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Nas festas juninas, a tradição rural invade a cidade

Ao contrário do evocado por alguns, o catolicismo sempre celebrou os eventos cósmicos, associados ao seu calendário litúrgico

Nosso amor que não esqueço
E que teve seu começo
Numa festa de São João.

Último Desejo
Noel Rosa e Vadico

Há milênios os povos observam os eventos cósmicos planetários dos equinócios e solstícios. Eles dividem o ano em quatro períodos de três meses. Desde o Paleolítico, em várias culturas, monumentos foram construídos para marcar essas datas cósmicas e organizar calendários, inclusive no Brasil, como em Calçoene, no Amapá. No próximo 21 de junho será o solstício de inverno. O período mágico das festividades juninas, tão animadas em todo o país, está centrado nesse solstício. Nele, o campo invade a cidade. É tempo de entressafra e o rural é celebrado pelo urbano.

Parque Arqueológico do Solstício em Calçoene, Amapá

O dia do solstício é determinado pelo cosmos. Por conta da inclinação do eixo terrestre, o Sol nunca nasce, nem se põe, exatamente no mesmo local. Ele está em permanente deslocamento. O Sol nasce sempre a leste, mas cada vez mais em direção ao norte, durante o outono. Em dado momento, o Sol para nesse movimento aparente. Ele estaciona, como evoca a etimologia de solstício: sol sistere, sol estaciona, não se mexe. O Sol estaciona no solstício. E, no dia seguinte, começa a “voltar”, a se deslocar no sentido oposto, em direção ao sul. Esse evento cósmico é observável em todo o planeta.

No dia 21 de junho, o Sol nascerá a leste e se porá a oeste, mas com o deslocamento máximo para o norte. Da varanda da casa ou da janela do apartamento marque o local onde o Sol surge ou desaparece no horizonte. Pode ser na véspera ou mesmo um dia depois do solstício. É a marcação do Sol, segundo os agricultores. A partir do solstício, nascente e poente se deslocarão para o sul. Dá para ver “da janela lateral” o caminhar do Sol. E começa o inverno.

O 21 de junho é o dia mais curto e a noite mais longa do ano no Hemisfério Sul. A projeção do caminho do Sol, no chão, “traça” o paralelo conhecido como Trópico de Câncer, situado a 23 graus e 27 minutos de Latitude Norte. Nesse dia, os raios solares incidirão perpendicularmente sobre a Terra no Trópico de Câncer. O Sol passará a pino sobre Taiwan (onde há um belo monumento ao Trópico de Câncer), China, Índia, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Egito, Líbia, Argélia, Mauritânia, Bahamas, sul dos EUA e norte do México. Por lá andará o sol a pino, longe do Brasil. Aqui, ele estará bem baixo na abóbada celeste. Ao meio-dia, pessoas, edifícios e postes projetarão as sombras mais longas do ano, em direção ao sul. Basta observar. O sol penetrará pelas janelas voltadas à face norte. Seus raios iluminarão ao máximo o interior das casas.

Para os antigos gregos, a beleza dos céus estava na precisão matemática desses ciclos celestes. Da beleza do cosmos, deriva a palavra cosmética. Com a passagem do solstício do inverno, a luz retorna. Inexoravelmente. Os dias durarão cada vez mais. Simbolicamente, a vitória progressiva da luz — tão comemorada nas festas e fogueiras juninas — convida todos a se prepararem para o futuro plantio, para ser fecundos, crescer e dar muitos frutos, atendendo ao chamado do início da Criação (Gênesis  1:28).

O tempo do solstício de inverno está associado ao fim das colheitas, ao desfrute dos resultados do suado e árduo trabalho no campo. É tempo de aferir, conferir, pesar, contar, vender e armazenar. Apesar de grandes diferenças territoriais, num país imenso como o Brasil, até junho encerraram-se as colheitas de soja, milho, arroz, feijão, laranja, amendoim, algodão e outras. Mais de 270 milhões de toneladas de grãos e de 30 milhões de toneladas de tubérculos. E ainda dá tempo de colher pinhões da araucária, no sul e em regiões de montanhas.

