A CPI virou um monstro

Quem conhece Renan Calheiros e os personagens que gravitam em torno dele sabe que o circo não vai parar por aí

Em maio, a reportagem de capa da edição 61 da Revista Oeste escancarou o circo montado no Senado com o objetivo de manter a pandemia de coronavírus na crista do embate eleitoral de 2022. Quase três meses depois, o elenco liderado por Renan Calheiros (MDB-AL) vai transformando uma ópera-bufa num monstruoso espetáculo de autoritarismo. Protagonistas e figurantes seguem um roteiro que tenta cercear a liberdade de imprensa, prender quem discorda e chantagear adversários.

Um requerimento apresentado por Renan começa a espancar o idioma já em seu início. “Cumpre esclarecer que os requeridos levantamento e transferência de dados”, lê-se no segundo parágrafo. “Requer-se que as ordens de levantamento e transferência deverão cumpridas”, delira uma frase incompreensível no quarto. E sobram erros toscos de digitação. Por exemplo: “A pessoa contra quem se busca a quebra e a transferência dfe sigilo”. É melhor parar por aqui. No documento de dez páginas, Renan pediu a quebra do sigilo bancário da rádio Jovem Pan, de uma produtora de documentários e de alguns sites conservadores. O relator da CPI acusou a emissora de disseminar fake news sobre a pandemia. Causou estranheza a abrangência da devassa nas contas. Renan queria que fosse examinada a movimentação financeira a partir de 2018, quando ninguém podia prever a aparição do vírus chinês.

Neste 3 de agosto, uma terça-feira, Renan recuou. Alegou que o documento fora produzido acidentalmente enquanto estava de férias, num mea-culpa incapaz de convencer seu mais feroz aliado. Curiosamente, também subescreveu o documento o petista pernambucano Humberto Costa. “Precisaria ter uma retratação”, disse Arthur Rollo, advogado da emissora. “Não basta Renan dizer que foi um errinho. Receamos que o requerimento seja reapresentado e volte a ameaçar direitos e garantias fundamentais presentes no artigo 5º da Constituição, desrespeitada pelo senador Calheiros.”

Dois senadores governistas garantem que o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), foi quem abortou o atentado à liberdade de imprensa. “Aziz argumentou que era arriscado demais mexer com a Jovem Pan e seus comentaristas de peso”, disse um deles a Oeste. Para Thaméa Danelon, procuradora da República e professora de Direito, o pedido de Renan “não tem base fática nem jurídica”. “Não há fundamentação especificada. O senador Renan diz que, como a CPI tem matiz político, o pedido não precisaria ser bem fundamentado como ocorre no Judiciário. Isso está equivocado”, afirmou. “Como exerce poder de juiz, a CPI tem de ter as responsabilidades de um juiz. Ou seja, é preciso informar por que foi pedida a diligência e o que se busca obter com a violação de sigilos tutelados pela Constituição.”

Pedidos idênticos contra outras empresas e jornalistas foram aprovados. São eles: LHT Higgs Ltda. (a produtora Brasil Paralelo), Farol Produções Artísticas (Senso Incomum), Allan dos Santos (Terça Livre), José Pinheiro Tolentino Filho (Jornal da Cidade On-line), Paulo Enéas (Crítica Nacional) e Tarsis de Sousa Gomes (Renova Mídia). Em resposta, os veículos disseram que não temem ser investigados e, apesar da afronta à liberdade de expressão, estão prontos para ser ouvidos pela CPI — uma comissão que, nas palavras de Janaina Paschoal, jurista e deputada estadual pelo PSL paulista, “precisa se reinventar a cada dia porque não há o que ser investigado”.

Renan tem método

A intimidação a políticos e jornalistas considerados rivais é uma marca da trajetória de Renan, uma das figuras mais peçonhentas dos corredores de Brasília desde a redemocratização do país. Em 2007, quando enfrentou cinco processos de cassação de mandato e estampou cinco capas da revista Veja (de maio a setembro), o senador preparou dossiês contra inimigos para forçar a absolvição.

Os principais alvos eram os colegas de bancada Jarbas Vasconcelos (MDB-PE) e Pedro Simon (RS), que ele conseguiu destituir da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na época, além do amazonense Jefferson Peres (PDT) e dos goianienses Marconi Perillo (PSDB) e Demóstenes Torres (DEM). Contra os dois últimos, incumbiu o assessor Francisco Escórcio, conhecido como Chiquinho, da busca de informações. Numa entrevista à TV Globo, Demóstenes — que mais tarde seria cassado por envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira — disse que os arapongas de Renan instalaram câmeras em hangares de Brasília.

Renan viu no antibolsonarismo reinante na imprensa uma janela para tentar lavar o seu passado

Outra ação de Renan naquele ano foi encomendar a Agaciel Maia — ex-diretor-geral do Senado que acabaria envolvido até o pescoço no escândalo dos atos secretos de José Sarney — um catatau com todas as despesas dos 80 senadores com verbas de gabinete: gasolina, restaurantes, aluguel de escritório, passagens aéreas etc. Desse levantamento, surgiu uma briga histórica entre Renan e Tasso Jereissati (PSDB-CE) sobre o custeio de combustível de jatos particulares pelos cofres públicos, que só explodiria no plenário dois anos depois. Ironicamente, hoje os dois estão na mesma trincheira contra o governo. Vale a pena relembrar o diálogo (assista ao vídeo no fim da reportagem), cuja sessão Sarney teve de interromper pelo risco de cenas de pugilato na TV Senado.

