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A cura na realidade virtual

Menos tarja-preta, mais algoritmos: a tecnologia passa a ser utilizada no tratamento de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático

A realidade é o que é? Ou é o que percebemos dela? Em certo sentido, toda realidade é virtual. Minha realidade não é igual à sua. Que não é igual à de mais ninguém.

No mundo high-tech, realidade virtual é a tecnologia pela qual o usuário coloca óculos 3D, fones de ouvido e é transportado mentalmente por um programa ou game para um mundo paralelo. Parece ser o máximo da alienação. Muito pelo contrário: a realidade virtual (high-techRV) está ajudando muitas pessoas com problemas psiquiátricos a se adaptarem ao mundo da realidade “real”.

Tratamentos psiquiátricos tradicionais costumam percorrer dois caminhos simultâneos em busca de uma solução: terapia e medicação. Uma matéria na última edição da revista BBC Focus — Science & Technology revelou os detalhes desse terceiro caminho, ainda muito recente, mas projetando resultados promissores.

O método não dispensa os tratamentos convencionais. Abre, no entanto, uma larga avenida de possibilidades. A autora, doutora Lucy Maddox (formada em psicologia clínica pela Universidade de Oxford), começa o artigo descrevendo um diagnóstico: “Você já teve dias em que nada do que faz parece certo? Dias em que você se encheu de você mesmo? Dias em que se arrepende por coisas que disse ou fez, usando o tipo de monólogo raivoso ao qual não submeteria um amigo? De tempo em tempo, todos nós passamos por isso. Mas para algumas pessoas, especialmente aquelas com depressão, procurar suas piores características pode se tornar um infinito ciclo de auto-bullying”.

O problema nesse caso é a ausência da aceitação de nossas próprias fraquezas. Quando não as aceitamos, nós nos tornamos ainda mais duros com nossas falhas. E por isso mesmo falhamos cada vez mais, no tal ciclo de auto-bullying.

Um grupo de estudo da University College London desenvolveu um programa de realidade virtual para auxiliar na terapia de pessoas nessa situação. Em resumo: o paciente com depressão e baixa autoestima coloca seus óculos e fones. Passa oito minutos num espaço imaginário com o avatar de uma criança extremamente estressada. A sala virtual imita em detalhes a sala real. O paciente é orientado pela voz do terapeuta a tratar a criança com compaixão, a compreender seus problemas e a aceitá-los. Algum tempo depois, um avatar adulto também entra na sala. O diálogo entre o paciente, sua “criança interior” e seu “adulto em construção” deixa de ser uma figura retórica. Está lá, visível e audível. É muito mais fácil de ser assimilado.

O nome desse programa de pesquisas da University College London é “Tratando a depressão com autocompaixão numa realidade virtual”. Uma das pesquisadoras titulares é a doutora Emma Jayne Kilford, Ph.D. em Psicologia. Ela revelou alguns detalhes do projeto pioneiro em entrevista por e-mail à Revista Oeste.

REVISTA OESTE Como a senhora define o projeto desenvolvido com o professor John King?

EMMA KILFORD — Esperamos usar a tecnologia de realidade virtual para ajudar as pessoas a incrementar sua habilidade de terem compaixão por si mesmas. Estamos no segundo ano de trabalho (de um total de cinco).

Qual a diferença da terapia convencional para o tratamento com realidade virtual?

Nossa intervenção combina os princípios da posse de um avatar em um ambiente totalmente imersivo de realidade virtual para simular o recebimento da compaixão de si mesmo. Substituir o corpo real de uma pessoa gera uma poderosa ilusão de propriedade sobre o corpo virtual. Essa ilusão pode mudar a forma como percebemos o mundo a nosso redor.

Qual o grau de sucesso do projeto até agora?

Um de nossos estudos foi com um grupo de 15 pacientes com depressão. Depois de três sessões de realidade virtual, houve um substancial aumento na habilidade deles de reconhecer nos avatares eles mesmos. Os pacientes mostraram significativa redução na severidade da depressão e do autocriticismo, assim como um aumento na autocompaixão. Quatro desses pacientes apresentaram marcante melhora nos sintomas clínicos da depressão. Alguns espontaneamente descreveram usar sua experiência (virtual) em situações da vida real.

Houve algum caso em que a terapia de RV não funcionou?

Uma paciente não concluiu o tratamento porque descobriu que sua voz gerava aversão por ela mesma. Estamos incorporando a opção de mudar a voz.

Qual a porcentagem de pacientes que usam o próprio rosto em avatares adultos?

Essa questão é importante! A tecnologia progrediu muito e agora é possível personalizar os avatares, como naquela imagem a partir de uma foto minha usada na matéria da BBC Focus. Estamos conscientes de que, para alguns pacientes, essa personalização pode ser desafiadora.

O tratamento da depressão é apenas uma das possibilidades de uso terapêutico da realidade virtual. A matéria da BBC Focus cita o caso de “Judith”, uma paciente com acrofobia — o medo de lugares altos. Judith colocou o equipamento e foi “levada” ao piso de um shopping center virtual. A terapia começou quando ela entrou no elevador e foi conduzida ao “primeiro andar”. Saiu do elevador, foi até a beira do terraço imaginário, onde havia uma barreira de vidro. Quando o vidro imaginário foi retirado, Judith deu institivamente um salto para trás no mundo real.

