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Perdidos no Brasil

Economist, NYT, El País, Deutsche Welle, BBC, CNN e tantos outros órgãos da imprensa internacional, quando tratam do país, abandonam qualquer lógica e objetividade. Qual a razão para essa atitude?

A prestigiada revista britânica The Economist publicou, no último dia 5, uma suíte de artigos dedicados ao Brasil. E nos rebaixou às catacumbas do Quarto Mundo. “Antes da pandemia, o Brasil estava sofrendo uma década de doenças políticas e econômicas”, diz a matéria de abertura. “Com o senhor Bolsonaro como médico, agora está em coma.”

O que significa “coma” para quem escreveu esse texto? Você, leitor, você, leitora, acha que seu país está em “coma”? O Brasil entrou em colapso? A economia está em parafuso? Você tem visto saques nas ruas, quebradeiras, violência, paralisia nas atividades? A pandemia nos abateu, como ao resto do mundo. Mas, como país, estamos intubados numa UTI?

Reportagem da The Economist sobre o Brasil, publicada em junho de 2021

“Bolsonaro emprestou as táticas de Donald Trump em peso para ganhar a eleição de 2018: populismo, nacionalismo, chauvinismo e fake news”, prossegue a matéria. […] “Um fã da ditadura militar de 1964 a 1985, ele costuma posar com seus polegares e indicadores armados como se atirasse com uma metralhadora. Uma vez no cargo, mirou direto nas instituições democráticas do Brasil.” Você considera que as instituições democráticas brasileiras estão ameaçadas pelo presidente da República? De que forma?

A conclusão da Economist é dada num artigo chamado “Hora de partir”. A ilustração mostra a camiseta de uma manifestante em que o rosto de Bolsonaro se combina com o de Adolf Hitler. Segue-se o que parte da imprensa nacional repete todos os dias: a política do governo (somente o federal) causou “dezenas de milhares de mortes desnecessárias”. A administração em Brasília virou uma “boca de fumo” de hidroxicloroquina. “O Exército vai ter de escolher entre a democracia e mr. Bolsonaro.” A infame coluna da Folha de S.Paulo com 185 insultos ao presidente é tratada como “uma denúncia da censura”. Que censura?

Manifestante em protesto contra Jair Bolsonaro

Ainda segundo a Economist, o STF seria uma resistência ao “autoritarismo de Bolsonaro”. Que pode “ganhar a próxima eleição (pelos meios legais ou sujos)”. Mais quatro anos com ele vão transformar a Amazônia numa “savana”. Nas próximas eleições, o ex-presidente Lula deveria voltar ao governo e mostrar como Bolsonaro presidiu o país “para sua família e não pelo Brasil”.

A Economist termina sua edição especial com uma lista de ordens aos brasileiros. “É preciso mais do que manifestos. […] As cortes devem combater a corrupção. E os empresários, ONGs e os brasileiros comuns devem protestar em favor da Amazônia e da Constituição. Mas será difícil mudar o curso do Brasil enquanto Bolsonaro for presidente. A mais urgente prioridade é votar contra ele.”

Obviamente a Economist tem o direito de dizer o que pensa sobre o Brasil. Mas de novo: você, que mora aqui, que vive o dia a dia, reconhece esse país descrito por eles? Precisa da orientação da revista para agir politicamente?

Esse retrato do Brasil foi criado artificialmente na redação da Economist. Que está instalada no edifício Adelphi, no Embankment de Londres, com vista para o Rio Tâmisa, a 8.800 quilômetros de Brasília. As fontes foram escolhidas para repetir a mesma narrativa unilateral que já conhecemos, por exemplo, do Jornal Nacional. Para a revista britânica, não existe outro lado a ser ouvido. A narrativa é tudo. A realidade, só um detalhe. Fomos deslocados do terreno da análise política para o da demonologia. O Brasil, segundo a Economist, precisa de um bom exorcista.

Você já ouviu falar de Vanessa Barbara? Vanessa é uma jornalista que se tornou uma espécie de “voz do Brasil” para os leitores do New York Times. Ela faz o papel da insider, que vive o dia a dia dos brasileiros e transmite essa realidade para os leitores no Times. Espera-se dela que traduza a complexidade de nosso país, que ajude os leitores internacionais a desvendar os meandros de nossa vida, que ensine ao mundo as sutilezas de ser brasileira.

Mas o que Vanessa Barbara escreve em suas colunas para o New York Times não é nada sutil. Ela defende a “beleza” dos atos violentos de black blocs contra o aumento da tarifa dos ônibus. Homenageia continuamente a vereadora Marielle Franco, que, segundo Vanessa, teria sido morta com o envolvimento da família Bolsonaro no crime. Defende abertamente a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, que, de acordo com ela, foi preso injustamente. Declara o desejo de votar em Guilherme Boulos para a Presidência da República. Anexa na coluna um vídeo indignado do revolucionário de grife Felipe Neto. Elogia a CPI de Renan Calheiros. Declara aos leitores do jornal que o presidente Jair Bolsonaro é um “supervilão” com plano para matar 1,4 milhão de brasileiros.

A filial brasileira do El País parece um boletim de centro acadêmico

Em 2004, o então correspondente do New York Times Larry Rohter ousou insinuar que o ex-presidente Lula bebia um pouco além da conta. Em represália, o “democrático” Lula mandou cancelar o visto de residência de Rohter. Em 2021, o “opressor fascista” Jair Bolsonaro nem deve saber que Vanessa Barbara existe, embora seja pesadamente ofendido por ela a cada coluna publicada no mais importante jornal do mundo.

