O Congresso enguiçou de novo

Com o país precisando acelerar as reformas, os novos comandantes do Parlamento fizeram o contrário: pararam a agenda reformista

A crise do coronavírus consagrou os salva-vidas de Zoom. São verdadeiros heróis da modernidade. Do aconchego das suas quarentenas vip apontam o dedo (duro), julgam, culpam, execram geral. É uma beleza. Hoje se você se diz preocupado com “vidas” você pode até bater em mulher na rua que está liberado. Não viu? Então olha em volta. Aproveita e repara no Congresso Nacional. Lá também há uma nova safra de salva-vidas circenses.

Chegou a CPI da covid. O presidente do Senado havia dito que não era oportuna, pelas razões óbvias. A prioridade não é salvar vidas? (De verdade, não de mentirinha.) A prioridade não é achar a saída para o país não afundar na insolvência após essa trombada sem precedentes? O presidente do Senado tinha razão — e sabia que a motivação da tal CPI era usar a tragédia para politicagem. Mas nem esperou o plenário do STF decidir sobre o mandado de segurança concedido pelo ministro Luís Roberto Barroso e instalou a comissão. Mistérios de um tempo misterioso.

Ainda olhando para o Congresso, o Brasil achou que estava caminhando para dias melhores após a Era Maia-Alcolumbre — um dos períodos mais miseráveis da história do Parlamento. E a dupla queria que esse período fosse infinito. Quase conseguiu — numa manobra que chegou a ter cinco votos favoráveis no STF à reeleição inconstitucional dos presidentes da Câmara e do Senado. Contando ninguém acredita. Mas passa a acreditar se observar o que veio depois.

Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre haviam transformado as duas casas legislativas federais em duas ONGs devotadas a interesses particulares. Concentraram poderes, travaram comissões, ralentaram reformas e dedicaram-se a panfletar 24 horas por dia contra o governo federal — se esbaldando na epidemia de manchetes contra o fascismo imaginário. Depois da derrota do seu candidato à sucessão no cargo, Rodrigo Maia rasgou a fantasia e escancarou o que todo observador mais ou menos atento já tinha notado: a presidência da Câmara dos Deputados tinha sido transformada num comitê de sabotagem contra a agenda de reformas. E depois?

A eleição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, respectivamente para as presidências da Câmara e do Senado, era a preferência do Palácio do Planalto. O país precisava superar aquela história do Parlamento transformado em trincheira contra o Poder Executivo. E, na posse, tanto Lira quanto Pacheco foram eloquentes: iam dar um basta no imobilismo autoritário das gestões anteriores e fazer as reformas administrativa e tributária andarem, juntamente com o restante da pauta represada. Em pouco mais de um mês de mandato a nova dupla declarou que era preciso parar a agenda de reformas para combater a pandemia.

Rodrigo Pacheco foi pedir à vice-presidente dos Estados Unidos ajuda na vacinação — passando por cima, de forma retardatária, de uma comunicação já feita pelo governo federal, que é o responsável pelo plano de imunização. Pacheco depois disse que não sabia disso. Mas já se juntou a Lira para pedir vacinas à ONU. Será que estão ensaiando para o parlamentarismo? Ou montando um plano de imunização paralelo?

Resumindo: os sucessores dos inesquecíveis Maia e Alcolumbre estão, aparentemente, decididos a se tornar inesquecíveis também. Com o país precisando fazer frente a uma dívida de mais de R$ 700 bilhões com o socorro emergencial da pandemia — e portanto com a necessidade de acelerar as reformas — os novos comandantes do Parlamento fizeram o contrário: pararam a agenda de reformas. Eles estão salvando vidas com e-mail lunático para Kamala Harris, mise en scène na ONU, coral com governadores contra o governo federal e CPI oportunista.

Pacheco foi coerente e agiu para que a CPI não se restringisse ao governo federal — considerando que as ações de saúde e segurança sanitária ficaram principalmente a cargo de Estados e municípios. A impressão é de que ele e Lira estão tentando sentir a direção do vento para ver se esse negócio de surfar nas manchetes contra o presidente é bom negócio e dá futuro. Maia e Alcolumbre fizeram a mesmíssima coisa e acabaram apostando em cavalo manco. O Brasil está curioso para saber se seus sucessores vão escolher mancar ou se mancar.

Leia também “Por que a Câmara é tão ruim”

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28 comentários

  1. Considerando que o STF manda e desmanda no Senado e Câmara, o melhor é fechar as duas casas dar as chaves para o STF e a economia com as despesas e salários dos senhores deputados e senadores transferido para matar a fome de quem perdeu o emprego.

    1. Precisamos de uma reforma política/eleitoral urgente. Qualquer reforma, se fizerem, por este parlamento, será capenga, igual a reforma da previdência.

    2. O Fábio disse tudo. Nada a esperar desses vendilhões antipatriotas. O povo, em massa, precisa ir para a rua e sentar praça, só saindo dela quando aquilo que exigir dos seus “representantes” for atendido. Como ocorreu na Ucrânia há algum tempo. Isso de sair em passeata e depois cada um ir para a sua casa não funciona. E se tem funcionado parcialmente, essas migalhas conseguidas não tem sido eficientes como é preciso.