Na origem, as festas juninas são uma celebração católica, europeia, rural e tradicional do mês de junho, desde o século 4. Ao contrário do evocado por alguns, o catolicismo, herdeiro da tradição judaica, sempre celebrou os eventos cósmicos, associados ao seu calendário litúrgico. Não o fez para “apagar” práticas pagãs. A evangelização ressignificou essas práticas. Inicialmente eram chamadas de festas joaninas, dado o seu vínculo com São João, o único santo católico festejado no dia de seu nascimento e não de sua morte. Com o tempo viraram juninas e até julinas.

No Brasil, desde o século 16, os evangelizadores jesuítas associaram às colheitas indígenas as festas joaninas do solstício de verão (na Europa). Eles adaptaram as festividades ao nosso solstício de inverno (o oposto da Europa). Com muita sabedoria. E deu certo. As festas juninas representam uma das mais expressivas manifestações culturais brasileiras, sobretudo no Nordeste. Nelas são festejados três grandes santos: Santo Antônio (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho). A intimidade das pessoas com esses santos é surpreendente. A ponto de serem chamados de compadres. E até arrumarem encrencas: “Com a filha de João, Antônio ia se casar, mas Pedro fugiu com a moça na hora de ir pro altar”.

As fogueiras ajudam a lutar contra a aparente vitória da noite sobre o dia

Nas festas juninas, a agrocultura alcança o mundo urbano. O campo invade a cidade e nela planta arraiais e quermesses. O arraial junino é um espaço profano e sagrado. É como uma aldeia rural temporária, instalada ao lado da igreja e também de escolas e espaços públicos. Essa aldeia só existirá durante as festas. Ele é organizado com bandeirinhas, portais de bambu, flores do cipó-de-são-joão, mastro dos santos, barracas de comidas, bebidas juninas típicas, brincadeiras, jogos, danças juninas, músicas e muita diversão. O arraial pode tomar o nome de quem o organiza. As crianças urbanas se vestem de caipira ou de lavrador, usam chapéu de palha, botas e expressam um jeito estilizado de mostrar o homem da roça. Os pais pintam no rosto dos meninos traços de barba e bigode e sardas nas meninas e trançam seus cabelos. A quermesse tem até “igreja”, “padre” e “cadeia”, além de casamento na roça e dança da quadrilha. Nos arraiais, compadres e comadres unem-se numa fraternidade acima do sangue, dada pelo batizado dos afilhados. Há algo de utópico, monárquico e milenarista no arraial, cuja etimologia latina evoca, o a-regalis, o relativo ao rei ou à dignidade do rei. Enquanto a quermesse evoca a festa da igreja (kirck mess).

O urbano imita o rural

A base da culinária junina são as plantas nativas (milho, amendoim, batata doce…). Degustam-se milho verde, assado e cozido, pipoca, pamonha, curau, mungunzá, canjica, cuscuz, bolo de fubá etc. Têm lugar nas mesas a batata-doce, cozida ou assada nas brasas das fogueiras, o doce de batata-doce, o amendoim, doce e salgado, o pé de moleque e a paçoca. No Sul e em parte do Sudeste, o pinhão está presente nas festividades, com o vinho quente, o chocolate e o quentão.

Comidas típicas das festas juninas

Ao longo de junho, as fogueiras ajudam a lutar contra a aparente vitória da noite sobre o dia. Elas iluminam as trevas, esquentam amores e corações. E aquecem as noites frias. A fogueira de cada santo tem um formato. A de Santo Antônio é quadrada (4) e feminina. A de São Pedro é triangular (3) e masculina. Já a de São João é heptagonal ou circular (7) e expressa a união dos contrários, do masculino e do feminino. Nessas fogueiras queimam-se coisas velhas. Deixa-se para trás o passado. Vira-se a página. As pessoas pulam as fogueiras, como ioiô e iaiá. Começam novos amores. Dançam em volta do fogo e do mastro de São João com as imagens dos três santos. Em algumas comunidades, homens e mulheres caminham descalços sobre as brasas. Soltam-se fogos para acordar São João. É tempo de purificação e coragem. A terra e os humanos recolhem energias e armazenam alimentos. E preparam-se para atravessar o inverno e semear na invencível primavera. O fogo da terra, tão frágil e tão humano, sobe aos céus em balões e junta-se às estrelas.

