São Joaquim, em Santa Catarina, em 20 de julho de 2021
São Joaquim, em Santa Catarina, em 20 de julho de 2021

Geadas e aquecimento verbal

Especialistas em tudo trataram este inverno como algo excepcional, relacionando-o até ao desmatamento da Amazônia

Ondas de frio, nevascas e geadas marcaram o mês de julho e a passagem para agosto no Sul e no Sudeste do Brasil. As geadas deste ano trouxeram prejuízos principalmente para a cafeicultura. Também afetaram as hortaliças, as frutas, alguns cultivos de inverno e até um restinho do milho safrinha. Em tempos de profecias cinzentas sobre mudanças climáticas, aquecimento global e o futuro do planeta, a intensidade do frio invernal gerou na mídia um grande aquecimento verbal.

Especialistas em tudo trataram este inverno subtropical, do Ano da Graça de 2021, como algo excepcional, relacionando-o até ao desmatamento da Amazônia! E, provavelmente, teriam achado as mesmas causas, caso tivesse faltado frio neste inverno. A onipotência de alguns humanos os leva a crer em sua capacidade de alterar o clima da Terra. E em sua onisciência incontestável se creem capazes de consertar tudo e “salvar o planeta”, sob holofotes midiáticos.

Há 2 mil anos, o Cristianismo pretendeu salvar a humanidade. Não era pouco. Até hoje ainda não converteu nem um terço da população mundial. Já a soteriologia ambientalista pretende muito mais: salvar o planeta, antes de o mundo acabar. Essa urgência exige prioridade sobre todas as outras. Mas basta uma noite de geada para colocar os humanos em sua devida dimensão.

As geadas deste ano não têm nenhuma relação com o desmatamento. Nem é preciso recorrer a dados climáticos centenários da meteorologia nacional para atestar sua “normalidade”. Basta observar a ocorrência de geadas, anotadas desde 1882 na Fazenda Santana da Serra, em Cajuru (SP). Foram muitas e de diversas intensidades, em quase um século e meio.

Ocorrência de geadas, anotadas desde 1882 na Fazenda Santana da Serra, em Cajuru (SP) | Foto: Arquivo pessoal

No Sul e no Sudeste, com frequência, ocorrem as chamadas “geadas brancas”, como as deste ano. Em noites frias e de céu limpo, a atmosfera, a terra e as plantas perdem calor ao longo da noite e forma-se uma camada fina e superficial de cristais de gelo. Contudo, existe também um fenômeno, mais raro e devastador, conhecido como geada negra, em que a temperatura noturna cai a ponto de congelar a seiva das plantas.

Estudante de Agronomia, acompanhei a geada negra ocorrida em 18 de julho de 1975. Ela não foi causada pelo desmatamento da Amazônia e, sim, contribuiria nos anos seguintes para sua intensificação. Seus efeitos foram devastadores em São Paulo, no Sul do Brasil e, sobretudo, no norte do Paraná, onde os termômetros registraram temperaturas próximas de zero grau e até negativas. Em apenas uma noite, o frio dizimou grande parte dos cafezais. Os pés de café foram “queimados” pelo frio, do topo das árvores até o solo. Os fazendeiros deitaram-se ricos e amanheceram pobres. O café levou o Paraná ao enriquecimento e ao colapso econômico.

Durante meio século, a cafeicultura foi praticada em grande escala no norte do Paraná. Na década de 1960 a 1970, o Estado concentrava cerca de 50% da produção nacional de café. Principal produto agrícola, o Estado chegou a cultivar 1,8 milhão de hectares de cafezais, com uma média de 20 milhões de sacas colhidas. No ano seguinte a essa única geada, não se colheu nada. Hoje, o Paraná tem pouco mais de 50 mil hectares de café. A geada de 1975 mudou a geografia do café e até a da agropecuária brasileira.

Manchetes de jornais da época sobre a geada de 1975, no Paraná | Foto: Reprodução

Em primeiro lugar, essa geada mudou o Paraná. A estrutura agrária e urbana transformou-se. O café era uma cultura intensiva no uso de mão de obra. Trabalhadores empregados na colheita e nos tratos culturais perderam o emprego, assim como os colonos nas fazendas. Ficaram sem nenhuma perspectiva de alguma atividade no campo. Milhares de sítios foram vendidos ou abandonados. Houve um forte êxodo rural para Londrina e Maringá, enquanto outras cidades perderam população. Sertanópolis, por exemplo, passou de cerca de 35 mil habitantes para 12 mil. Os não proprietários buscaram algum emprego nas cidades maiores. Na periferia de Londrina surgiram bairros imensos e grandes conjuntos habitacionais, como o “Cincão”. Cresceram as favelas em cidades do Sul e de São Paulo.

