Os mais recentes ataques da linguagem neutra

Depois de contaminarem a educação, os pronomes neutros agora chegam à iniciativa privada e até ao Museu da Língua Portuguesa

“Elu é muito bonite, e todes gostam de irmén e du amigue delu.” “Elu comeu muite.” “Elus são parceires de muitos tempos.” “Querides amigues.” “Prezades alunes.” “Sejam todes bem-vindes.” Por incrível que pareça, existe quem defenda que os exemplos acima sejam incorporados à língua portuguesa — considerada machista e preconceituosa por grupos de esquerda. Sob a alegação de que é necessário incluir no idioma os “não binários”, militantes propõem as seguintes alterações: substituir o a ou o dos artigos e pronomes masculinos e femininos por e ou u.

“Na frase ‘todos nascem iguais em direitos’, que abrange as mulheres, não se incluiriam os homens se fosse ‘todas nascem iguais em direitos’”, explicou Sirio Possenti, pesquisador e professor da Unicamp, em entrevista ao jornal Gazeta do Povo. Isso porque, no processo histórico-geográfico-cultural do latim, que concebeu o português, a semelhança entre o masculino e o neutro fez com que as duas categorias se fundissem. Portanto, a única marcação de gênero do idioma é o feminino. Ou seja, a acusação de “sexismo” ou “homofobia” não faz o menor sentido.

Apesar disso, a linguagem neutra vem ganhando terreno, fomentada sobretudo pelos meios acadêmicos, artísticos e intelectuais. Nesta semana, por exemplo, o Museu da Língua Portuguesa (MLP) publicou o seguinte post nas redes sociais para avisar da reabertura do local: “Nesta nova fase do MLP, a vírgula — uma pausa ligeira, respiro — representa o recomeço de um espaço aberto à reflexão, inclusão e um chamamento para todas, todos e todes os falantes, ou não, do nosso idioma: venham, voltamos!”.

Depois de receber críticas, a instituição dobrou a aposta e defendeu o debate sobre o subdialeto. “Desde sua fundação, em 2006, o Museu da Língua Portuguesa se propôs a ser um espaço para a discussão do idioma, suas variações e mudanças incorporadas ao longo do tempo”, avisou em nota. “Sempre na perspectiva de valorizar os falares do cotidiano e observar como eles se relacionam com aspectos socioculturais, sem a pretensão de atuar como instância normatizadora. Nesse sentido, o Museu está aberto a debater todas as questões relacionadas à língua portuguesa, incluindo a linguagem neutra, cuja discussão toca aspectos importantes sobre cidadania, inclusão e diversidade.”

Para Ludmila Lins Grilo, juíza do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, que pesquisa a linguagem neutra, é preocupante o avanço do subdialeto sobre instituições de Estado e de empresas. Em junho, a magistrada denunciou um processo seletivo para oficiais da Aeronáutica, cuja prova trazia uma questão sobre linguagem neutra. “O Museu da Língua Portuguesa tem o dever de ser o guardião do português”, disse, ao afirmar que o subdialeto não deveria ser levado a sério por uma entidade como o MLP. “O artigo 13 da Constituição diz que a língua portuguesa é o idioma oficial do Brasil. Ponto-final.” Ludmila criticou ainda a adesão a “palavras sem gênero” por parte da iniciativa privada. “É nefasta a atitude de certas empresas”, disse. “Elas têm responsabilidade social. Acho nocivo que violem a linguagem em nome de uma ideologia.”

Iniciativa privada

Das escolas para as universidades, das universidades para o mercado. Assim, a linguagem neutra chegou às empresas. Há dois anos, a rede de transportes norte-americana Lyft (semelhante ao aplicativo Uber) decidiu adicionar ao seu app pronomes considerados neutros em inglês. A ideia surgiu na ocasião do Dia do Orgulho LGBT+, com a finalidade de “evitar o preconceito e a discriminação”. O usuário do Lyft pode selecionar como quer ser identificado na plataforma: They (eles) / them (eles) / theirs (deles); she (ela) / her (ela) / hers (dela); ou “meu pronome não está listado”.

Até o Google entrou na onda. Em 18 de maio de 2020, o buscador atualizou seus sistemas para encorajar quem usa o serviço Google Docs em inglês a evitar potencial “linguagem ofensiva”, sugerindo substituir termos avaliados como “sexistas” pela plataforma por palavras “neutras”. Em vez de chairman (presidente de uma empresa), por exemplo, a big tech propõe chairperson (alguém que ocupa o topo da cadeia de comando em uma companhia).