— Renan, não aponte esse dedo sujo pra cima de mim! Estou cansado de suas ameaças.
— Esse dedo sujo infelizmente é o de Vossa Excelência. São os dedos dos jatinhos que o Senado pagou.
— Pelo menos era com meu dinheiro. O jato é meu, não é dos seus empreiteiros.
— O dinheiro é seu?
— É meu, é meu! Eu tenho pra falar, tá?
— Coronel! — respondeu Renan, fora dos microfones.
— Eu, coronel? Cangaceiro, cangaceiro de terceira categoria!
— Seu m…, — rebateu Renan.

Renan nunca mudou. Salvou o mandato em 2007, reelegeu-se, fez do filho, então prefeito da pequena Murici, o governador do Estado, coleciona dezenas de inquéritos que misteriosamente não avançam no Supremo Tribunal Federal (STF) e viu no antibolsonarismo reinante na imprensa uma janela para tentar lavar o seu passado. Segundo assessores de senadores governistas, seu gabinete — assim como o de Aziz e o de Randolfe Rodrigues (Psol-AP) — funciona como uma central de distribuição de documentos pré-selecionados (alguns já estão até grifados) com cruzamentos telefônicos, dados de empresas e o passado dos depoentes. É possível que o material seja elaborado pelos 49 funcionários que Renan mantém no Senado (26 deles comissionados no escritório de apoio em Alagoas) e pelas assessorias, reembolsadas mensalmente ao custo de R$ 10.500.

A vítima mais recente da trinca Renan, Aziz e Randolfe foi Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde. A CPI pediu seu afastamento do cargo e promoveu uma enxurrada de manchetes contra ela. Médica, Mayra defende o uso de medicamentos no tratamento imediato da covid-19 que a CPI condena. “Ela é responsável pela morte de muitos amazonenses”, afirmou Aziz. “Pela morte de pessoas que eu conhecia.”

Não bastasse a tentativa de tirá-la do cargo, a defesa de Mayra ainda teve de acionar o Supremo Tribunal Federal (STF), uma vez que o bunker dos xerifes da covid no Senado passou a municiar jornalistas com dados do sigilo telefônico dela. Em algumas mensagens disparadas via WhatsApp, uma repórter da Folha de S.Paulo cobra explicações sobre 300 telefonemas para médicos e políticos que defendiam o tratamento precoce, como o deputado Osmar Terra (MDB-RS) e o senador Eduardo Girão (Podemos-CE).

A CPI ainda tem longas semanas pela frente, e quem conhece Renan e os personagens que gravitam em torno dele sabe que o circo não vai parar por aí. O recado, aliás, foi dado já na quarta-feira 4: “Eu sou o relator da CPI e posso produzir a prova”.

…………………

Leia também “A imprensa a favor da censura”

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

26 comentários Ver comentários

  1. É lamentável o brasileiro honesto, pagador de impostos, ver figuras desprezíveis e indignas ostentarem, em nossas Casas Legislativas, mandatos angariados pelo voto do eleitor analfabeto e despolitizado, O Brasil não merece a maioria dos legisladores e governantes que tem, graças à falta de brasilidade do eleitor desmemoriado e irresponsável. Precisamos mudar. O tempo urge!

  2. Renan Calheiros é um cara sério, ético, humano, responsável, honesto, um político que nunca se envolveu em falcatruas, em roubalheiras, sempre respeitou os colegas e o povo que o elegeu! Um político que honra as tradições da melhor estirpe da política brasileira.
    Um brasileiro patriota. Um exemplo para as futuras gerações de políticos!

    Assinado: _________________________________________________
    RENAN CALHEIROS

    De acordo: ______________________________________________
    LULA – JOSÉ DIRCEU E ELITE DO PT

  3. Os monstros do STF são benevolentes com os políticos corruptos. Os monstros do Senado aprovam todos os indicados para o STF. Os monstros da Câmara mandam o Centrão Monstro para chefiar a Casa Civil. Os monstros do Executivo abraçam os monstros do Centrão, do Senado e da Câmara. Final da história: todos os monstros viverão felizes para sempre. Senhor jornalista, não nos trate como idiotas ingênuos. Estão todos nas farinhas do mesmo saco.

  4. A CPI virou um monstro. O STF virou um monstro. A Câmara virou um Monstro. O Senado virou um monstro. O Presidente virou um monstro. E nós viramos um bando de cordeirinhos para o monstro comer. O Centrão que já era um monstro foi adotado pelo Governo. Monstros se entendem.

  5. Essa CPI não representa o pais. Infelizmente pagamos seus salários. Nunca devemos esquecer que quem começou esse circo foi o STF. Falta, como disse um colega acima, atitude dos presidentes do Senado e Deputados. Falam em democracia e representação do povo mas não passa de militância ostensiva com apoio de grande parte da imprensa e outros órgãos representativos de minoria da sociedade civilizada. O que podemos fazer é campanha nas ruas e cobrança dos nossos senadores e deputados e compactuam com essa imoralidade.