Pequenos proprietários, colonos, comerciantes e vários serviços nas cidades, relacionados direta ou indiretamente com a cafeicultura, foram atingidos e buscaram novas saídas. Trabalhadores rurais desempregados e pequenos agricultores descapitalizados procuraram oportunidades em outros Estados. Meio milhão de pessoas migraram para outros Estados. Nos anos seguintes, esse êxodo inter-regional impediu o crescimento da população do Paraná. O Estado deveria ter hoje pelo menos 5 milhões de habitantes a mais, não fosse uma geada, a de 1975.

O frio deste ano também será benéfico à agricultura, com ou sem geadas

Já havia na época uma diversificação embrionária de cultivos em meio à cafeicultura. Com a geada, a produção de grãos ganhou impulso. Os cafezais foram substituídos por lavouras de soja, milho, trigo e pastagens. Aumentaram a mecanização e a incorporação de tecnologias poupadoras de terra e de mão de obra. Cresceram a produtividade e a agregação de valor à produção vegetal e surgiram novas cadeias de produção de suínos e aves. Hoje, o Paraná é o maior produtor de frangos de corte: 150 milhões de aves por mês, em 20 mil granjas, gerando 1,2 milhão de empregos. Criaram-se e fortaleceram-se associações de produtores e cooperativas. No montante e na jusante das atividades produtivas, a agroindústria prosperou. Uma geada provocou essa transformação rural e criou o agronegócio pujante do Paraná.

Em segundo lugar, essa geada contribuiu para redesenhar a agropecuária nacional. Trabalhadores rurais e sobretudo pequenos e médios proprietários do Paraná e do Sul do Brasil migraram para outras regiões. Muitos venderam suas posses e compraram novas terras em regiões livres de geadas. Ou apoiaram seus filhos nessa migração rumo ao Centro-Oeste e ao Norte, em direção a Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre. Com a chegada de milhares de colonos e novos proprietários com tradição na agricultura, Rondônia virou um Estado. Mato Grosso acabou por dividir-se em dois e é hoje o maior produtor de grãos do país. O clima dessas mudanças se deveu, em boa parte, à migração de gaúchos e paranaenses. Sem a geada de 1975, talvez o Brasil não fosse a atual potência agropecuária mundial.

Geada em São José dos Ausentes, no Rio Grande do Sul | Foto: Domínio público

As mudanças provocadas pela geada de 1975 demonstraram: frio na lavoura não é só má notícia. Com empreendedorismo, mobilidade social e liberdade econômica, os produtores transformaram um evento climático negativo em progresso e desenvolvimento local e nacional. O frio deste ano também será benéfico à agricultura, com ou sem geadas. Um de seus maiores benefícios será sanitário. As baixas temperaturas reduzirão as populações de insetos-praga, a proliferação de doenças e até de plantas daninhas. Isso trará economia no uso de defensivos e herbicidas na próxima safra de verão.

Além disso, neste ano, a chuva acompanhou a chegada do frio. Nem sempre é assim. Essa chuvinha trouxe neve em altitude (bom para o turismo) e um pequeno alívio para a seca em várias regiões. Ela repôs um pouco da água tão necessária neste momento em solos, rios e reservatórios. O frio do inverno é uma bênção nos ecossistemas. Aumenta a oxigenação das águas em rios e lagos. Facilita o trabalho das bactérias na depuração dos poluentes. O acúmulo de horas de frio e o choque das baixas temperaturas induzirão floradas magníficas em diversas espécies de árvores na natureza e nos pomares. Coisa boa para parte da fruticultura.

Ainda há este agosto a atravessar. Agosto é mês do desgosto, de cachorro louco e queimadas. Contudo, em agosto, em meio ao pó, à fumaça e à fuligem, os ipês entregarão suas floradas, seus cachos de ouro e púrpura, em áreas urbanas e rurais. Em setembro, equinócio e primavera trarão mais flores ainda. E os agricultores plantarão (e obterão) uma nova safra recorde para o Brasil, com mais inovações e tecnologias modernas. Indiferentes aos aquecimentos e esquecimentos verbais, locais ou globais.