O uso da linguagem neutra também invadiu a Netflix. Produzida pelo serviço de streaming, a animação Ridley Jones — A Guardiã do Museu conta a história de uma menina de 6 anos que mora com a avó em um museu nacional, onde as exposições ganham vida todas as noites. Entre os personagens, há a múmia Ismat, que possui pais homossexuais, além do búfalo Fred, que se intitula um ser “não binário”.

Em um episódio da quarta temporada, Ridley e seus amigos tentam ajudar um dinossauro a encontrar seu rabo. A criatura pré-histórica utiliza-se da linguagem neutra para falar com os demais. “Todes por uma garota. E uma garota por todes”, diz o animal, ao ser ovacionado.

Outra polêmica veio do Burger King. A rede de fast food fez uma postagem no Twitter em alusão ao Dia Internacional da Luta contra a Homofobia e a Transfobia (17 de maio): “Bandeiras de Todes”. No post, a empresa mostrou coroas e imagens que representam diversas orientações sexuais. Depois de receber críticas, a companhia tirou a publicação do ar. No mês passado, a empresa se viu em meio a outro escândalo ao lançar uma campanha LGBT+ e de discussão de gêneros sob a perspectiva infantil. Em um vídeo, crianças falam sobre homossexualidade.

O McDonald’s não deixou barato e correu atrás da concorrência. Na Alemanha, o novo brinde do McLanche Feliz é o livro Raffi und sein pinkes Tutu (“Raffi e seu tutu cor-de-rosa”). Escrita pelo ativista LGBT Riccardo Simonetti, embaixador especial da causa no Parlamento Europeu e defensor da linguagem neutra, a história gira em torno de um menino que gosta de usar saia rosa de bailarina em casa, mas resolve vesti-la para ir à escola, onde passa a sofrer bullying. Para promover a iniciativa, o McDonald’s fez uma divulgação nas redes sociais.

Os Jogos Olímpicos também não saíram ilesos. Conrado Santana, comentarista do Sport TV, da Rede Globo, e Natália Lara, apresentadora do canal, usaram um pronome “sem gênero” para se referir a Quinn, que joga na seleção canadense, durante a partida de futebol feminino entre Japão e Canadá na Olimpíada de Tóquio. “Elu está saindo”, disse Santana, ao ser repetido por Lara. “E elu jogou muito bem no meio-campo. Marcou demais. Provavelmente, por isso está sendo substituído. Marcou muito Quinn e está entrando a Rose”, continuou o jornalista.

O analista político e escritor Flavio Morgenstern avalia que existem mais empresas disseminando ideias esdrúxulas de esquerda que os próprios partidos. De acordo com Morgenstern, elas enxergam nesses modismos uma forma de ganhar dinheiro. “Uma das coisas mais mentirosas na qual se acredita é o slogan ‘quem lacra não lucra’”. disse. “Queria que fosse verdade. Pelo contrário: a propaganda hoje é sempre política, até para vender chinelo e refrigerante. Infelizmente, grandes conglomerados cada vez mais querem guiar o povo, em vez de oferecer um serviço de qualidade”, afirmou, ao demonstrar preocupação com o avanço da linguagem neutra. “Isto não é apenas uma frescura, mas uma destruição perigosa.” Ou, simplesmente, ridícula.

Leia também “A obliteração da linguagem”

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20 comentários Ver comentários

  1. Considero como muito doente a atribuição de características preconceituosas a falas e comportamentos onde não existe o preconceito. Para ser preconceituosa, uma afirmação precisa utilizar adjetivos para julgar, avaliar ou tomar decisões sobre determinado grupo ou pessoa, demonstrando suas crenças e emoções negativas, sejam elas depreciativas ou carregadas de ódio ou repulsa.

  2. “elu” não deveria jogar na seleção feminina já que não se identifica como tal . Aliás esses repórteres são patéticos, estão completamente artificiais usando esse pronome, precisam até explicar para fazê-lo

  3. Este mundo está ficando muito chato, e muita gente está querendo chamar atenção de forma absurda… daqui a pouco a minoria vai ser quem respeita o português, e as melhores práticas… e não quer chamar atenção desnecessariamente… pobre mundo chato!… pare que quero descer!…

  4. Se aquilo que se chama Quinn não é do sexo masculino ou feminino, não poderia participar das olimpíadas, pois não existe a categoria adequada nas competições.

  5. Um bom motivo para eu deixar de comer esse hamburguer…… Que total absurdo a postura dessa empresa e de seus diretores, ….. que ao semear a divisão da sociedade através da alteração da linguagem cometem um crime contra o país e nossa cultura….. Triste….

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