Last not least. Por que sempre chove na festa de São João? Segundo a tradição rural, é devido à inveja de São Pedro. Como a festa para São João é a maior, São Pedro manda uma chuvinha para acalmar os ânimos e atenuar um pouco o seu brilho.


Evaristo de Miranda é doutor em Ecologia e chefe-geral da Embrapa Territorial.

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36 comentários Ver comentários

  1. Prezado Evaristo, tive a oportunidade de observar o por do sol durante todo um ano do terraço de minha casa. E constatei que ele vinha descendo sempre um pouco mais à minha esquerda conforme os meses. Em junho ele estava bem em frente de casa, podia-se até ficar de roupa bem leve, pois fazia calor. Já no mês seguinte e nos outros, o sol descia mais e mais à esquerda até que em janeiro ele se encontrava bem longe de casa. E era mais fresco. Gostava de reparar na trajetória que o sol fazia….

  2. Saudades da minha infância/juventude onde as festas juninas eram tão esperadas! Ler este texto me levou até lá, com meus vestidos rendados, quadrilha ensaiada e muito correio elegante! Tempos de alegria!

  3. A conectividade existe e nem sempre é possível identificar, mas quando alguém coloca a relação entre o céu e a terra, sagrado e profano, Rural e urbano… como foi o artigo do Dr Evaristo, ilumina nossas mentes. Clareza com sabor de sabedoria proporciona não apenas identificar a conectividade do mundo, mas voltar ao passado e entender quando meus avôs nos falávamos de a laranja ficava azeda depois da noite de São João. Onde as paróquias anunciavam suas quermesses e as escolas também fazendo atar o futuro com o passado, tal como trança onde cada parte representa um tempo, o futuro (estudantes), o presente (escola com sua equipe e os pais) e o passado (festa junina), assim unindo os tempos num só que fortalece a vossa razão de ser.
    Parabéns, Dr. Evaristo não apenas pelo texto, mas também por transcender no cósmico da nossa vida. Abs.

  4. Poesia em prosa sobre as festas juninas e seu significado, obrigada Evaristo por nos fazer lembrar dos ciclos da terra e do céu e de como estamos todos ligados a eles.

  5. Que prazer em ler um artigo desse. Leve, informativo, divertido, tão diferente do nosso noticiário atual. Parabéns pelo teu talento.

  6. Li quando a coluna foi lançada. Reli agora. Decidi comentar pois lerei novamente no sábado, quando comemoraremos a festa junina com meus pais. Fui criado em Laranjal Paulista-SP onde São João Batista é o padroeiro. Lembro-me com alegria de participar das festas, com cururuzeiros e todas as delícias culinárias relatadas aqui. Compartilharei com os festeiros de lá, para difundir ao máximo estas informações e semear o imaginário dos que hoje mantém a tradição viva. Também enviei aos amigos do Amapá, onde poucos conhecem e valorizam seu próprio “Stonehenge”! Fantástico. Parabéns Revista Oeste por nos conceder a oportunidade de ler quinzenalmente o Dr. Evaristo de Miranda.

  7. Apesar do discurso poético tão exaltado por algumas pessoas nos seus comentários, todas as festas do catolicismo são o resultado da cristianização de antigas celebrações pagãs que existiam em diversos lugares onde a fé encontrava resistência para se estabelecer. Consolidada com mais força nas zonas urbanas do antigo Império Romano e em outros lugares do mundo antigo, a fé cristã levou mais tempo para ser assimilada nas zonas rurais onde os “paganus” (lat. camponês) ainda permaneciam fieis às crenças de seus antepassados. Os missionários e pregadores se apropriaram de uma estratégia de evangelização que já vinha sendo praticada por muitos outros cristãos posteriores à era apostólica: a incorporação de elementos doutrinários, espirituais e culturais dos povos não-cristãos como uma forma de facilitar sua entrada e assimilação aos conceitos cristãos. O resultado foi uma lenta e gradual sincretização entre cristianismo e paganismo, que originou não apenas as festas católicas, mas parte do discurso doutrinário hoje apresentado oficialmente pela Igreja Católica Apostólica Romana.