  2. Ou o presidente vira a mesa já, ou os ministrécos petistas e psdbistas do STF vão acabar com o seu governo. Em conluio com a maioria do Congresso, farão voltar a corrupção e a roubalheira petistas das quais sempre usufruíram. A Constituição já foi para o lixo e os ministrécos canhotos estão fortalecendo a ditadura da toga! A nação que se curve a esses tiranos e continue pagando impostos para sustentá-los. Isso é intolerável!!

    1. Célio, venho gritando isso há meses, mas parece que estou pregando no deserto. Já passou muito, mas muito mesmo da hora do presidente dar um basta no stf. Acho que já não há mais tempo. Passou literalmente do ponto. Espero estar errado.

  3. Já comentei aqui e repito: Lira é raposa velha à espera da chave do galinheiro. Pacheco, que aparentemente não tem rabo preso, demonstra uma covardia tão ou mais alta como seus quase dois metros. É de dar nojo!

  4. Acredito que mudanças só aconteçam se fecharmos o Congresso e o STF para por ordem nessa casa. Lamento ver o Brasil deste jeito, e faço mea culpa: a minha geração abandonou a política e deu no que deu.

  5. Dei uma “tacada” em 2.018, mesmo não acreditando em urna brasileira. Só na funerária.
    O parlamentarismo foi implantado desde o mensalão, qdo Joaquim Barbosa sentiu o cheiro de pólvora e rapou prá América, criando o petrolão.
    São 11 a exigir dos representantes do povo, aquele povo, os das urnas, silêncio pois não se deve guardar dinheiro roubado nas cuecas. A devolução tem que existir, ainda que a contra gosto, nos grandes escritórios de advocacia.
    E nem mais um pio.
    E

  6. Este TRIÂNGULO ….ficou perfeito….diz tudo.Mas a única saída para se consertar o Congresso é com a reforma política, com o voto distrital e eleições para o EXECUTIVO em um ano….e para o LEGISLATIVO em outro ano….pois tem que haver debate com os candidatos a câmara e ao senado…

  7. Fiuza, esta claro que tudo farão para derrubar o governo Bolsonaro até 2022, mesmo que para tanto destruam o pais. Todavia, continuo não entendendo porque a boa imprensa da verdade, não inicie urgente esclarecimento a população do que é o VOTO IMPRESSO, e não como alguns conhecidos jornalistas condenaram que seria um retrocesso e que pensavam que o bilhete impresso era levado pelo eleitor para comprovar ao comprador sua fidelidade. Ora bolas, que nível de imprensa é esse? Concordo que exista até nos editoriais do Estadão, mas a credibilidade desses grandes veículos esta em decadência. Existe uma PEC no Congresso da deputada Bia Kicis para legitimar o VOTO IMPRESSO, que foi detonado pelo STF, quando declarou inconstitucional Lei aprovada em 2015 pelo Congresso Nacional que o estabelecia, pelo falacioso motivo que “viola o sigilo e a liberdade do voto”.
    Vale lembrar que a deputada Bia Kicis preside a CCJ da Câmara e foi amplamente denegrida pelos principais meios de comunicação como sendo indiciada no inquérito das fake news e atos anti democráticos, que curiosamente o Alexandre de Moraes prorrogou as investigações da PF por mais 90 dias, seguramente para contaminar a aprovação dessa PEC.
    Demonstrem que o Voto impresso é uma tecnologia que permite acoplar às urnas eletrônicas a impressão do voto, que desde logo é somente AUDITADO pelo eleitor que o confirmara e ficara ciente que o contido na urna eletrônica será o mesmo contido na lacrada urna impressa. Em que instante esse processo “viola o sigilo e a liberdade do voto? É a única forma de AUDITAR e se necessário RECONTAR urnas eletrônicas. Seguramente evitará graves conflitos sociais em 2022, e dará transparência às urnas eletrônicas.
    Fiuza, você como excelente jornalista investigador, ouça entrevista dada pelo diretor geral do hospital Sírio Libanês, dr. Paulo Chap Chap na BandNews em março/21 ao Dr.Salim. Nela, fica claro o sucesso da estrutura criada para tratamento da COVID aos pacientes internados, que resultaram em baixos índices de letalidade especialmente na UTI.
    Penso que, se demais hospitais privados, incluindo a Prevent Senior detonada pelo Mandetta, obtiveram resultados aproximados, compara-los aos dos hospitais públicos e de campanha estaduais e municipais que receberam generosas verbas do governo federal, para que a grande imprensa nacional , a OMS e o mundo entendam quem são os verdadeiros genocidas neste pais. Vale dizer, inadmissível que o Estado de São Paulo, centro de referência da ciência médica e hospitalização do pais, tenha tido tão elevado número de óbitos.
    O resultado desse trabalho deveria ser levado à senadores sérios e honrados para debate na famosa CPI ELEITORAL DA PANDEMIA DO RANDOLFE.

  8. O Brasil está curioso para saber se seus sucessores vão escolher mancar ou se mancar. Perfeito Fiuza, coerente como sempre sem perder a graça! leitura super agradável.

  9. Esse é o centrão, joga nos dois lados conforme a conveniência para garantir que sempre estejam no governo e com poder de barganha.

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