Cartaz do Sendero Luminoso, com Abimael Guzmán à frente, Karl Marx, Lênin e Mao Tsé Tung ao fundo
Cartaz do Sendero Luminoso, com Abimael Guzmán à frente, Karl Marx, Lênin e Mao Tsé Tung ao fundo

O Peru no caminho tenebroso

O Sendero Luminoso é considerado o mais violento e brutal movimento revolucionário da história da América Latina

Pedro Castillo, o novo presidente do Peru, foi empossado em 28 de julho deste ano, já em clima de crise. Militares aposentados lançaram carta aberta para que o alto-comando das Forças Armadas não reconhecesse o novo governo do partido Peru Libre, que se declara abertamente marxista-leninista.

Castillo cometeu seu primeiro grande erro ao se reunir com correligionários esquerdistas num teatro de Lima (vedado à imprensa) e anunciar que seu novo primeiro-ministro era Guido Bellido. No dia seguinte, o sol, a moeda nacional, desabou 12% perante o dólar e a bolsa caiu 6%.

O novo presidente nomeou Héctor Béjar para as Relações Exteriores. Béjar treinou ao lado de Ernesto Guevara nos anos 1960, é ligado ao regime cubano e foi guerrilheiro no Exército de Libertação Nacional. O fundador e líder de seu partido é Vladimir Cerrón, um neurocirurgião educado em Cuba e admirador dos regimes cubano e venezuelano. Ele não se candidatou nem pode ser ministro porque foi condenado por corrupção.

Mas o verdadeiro fantasma que assombra os peruanos foi despertado pelo primeiro-ministro Guido Bellido. Ele é também homofóbico e considera Cuba uma “democracia”. Durante um debate, Bellido deixou clara sua simpatia pelo grupo revolucionário Sendero Luminoso, e enfrenta até hoje um processo por apoio ao terrorismo. O Sendero levou o país ao caos nos anos 1980 e início da década de 1990, tornando-se famoso pela extrema violência que provocou mais de 35 mil mortes. A simples menção do nome do grupo provoca arrepios na maioria dos peruanos.

Esses gestos de extremismo do novo presidente foram parcialmente compensados pela escolha de Pedro Francke, um esquerdista moderado, como ministro das Finanças. Em junho, Francke declarou ao jornal The Guardian: “Companhias privadas continuarão a ser companhias privadas. Nossa economia será orientada para o mercado, mas com políticas favoráveis aos pobres”.

O país virou um território fértil para esquerdistas e demagogos em geral

As palavras do ministro Francke amenizaram a tensão, por enquanto. Além disso, o partido de Pedro Castillo tem apenas 37 das 130 cadeiras do Parlamento, hoje com maioria de centro e direita. Aparentemente vai ser difícil uma mudança brusca de rumo. Mas a simples simpatia do primeiro-ministro Guido Bellido pelo Sendero Luminoso é suficiente para ligar o alerta.

O Sendero Luminoso é considerado o mais violento e brutal movimento revolucionário da história da América Latina. Ele estava a caminho de transformar o Peru numa espécie de Camboja sul-americano. No Camboja, um grupo muito similar ao Sendero Luminoso, o Khmer Vermelho, tomou o poder entre 1975 e 1979 e instalou um regime de terror sem limites.

La Trinchera Luminosa | Foto: Reprodução

O Khmer Vermelho, como o Sendero, era adepto do “comunismo puro” pregado pelo chinês Mao Tsé-tung, considerado o maior assassino em massa de todos os tempos. Como o Khmer, o Sendero tinha um líder secreto tratado como um deus pelos seguidores, tomou o campo antes de atacar as cidades e praticou um nível de violência tão alucinado que exterminou um terço da população num banho de sangue e crueldade.

O Sendero Luminoso provavelmente não existiria se o Peru não fosse um país tão miserável. Suas riquezas (peixe e alguns minerais como prata, chumbo, zinco e cobre) são praticamente as mesmas de seu passado colonial. Um país que depende do extrativismo dificilmente escapa ao atraso. Sua agricultura é precária e a indústria praticamente inexistente. Boa parte do território é improdutiva, ocupada pela Cordilheira dos Andes. Nessa situação, o Peru virou um território fértil para esquerdistas e demagogos em geral.