Leia também “Agricultura lidera a preservação ambiental”


Evaristo de Miranda é doutor em Ecologia e chefe-geral da Embrapa Territorial.

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35 comentários Ver comentários

  1. A história do clima tem mais de 4 bilhões de anos. Por razões óbvias, o clima está sempre mudando. Ora mais, ora mais frio, a depender das atividades solares em combinação com uma série de fatores aqui na Terra: latitudes, correntes marítimas, altitudes, relevo, evaporação das águas oceânicas etc. Mas para uma turma de jornalistas apenas dois séculos de Revolução Industrial decretaram que o clima está mudando. As faculdades de jornalismo deveriam oferecer matérias sobre geografia, geologia, economia, biologia e tantos outros assuntos para que estes formadores de opinião pudessem ter a exata noção do que falam.

  2. Adoro seus artigos. Consegue traduzir para nós leigos a lógica da agricultura de um jeito fácil de compreender e muito atraente.
    Da até vontade de estudar agronomia.
    E além disso, é uma aula de história recente do Brasil real.

    Parabéns!

  3. Uma forma bem peculiar de explicar este fenômeno meteorológico, a geada. Utiliza os registros históricos, como anotações que alguns fazendeiros faziam e arquivo de jornal para desmistificar uma questão que a imprensa sempre destaca como a grande vilã, o desmatamento da Amazônia. Só por isso seria um excelente texto, mas Dr. Evaristo vai além nos proporciona o desdobramento dos efeitos da geadas na cafeicultura paranaense dentro e fora do Paraná. Assim fica a reflexão que tudo tem sua razão de ser, inclusive a geada que causa serio danos aos cafeicultores, horticultores, pecuaristas…mas sua ocorrência não significa o aquecimento global, nem relacionado com a Amazônia, pois é apenas um fenômeno que ocorreu, ocorre e ocorrerá. Por isso, os agricultores devem buscar inovações e tecnologias que tornaram resilientes. Parabéns, Dr. Evaristo.

  4. Parabéns pelo artigo! Visão sistêmica e conhecimento colocados de maneira clara! Evaristo atraindo leitores que não são da roça mas aprendem a gostar das coisas dela!

  5. Evaristo…. parabéns!
    A isso eu chamo JORNALISMO SÉRIO.
    Se os especialistas em tudo soubessem como o jornalismo deve ser feito (em dados, registros, fatos históricos!), o jornalismo brasileiro seria tão bom!!!!
    EXCELENTE ARTIGO!

  6. Fiquei feliz com as suas previsões! E surpresa tbm ao ver tabela de geadas aqui da minha terra. Esse ano a geada aqui queimou até cana de açúcar.

  7. Mestre Evaristo, parabéns por mais um artigo elucidativo. Diferentemente dos terroristas despreparados que, por intermédio de notícias mal elaboradas, sem suporte científico, destroem a imagem do País, seus textos nos transmitem informações valiosas, envoltas em uma áurea positiva , tão necessária ao esclarecimento e fortalecimento de um sentimento nacional ávido pelo bem estar, paz e progresso.

  8. Minha família de cafeicultores mineiros resilientes brincavam para suportar a triste realidade após a geada devastadora de 1975, “vamos ter muita lenha este ano….”. As pessoas parecem esquecer os eventos climáticos cíclicos, o frio do inverno, os ventos de agosto, as intensas chuvas do verão. Esse registro da fazenda em Cajuru é uma preciosidade! Obrigada por ajudar a lembrar a todos dos ciclos da natureza.

  9. Parabéns pelo texto! Leitura sempre fácil e que traz o agro mais perto do mundo de quem vive nas cidades. Excelente a ilustração com o registro à mão das geadas na Fazenda Santana da Serra. Excelente também a maneira que aborda o tema Amazônia e o “aquecimento verbal” dos dias de hoje.

  10. O Professor Evaristo nos brinda esta semana com um artigo escrito a partir de uma lente de 360 °.
    Transcende a agronomia e o clima e penetra profundamente na História e na formação da Nação brasileira.
    Verdadeira aula de etnografia e geografia humana.
    Parabéns para seus leitores!
    E obrigado ao autor!

  11. Este artigo não tem nada demais do que todos os artigos que Dr Evaristo escreveu.

    Todos únicos. Uma peça literária, lastreado em ciência de verdade, claramente sem rastros, ranços ou pagas. Certamente a Amazônia será culpada pelo calor e pelo frio que o mundo está vivendo, mesmo representando apenas 1% do Planeta. Já já o Macron vai voltar a falar dos elefantes e girafas mortas na descuidada Amazônia.