  8. Que delícia de artigo. Ele é dinâmico, flui. Apesar de longo e cheio de detalhes, como vai se lastreando nas coisas do nosso cotidiano, o embasamento técnico, embora sempre presente, some no meio das histórias. Parece um “causo”.

  9. A revista Oeste foi muito feliz em convidar o Evaristo Miranda para seu staff
    Seus textos são agradáveis, leves, repletos de informações nunca antes conhecidas na nossa correria de vida em outras áreas de atuação.
    Grata por me informar de forma tão leve e querida.

  10. Texto fantástico ! Emocionante !
    Lembrei muito da minha infância em Urânia, interior de SP.
    Há muitos anos vivo na linda e acolhedora Boa Vista (RR), que tem um festa muito bonita.
    Também achei sensacional os esclarecimentos feitos sobre os eventos cósmicos planetários.

  11. Mestre Evaristo
    A diversificação de seus artigos torna agradável a leitura da revista Oeste. A abordagem cultural de nosso período de festas juninas, conduzido com maestria, enriqueceu o presente número e a história brasileira.
    Parabéns.

  12. A origem das tradições, seus vínculos com nossa cultura e as inter-relações entre o urbano e nossas origens rurais com leveza, elegância e muita informação. Imperdível. Parabéns Evaristo e Revista Oeste!

  13. Amigo excelente artigo, muito esclarecedor e ao mesmo tempo poético. A beleza da ação de Deus em sua criação da Luz a fogueira o seu fogo Sagrado vencendo as trevas.
    As colheitas com estes alimentos cultivados no Brasil, ir a uma festa junina com suas delícias e celebrações aos queridos Santos.
    Eu não conhecia o Parque Solstício no Amapá..aprendi!!!..gostei muito do seu artigo.

  14. Parabéns, Evaristo, pela riqueza e leveza com que nos traz tantas informações. Depois desse artigo, olharemos e curtiremos “o São João” com muito mais carinho e entendimento do que sifilítica a relação do ser humanão com a Natureza!

  15. Caríssimo Evaristo de Miranda, este foi o texto mais didático e mais completo que já li sobre os acontecimentos e celebrações desse mês tão maravilhoso, que é junho. Muito bem alinhavado em palavras que detalharam tão bem a nossa realidade, que minha imaginação me levou a todos os momentos descritos. Também me fez voltar aos 16 anos vividos no campo, quando eu mesma participava e ajudava a organizar as comemorações do final da colheita no sítio onde vivi. Só faltou a sanfona para fazer o fundo musical. Parabéns!!! Que Deus o abençoe. Um abraço da Marlene Simarelli

  16. Dr Evaristo inspirado e eclético.
    Sua inteligência encontra espaço para a cultura alegre deste país rico.
    Gente assim leva o Brasil pra frente!!!

  17. O Doutor se revelando um grande poeta.
    Lindas palavras me lembraram a infância.
    Que venha o novo ciclo. Que venha com as bençãos de João.
    Muito obrigado.

  18. Excelente artigo! Estou encantada com tanta poesia, tanta tradição que permeiam as nossas festas juninas e, de fato, talvez seja a data em que mais se valoriza os alimentos cultivados no Brasil, os pratos típicos, muito mais do que no Natal e outras festividades (nunca tinha pensado por esse ângulo!).

    Gostei especialmente de saber sobre a simbologia da fogueira, que não deixa a noite vencer o dia, e sobre o Parque do Solstício no Amapá (incrível!) que não conhecia. Ah! E sobre a chuvinha que São Pedro manda no dia de São João, muito bom.

    Maravilhoso conteúdo. Já estou animada com esse nova coluna do Evaristo de Miranda aqui na Oeste!

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