O Sendero Luminoso foi fundado em 1970, na fragmentação do Partido Comunista peruano, cindido pela disputa ideológica entre a China e a União Soviética. Seu nome foi inspirado na frase do fundador do partido, José Carlos Mariátegui: “O marxismo-leninismo abrirá o caminho luminoso até a revolução”.

Cartaz do Sendero Luminoso, com Abimael Guzmán à frente, Karl Marx, Lênin e Mao Tsé Tung ao fundo | Foto: Reprodução

Abimael Guzmán, mais conhecido como Presidente Gonzalo, nasceu em 1934 na região de Ayacucho, centro-sul do país. Filho de um rico comerciante, foi abandonado ainda criança pelos pais, o que em parte pode explicar sua personalidade doentia. Virou professor de filosofia em 1962. Semanalmente se reunia com alunos e colegas para pregar o fim das injustiças sociais. Formou um grupo que se tornou, no ocaso dos anos 1960, o Partido Comunista do Peru. Quando os estudantes se formavam, viravam professores para doutrinar mais alunos, num processo contínuo de aparelhamento.

Entre 1965 e 1967 Guzmán visitou a China em pleno caos sangrento da “Revolução Cultural”. Decidiu que era daquilo que o Peru precisava: uma revolução “rápida e violenta”. Sua retórica incendiária atraiu jovens intelectuais e acadêmicos da região. Em seguida, passou a recrutar com seus seguidores os camponeses miseráveis de origem indígena.

La Trinchera Luminosa | Foto: Reprodução

No fim da década de 1970, o Partido Comunista do Peru juntou Sendero Luminoso ao seu nome. Guzmán reuniu amigos fiéis do meio universitário (e sua esposa, Augusta) como “comandantes” do novo grupo. Sua autoridade era absoluta. Os seguidores não faziam juramento de lealdade à organização, mas ao “Camarada Gonzalo”. Seus “generais” eram intelectuais de classe média com formação universitária. “Escolas populares” espalhavam sua palavra entre os mais pobres, muitos dos quais analfabetos de origem indígena. Guzmán ganhou o apelido de “Xampu”, pois, nas palavras de um de seus antigos alunos, ele “lavava seu cérebro e esclarecia tudo”. Pregava que 10% da população deveria morrer para “purificar” o país. Segundo ele, as dezenas de milhões de mortos por Josef Stalin e Mao eram “pouco”.

O Sendero começou suas operações militares em Ayacucho em 1980. Logo ganhou o apoio de camponeses, carentes de qualquer forma de esperança. Quem despertasse a menor suspeita de estar infiltrado no movimento era torturado e morto. Guzmán ficou especialmente furioso com o que considerou a traição do primeiro-ministro chinês Deng Xiaoping, que trocou o delírio radical de Mao Tsé-tung por um regime mais pragmático e aberto ao mercado. Em 26 de dezembro de 1980, a população de Lima despertou para descobrir cães mortos pendurados pelo pescoço nos postes, com os dizeres “Deng Xiaoping, filho de uma cadela”.

Cães mortos pendurados pelo pescoço pelo Sendero Luminoso num ato de repúdio ao primeiro-ministro chinês Deng Xiaoping | Foto: Divulgação

Guzmán enaltecia a “luta armada”, em oposição à orientação soviética de participar legalmente da vida política do país e tomar o poder pelas beiradas. A barbárie e o terror eram “instrumentos revolucionários”. A ferocidade do movimento se tornou mais conhecida quando, em março de 1983, uma patrulha autônoma de camponeses matou um dirigente do Sendero na pequena cidade de Lucanamarca. Em 3 de abril veio a resposta: militantes do Sendero atacaram cinco cidades da região e chacinaram 69 pessoas com facões, machados e armas de fogo. Dezoito das vítimas eram crianças, a mais nova delas com 6 meses de idade. Em agosto de 1986, o grupo realizou uma “limpeza social” na cidade de Aucayaco, matando dez homossexuais e prostitutas.

O massacre de Lucanamarca | Foto: Divulgação

No final dos anos 1980, o Sendero se tornou cada vez mais poderoso com a produção e o tráfico de cocaína. Espalhava o caos nas regiões mais pobres e oferecia a ordem em troca da obediência absoluta. “Tribunais populares” dominados pelos militantes passaram a julgar ladrões, estupradores e criminosos, que podiam ser enforcados, ter a garganta cortada ou a cabeça esmagada por uma rocha. Qualquer representante do Estado, candidato a eleições, padre ou voluntário de serviços sociais poderia também enfrentar rápido “julgamento” e ter o mesmo fim.

