise, e até onde sei (no meu caso e no meu círculo de interação) as sessões de terapia ESTÃO sendo realizadas virtualmente em decorrência da pandemia, e com resultados satisfatórios.
    Tenho a impressão de que está sendo quebrado um paradigma, o da sessão presencial como única forma eficaz de terapia.
    A observar depois que a pandemia passar.

    1. Sou Psicóloga Clínica,formada em universidade Pública e especialização na área no Instituto Sedes Sapientiae.Formacao longa e cara pois fiz análise por dezoito anos com uma única analista didata.Me ajudou muito,devo a essa grande profissional ajuda em momentos difíceis da vida.Nunca minhas sessões foram controlados exclusivamente por despertadores,tinha todo respeito ao paciente (pelo menos no meu caso).Vivi desde que me formei da minha profissão, trabalhei por muitos anos em clínicas que mantinham convênio com INSS, até ter meu próprio consultório.Agora falo que uma sessão on LINE,nunca substituirá uma presencial, não tem como.Nao atendo on LINE,,mesmo em tempos de pandemia.Agora se vc tem um mínimo de bom senso e de realidade, faça um acordo com seu paciente em relação ao valor que ele pode pagar e o que vc pode receber.Bons profissionais existem sim,como péssimos existem também,como em todas profissões.A saúde mental é fundamental e deveria ser acessível a todos que dela necessitam.

  2. Minha experiência pessoal com terapia é a
    melhor possível. O problema está na má
    escolha de profissionais sem o devido
    preparo emocional e científico.

    1. Exatamente Érico, existem sim excelentes profissionais nessa área,o que atualmente ocorre é que faculdades proliferam sem o menor critério,todos acham que podem atuar sem a mínima formação de qualidade.A formação e especialização na área são fundamentais.A sua análise pessoal é prioridade para vc atender, além de outros requisitos.Agora o paciente precisa colher resultados significativos , senão o trabalho a dois será em vão.

  3. Tenho 50 anos de profissão psicóloga. Que pena que sua experiência com psicoterapia foi tão decepcionante. Os dois exemplos que você dá, falam muito mais de profissionais incompetentes, inseguros e não comprometidos com a profissão, do que das limitações das técnicas. Concordo que o CFP está desatualizado em muitos aspectos. Até porque, parou de se preocupar prioritariamente com a Psicologia como ciência e profissão, e resolveu se “politizar”… Mas bons profissionais existem, a despeito disto. E estão sim fazendo atendimentos on line de forma competente, ética e efetiva. Um abraço pra vc, e boa sorte em uma próxima escolha de psicoterapeuta.

  4. Legal abrirem esse espaço para falarmos de terapia online. Com a pandemia melhor é evitarmos ao máximo o contato físico com as pessoas, mesmo elas sendo nossos terapeutas. Minha terapia na frente do computador começou no início do ano passado e já me provou que dá bons resultados. Superei a insegurança de não ter um contato dentro de quatro paredes no consultório e mais, fazer terapia em casa me trouxe novos insights. Simples assim.

  5. Já ouvi dizer que depressão só dá em gente boa, não dá em vagabundo não. Se o Brasil tem mais ou menos 5% de depressivos, multiplique este número por 10, 15, 20, de acordo com o seu modo de ver a coisa, aí você terá uma ideia do sinistro.

  6. Certa vez, conversando com um amigo, ele me disse que todos nós temos um distúrbio mental. No primeiro momento não gostei da ideia não. Mas depois, fazendo uma análise sincera de mim mesmo, tive de concordar. E você aí, se pelo menos por um momento também duvidar, pense no grosso das autoridades que governam este país, de qualquer hierarquia ou bandeira política, principalmente das esquerdas e tire suas conclusões. Temos ou não temos?

  7. Sou psicanalista e tenho atendido meus pacientes virtualmente e com mudanças significativas em todos, isto se constitui em algo inusitado que nos obrigará pensar a maneira como sempre procedemos
    A psicanálise não tem nada há haver com a Psicologia, Medicina e Filosofia

  8. Tive boas experiências com duas psicólogas, mas eu não recomendaria ninguém a começar uma terapia com alguém sem receber indicação do profissional. É muito perigoso confiar em quem não é competente. Aplicativo é ainda mais estranho. Se, do outro lado, estiverem bons profissionais, ok. Mas, como saber?

  9. Artigo mt bom e provocador. Essa área, assim como muitas outras, está sujeita às transformações que o mundo atual impõe. A possibilidade de consultar remotamente um médico, psicólogo, advogado, contador etc. é muito boa, pois torna a questão geográfica irrelevante; você pode estar no Japão e ter uma sessão com o seu terapeuta que está aqui no Brasil. Mas vale ressaltar que essa evolução tecnológica não significa uma ruptura das coisas como elas tradicionalmente são, uma vez que um número significativo de pessoas, mesmo após todas essas facilidades estarem amplamente disponíveis, sempre vão preferir o modo presencial da coisa.

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