Mas ela insistiu, orientada pelos terapeutas. Foi subindo de andar em andar, realizando tarefas corriqueiras em cada piso. Quando chegou ao último pavimento, encontrou uma “ponte” frágil, de cordas, típica dos filmes de Indiana Jones. Aí, Judith já tinha mais consciência de que aquele era um abismo imaginário. Em apenas três sessões, ela se sentiu capaz de atravessar a ponte. Quando chegou ao meio dela, Judith se viu montada nas costas de uma baleia-azul voadora, que a fez flutuar sobre o shopping. Hoje, ela não se sente totalmente curada. Mas, depois dessa experiência com RV, foi capaz de passear “sem problemas” nas vertiginosas escadarias externas do templo de Angkor Wat, no Camboja.

Como um programa de computador pode ter resolvido parte do problema de Judith em tão pouco tempo? O professor de psicologia clínica na Universidade de Oxford, Daniel Freeman, resumiu o aparente milagre em termos mais técnicos: “Seja lá o que o computador mostre para você, esta é a sua realidade… A beleza dessa terapia é que existe um pedaço consciente de seu cérebro dizendo que aquilo não é real, e que, portanto, eu posso tentar fazer coisas diferentemente do que fazia. Ele não quebra o feitiço, apenas lhe permite realizar o aprendizado”.

Num projeto da Universidade do Sul da Califórnia, o doutor Albert Rizzo está usando a realidade virtual para ajudar veteranos das guerras do Afeganistão e do Iraque afetados pelo TEPT, ou transtorno do estresse pós-traumático. O TEPT se segue a uma experiência chocante, como uma explosão. O paciente tem dificuldade até de falar no assunto e é tomado por uma sensação de extrema ansiedade, esperando que a explosão se repita a qualquer momento.

O tratamento convencional para o TEPT tenta fazer com que o paciente consiga falar sobre o evento e recorde seus detalhes. Enfim, que consiga conviver com o que aconteceu — e seguir em frente. O experimento da Universidade do Sul da Califórnia criou o programa Bravemind. Ele inclui catorze situações de guerra em realidade virtual para que o veterano consiga “viver” o trauma de forma mais imersiva e envolvente. E que, assim, o supere também com mais rapidez. A ideia é fazer com que o paciente reviva seu pior pesadelo dentro de um ambiente controlado, até que sua psique entenda que o pesadelo acabou.

O Bravemind mostra cenários típicos do Iraque e do Afeganistão conflagrados. O grau de realismo é o maior possível, com áudio 3D, vibrações e até cheiros. Não à toa, o processo é chamado de “terapia de exposição”. Tudo é devidamente acompanhado por terapeutas especializados que se comunicam com o paciente por áudio o tempo todo. O doutor Rizzo define o processo como “uma medicina dura para um problema difícil”.

Outra experiência paralela está acontecendo no Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College, em Londres. Nesse caso, o foco são pessoas psicóticas, que perderam o contato com a realidade. Elas têm visões, ouvem coisas que ninguém mais ouve etc. Um dos casos citados é o de “Jemma”, uma mulher que achava que vivia dentro de um game.

Terapias convencionais com psicóticos incluem contatos com o mundo real. Em casos mais graves, porém, mesmo um único passo na rua pode gerar forte repulsa, medo e até uma regressão na terapia.

Por meio da realidade virtual, pacientes psicóticos conseguem ter uma experiência intermediária, sob controle. Como entrar num pub virtual. Num pub real, se uma pessoa se aproximar e disser um simples “oi”, o paciente pode entrar em curto. Na realidade virtual, o terapeuta pode orientar o psicótico a respirar melhor, a controlar seu corpo e a ter consciência de que não há nada realmente perigoso em uma pessoa dizendo “oi”.

Jemma obteve um resultado rápido com suas visitas ao pub virtual. No início sentia muito medo, mas com o tempo foi avançando e se sentindo mais confortável e confiante. Para relaxar depois da sessão, ela “mergulhava com golfinhos” num vídeo de 360 graus disponível no YouTube.

Uma das limitações da expansão do tratamento por realidade virtual é a capacidade de cada clínica adquirir os óculos de RV, ainda caros. Mas já existem pessoas improvisando o equipamento com um celular e uma armação de cartolina. Com o tempo, apostam alguns pesquisadores, óculos de realidade virtual estarão em todas as casas, como os fornos de micro-ondas.


Dagomir Marquezi, nascido em São Paulo, é escritor, roteirista e jornalista. Autor dos livros Auika!, Alma Digital, História Aberta, 50 Pilotos — A Arte de se Iniciar uma Série e Open Channel D: The Man from U.N.C.L.E. Affair. Prêmio Funarte de dramaturgia com a peça Intervalo. Ligado especialmente a temas relacionados com cultura pop, direitos dos animais e tecnologia.

 

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