  12. Parabéns, Dr. Evaristo, por mais um brilhante artigo, que, com dados históricos e fatos concretos, desmonta narrativas tortuosas e equivocadas. Além de didático, o texto apresenta fatos históricos relevantes e passa mensagem motivadora de como a partir de uma crise pode se ter progresso e desenvolvimento local e nacional.

  13. Parabéns por mais um excelente artigo. Eu também lembro de várias outras geadas que vieram para destruir as plantações aqui na Região Sul e Sudeste. Certamente virão muitas outras mais. Seu artigo me fez enxergar o lado positivo que me era totalmente desconhecido.
    Quando mudei para Santa Maria – RS, EM 1990, conheci um produtor rural que estava de partida para o Centro Oeste em busca por melhores pastagens pois lá já havia muitos parentes dele que estavam prosperando muito mais.
    Foi uma grande supresa para mim já que não esperava encontrar em um gaúcho genuíno e orgulhoso de sua raiz o reconhecimento de que havia melhores pastagens do que lá na sua terra.

  14. Excelente! Parabéns Evaristo. Vou enviar esse artigo para muita gente que precisa saber a verdade sobre esses fatos. Para eles temperaturas elevadas ou frio rigoroso é motivo para explica o aquecimento global.

  15. “As mudanças provocadas pela geada de 1975 demonstraram: frio na lavoura não é só má notícia”. Parabéns Dr. Evaristo! Quanto ensinamento neste admirável artigo. As crises podem ser ocasião para descobertas de outras oportunidades desde que se abandone a psicose ambientalista! Os sem terra que não foram manipulados pelo MST se tornaram desbravadores e grandes produtores.

  16. O Prof. Evaristo consegue com esse artigo o impossível. Superar-se! Brinda-nos semanalmente com artigos estupendos. Neste demonstra o uso enviesado que tentam fazer de qualquer fenômeno climático importante, imputando sua causa ao desmatamento da Amazônia. Faz uso de um registro histórico das geadas na Mogiana com início há 139 anos. Privilegiados somos nós leitores da Revista Oeste que temos enriquecida nossa cultura com as informações contidas nos trabalhos do mestre Evaristo.

  17. Pelo visto o friozinho também há de ter contribuído para inspirar nosso sempre ilustrado Professor. Esta leitura aquece e ilumina nossas mentes e corações.

  18. Perfeito modelo do” jornalismo literário”, amostra de um ótimo livro que poderia ser lançado por Evaristo de Miranda, sobre a agropecuária brasileira nas ultimas décadas.

  19. O cristianismo quer divulgar a mensagem de Cristo, não pretende salvar TODA a humanidade. Quem ouvir as palavras de Cristo e as praticar será comparado ao homem que edificou a sua casa sobre a rocha. Quem não quiser é comparado ao que edifica sua casa sobre a areia. Vindo as intempéries darão com ímpeto contra cada casa. O resultado é sabido. A maioria dos homens já fizeram sua escolha. E não foi por Cristo e sua mensagem!!

  20. Como sempre, consegue nos mostrar o lado bom do BRASIL, gosto muito de seus artigos.
    Fiquei contente em saber que em 1975 a geada mudou o BRASIL para melhor, apesar de muito prejuízo e que ela não ocorreu pelo DESMATAMENTO DA AMAZÔNIA (rs) e que o BOLSONARO não teve culpa dela.
    Obrigado

  21. Ta ai uma reportagem que tem que enviar para os esquerdistas que em tudo vê uma desgraça . E também para outros países que acham que o Brasil é o país da desgraça.
    DEUS sempre foi e sempre será DEUS.

  22. Sobre esse assunto, assisto frequentemente o canal do Prof. Ricardo Felício, o resto é quase tudo picaretagem que ultimamente tem prosperado muito não só aqui mas no resto do mundo também. Sem demérito para outros bons climatologistas.

    1. Parabéns amigo Evaristo por nós trazer tantos esclarecimentos da agricultura deste imenso País.. como nos diz o dito popular saber do mal (geada) extrair um bem..agricultores RESILIENTES partiram.para outras terras no encontro do desenvolvimento da agricultura de grãos, na agropecuária, nas granjas..nas novas tecnologias. Viva esse povo Brasileiro com sua fé..sua força saber transformar as geadas em um bem..do limão a limonada..

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