Reprodução de reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo em maio de 2004

Vanessa Barbara tem todo o direito de expor sua visão rasa de simpatizante do Psol nas páginas do NYT. E é obrigação de todo democrata garantir esse direito. O que parece estranho é o New York Times dar essa oportunidade apenas a pessoas como Vanessa (e Felipe Neto). O “outro lado” não existe.

O jornal espanhol El País criou uma sucursal brasileira que publica artigos com títulos como “O plano bolsonarista de controle sobre os militares, central para a ultradireita”; “Com Nise Yamaguchi, CPI enfrenta o dilema de dar palco ao negacionismo da pandemia”; “O ‘terraplanismo econômico’ busca dominar a responsabilidade social”. O site original em espanhol do El País mantém certa sobriedade jornalística. Sua filial brasileira parece um boletim de centro acadêmico.

O mesmo nível de “jornalismo” se encontra no site em português da alemã Deutsche Welle: “Governo Bolsonaro semeia medo e quer silenciamento difuso”; “Em carta, judeus dizem que Bolsonaro tem ‘inclinações fascistas’”; “Sem máscara, Bolsonaro gera aglomeração em protesto no Rio”; “Bolsonaro parabeniza policiais por massacre do Jacarezinho”. O site brasileiro da Deutsche Welle põe em destaque um vídeo intitulado “Quem fica em silêncio é cúmplice desse regime fascista”. O vídeo é estrelado por… Felipe Neto.

A Economist, o New York Times, o El País, a Deutsche Welle, a BBC, a CNN e tantos outros órgãos da imprensa internacional possuem qualidades que ninguém pode pôr em dúvida. Mas, quando tratam do Brasil, abandonam qualquer lógica e objetividade. Qual a razão para essa atitude? O que faz diretores de redação se comportarem com a “imparcialidade” de um comitê eleitoral? O que os faz usar uma pauta idêntica, o mesmo ponto de vista, a mesma passionalidade descontrolada, as mesmas fontes?

Seria até engraçado se não fosse prejudicial ao país. Exemplo disso é o cientista brasileiro Miguel Nicolelis, que no mês passado publicou na influente revista Scientific American um artigo com o seguinte título (em inglês): “A pandemia no Brasil é uma ‘Fukushima biológica’ que ameaça o planeta inteiro”. Nicolelis descreve o país como um pária amaldiçoado que deve ser rejeitado pelo resto do mundo. E põe toda a culpa pelo suposto apocalipse made in Brazil em… você sabe quem. Se seu objetivo era espantar os investidores internacionais, parece que o plano não está dando muito certo.

Mas nem tudo está perdido na grande mídia internacional. Em 2 de junho, o Wall Street Journal colocou na primeira página de uma de suas edições uma grande matéria sobre o Brasil assinada por Jeffrey T. Lewis e Samantha Pearson. Título: “A economia brasileira volta aos níveis pré-pandêmicos enquanto o vírus ainda se espalha”.

Reprodução de reportagem publicada no jornal The Wall Street Journal em junho de 2021

As fotos mostravam lojistas montando uma vitrine e pessoas comuns de máscara fazendo compras numa rua de São Paulo. A matéria citava como possíveis razões para a retomada da economia as exportações agrícolas e a ajuda emergencial do governo federal. Lewis e Pearson entrevistaram um economista brasileiro que criticava o fato de as pessoas estarem lotando bares e shoppings durante um estágio ainda delicado da pandemia. E ressaltava que a economia precisava se diversificar mais para não depender do agronegócio. Outro economista declarou que a situação atual do Brasil o deixava muito otimista para 2022, se comparada com a de outros países da América Latina. Mas que o segundo trimestre ainda pode trazer uma retração por causa das medidas restritivas impostas por prefeitos e governadores.

Reprodução da capa do jornal The Wall Street Journal publicado em junho de 2021

Ora, ISSO é jornalismo. Chegamos a um ponto em que provoca alívio ler uma simples reportagem equilibrada, informativa e honesta. Na matéria, os leitores foram tratados como seres inteligentes, capazes de raciocinar a partir dos dados oferecidos sobre o Brasil. Ouviram opiniões diferentes e não fugiram de uma visão otimista de nosso futuro. O Wall Street Journal obviamente não é perfeito, mas está sabendo honrar o bom nome do jornalismo.

O que faz com que uma revista com 177 anos de existência como a Economist jogue seu prestígio no lixo para entrar de cabeça na histeria antibolsonarista? O que faz o New York Times abandonar 169 anos de equilíbrio para publicar panfletos pueris? Por que o Brasil de hoje os perturba desse jeito? Quando se rasgam em ódio para se submeter a essa obsessão doentia e autodestrutiva, conseguem transformar Jair Bolsonaro, que era um político obscuro e eleito quase por acidente, num mito de verdade.

A primeira edição da revista Economist, de 2 de setembro de 1843, já trazia o Brasil em destaque na capa

Leia também “Retrato de um Brasil que não existe”


Dagomir Marquezi, nascido em São Paulo, é escritor, roteirista e jornalista. Autor dos livros Auika!, Alma Digital, História Aberta, 50 Pilotos — A Arte de Se Iniciar uma Série e Open Channel D: The Man from U.N.C.L.E. Affair. Prêmio Funarte de dramaturgia com a peça Intervalo. Ligado especialmente a temas relacionados com cultura pop, direitos dos animais e tecnologia.

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