  6. A situação do país é insustentável O stf que não é pessoa mas órgão do estado tem componentes com mandato garantido por até 30 anos praticamente vitalícios. Com essa estabilidade comandam o que pode ser feito podendo modificar a qq tempo suas decisões. Não se submetem a eleição nem a concurso e têm toda autoridade. STF é indispensável para corrigir erros do executivo mas não pode ter poder ilimitado

  7. Excelente reportagem, Sílvio Navarro ! Parabéns !
    Só faço uma ressalva, não apenas à sua excelente matéria, mas a toda a parte consciente da imprensa, que ataca essa CPI ridícula.
    Acho injusto adjetivarem essa CPI como circense; a injustiça, a meu ver, é feita a dano dos profissionais de circo, que exercem uma atividade muito digna e nobre, sendo eles responsáveis por momentos maravilhosos na vida de milhões de crianças e até de adultos.
    É injusto colocar no mesmo patamar gênios dos picadeiros- como Arrelia, Pimentinha e Carequinha- e figuras toscas e ridículas como Omar Aziz, Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues.
    Faço, então, uma sugestão: nunca mais seja utilizada a expressão CPI circense, assim fazendo-se em respeito a todos os artistas de circo de nosso Brasil.

    1. Tenho minhas dúvidas se esses vagabundos que lá estão, sem medo da opinião pública, já não vêm se elegendo de forma fraudulenta há várias eleições , por isso o temor dos votos auditáveis ser maior do que a opinião pública

      1. EXATO,POIS O POVO TEM FICADO MAIS ESPERTO JÁ HÁ TEMPOS,E SEMPRE ESSA HISTÓRIA DE SÓ CULPAR O POVO TENDO O MESMO SEMPRE COMO CULPADO,MAS A GRANDE VERDADE É ESSA QUE SEMPRE AS MESMAS FIGURINHAS CARIMBADAS ESTÃO SEMPRE SE REELEGENDO.SEI NÃO MAS ACHO QUE ´´TEM ALGO ESTRANHO NO GOVERNO DA DINAMARCA“LEMBRAM DESSA FRASE EMBLEMÁTICA?O QUE NOS REMETE A MESMA?

  8. Li a íntegra dos requerimentos que pedem a “quebra” do sigilo bancário da Brasil Paralelo e do Senso Incomum e afirmo: seus nomes aparecem somente no cabeçalho; não é atribuído qualquer fato aos requeridos que pudesse justificar a violação de seu direito constitucional ao sigilo bancário. Que me desculpe J.R. Guzzo, mas tá aí o “estado de coisas inconstitucional”.

  9. Em qualquer país minimamente sério, essas figuras repugnantes como Calheiros e Aziz estariam presos perpetuamente por todos os delitos inomináveis que já cometeram.
    Isso, é claro, se não cometessem tais delitos na China ou países Árabes que tratam pedófilos e corruptos com outro grau elevado de punição.
    Até quando o brasileiro médio se conformará com esses parasitas ditando o destino da nação? Tenho 23 anos e já me vejo sem perspectiva num país com gente assim na direção, só imagino como os mais velhos se sentem…

  10. Pacheco se faz de morto, não cumpre seu papel de restabelecer a ordem na casa, esculhambada por essa CPI fraudada, especializada em fazer perseguição e ilegalidades seletivas. Renan e sua gangue de corruptos, estão fazendo o mesmo jogo sujo do STF.
    Eles apostam alto no abuso de autoridade e ilegalidades diárias sob a proteção do STF e quase todo os senadores.
    Isso vai longe? Não sei, não. O povo tá esgotado e revoltado o bastante pra tirar os gângsters de lá na marra.

    1. O Rodrigo Pacheco, Fátima, é um coitado, tímido, assustado com o cargo que lhe caiu no colo, insignificante e atordoado. Não espere nada dele, que só está no senado por um acaso, visto que o povo cansou da roubalheira do PT e escanteou Dilma na eleição. Por isso ele apareceu. Agora, faz parte do mecanismo, já é parte integrante do teatro do parlamento e aparece até como possível terceira via, pra presidência da república, em 2022. Pergunte a ele o que fez com 03(três) milhões de assinaturas pedindo o impeachment do Alexandre de Moraes. Engavetou e de lá não vai sair. Essa gente cansa !!

    1. Pessoal os três patetas dessa CPI já foram para o inferno e de lá não sairão.Pedir para a Jovem Pan prestar contas,fazer referência maldosa a Revista Oeste e Brasil Paralelo não tem precedentes.Vamos respeitar e aplaudir os bons jornalistas brasileiros.O nível dessa CPI é abaixo de zero,seu currículo é vergonhoso, porque não enfrentam as entrevistas várias vezes propostas pela Jovem Pan?esse coronel relator não sabe sequer falar corretamente o português,gastam dinheiro público nessa farsa macabra.Chega já deu,foi pro brejo!

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.