Os senderistas tinham como aliados a incompetência, a corrupção e a violência cega das autoridades peruanas. Segundo reportagem de 1992 do New York Times, as deserções entre os soldados na frente de batalha chegavam a 40%, e a 7% entre os oficiais. Os militares não tinham a disciplina e a penetração popular dos terroristas. Em 1988, Guzmán resolveu que era o momento de atacar Lima, que reunia quase um terço da população nacional. Por quatro anos a capital foi aterrorizada por atentados e assassinatos. O Peru caminhou em direção à anarquia.

Cartaz do Sendero Luminoso | Foto: Divulgação

Abimael Guzmán considerava a fé cristã como o “ópio do povo”. A Igreja Católica perdeu cerca de uma centena de padres e freiras, torturados e mortos pelo Sendero. As vítimas principais eram religiosos estrangeiros, como a freira australiana Irene McCormack, submetida a “júri popular” e executada com um tiro no olho por uma menina de 10 anos. Ou os franciscanos poloneses de Pariacoto que tiveram os dedos e a língua cortados e foram jogados de uma ponte em agosto de 1991.

Nessa época o Peru vivia um período especialmente amargo. O país sofria com um surto de cólera, os níveis de desemprego eram abissais e a desnutrição se agravava. O Congresso e o aparelho judiciário estavam gangrenados pela corrupção. Os investidores e os turistas fugiram do país. Eleito em 1990, o presidente Alberto Fujimori decidiu que era o momento de acabar com o Sendero. Ele havia sido eleito para isso mesmo. Em abril de 1992, Fujimori suspendeu a Constituição, declarou estado de emergência e decretou lei marcial. Sua popularidade subiu para 85%.

Na noite de 12 de setembro, as forças antiterrorismo invadiram uma residência verde-limão, num bairro de classe média de Lima. A casa era vigiada havia meses por detetives disfarçados. Lá estava sendo preparada a operação Conquistar Lima, com uma série de explosões. A polícia tinha autorização secreta do presidente Fujimori para matar o comandante, mas ele foi preso. O todo-poderoso Abimael Guzmán, gordinho e barbudo, foi apanhado assistindo à TV numa cadeira de balanço. “É minha vez de perder”, declarou ao policial.

Numa série de fotos que se tornaram icônicas, Guzmán foi levado a julgamento dentro de uma jaula, vestido com a roupa listrada de prisioneiro. Foi condenado a duas penas perpétuas. Ainda cumpre pena na prisão de segurança máxima da Marinha na base de Callao. Como símbolo da situação política peruana, o próprio presidente Alberto Fujimori foi acusado de abuso de poder e desvio de US$ 15 milhões em dinheiro público. Está preso, também, em Lima. Sua filha Keiko se candidatou à Presidência no ano passado e perdeu por uma margem mínima para Pedro Castillo.

Abimael Guzmán | Foto: Divulgação

Um dos aspectos mais perturbadores da história do Sendero Luminoso é o apoio que o bando recebeu em países europeus, Estados Unidos e Canadá. No auge da atividade (e de seus massacres) o grupo espalhava sua influência entre células extremistas da Alemanha, França, Suécia, Suíça e México, numa rede chamada de “Movimentos Populares Peruanos”. Estocolmo e Berlim se tornaram capitais informais do Sendero na Europa. Um jornal de doutrinação chamado El Diario Internacional era impresso em espanhol, inglês e francês, e distribuído em escala global.

Cartaz do Sendero Luminoso | Foto: Divulgação

Em 1991, o Exército de Guerrilha Musical, com seus ponchos e chapéus exóticos, estreou num bar de Londres. Simpatizantes ingleses curtiam a música folclórica andina, e não percebiam que as letras diziam coisas como “Camarada Gonzalo, luz das massas, o sangue do povo alimenta a luta armada. A vitória é nossa, a aurora já está nascendo, as frágeis paredes da velha ordem estão desabando”. De tempos em tempos, o público de “revolucionários” do pub era convidado a gritar “Viva o presidente Gonzalo”.

Essa rede de apoio do Sendero Luminoso na Inglaterra infernizou uma visita oficial do presidente Fujimori, quando 250 simpatizantes do movimento, incluindo membros do Partido Trabalhista, protestaram contra o presidente peruano — chamado, obviamente, de “fascista”. Manifestações de apoio ao grupo terrorista foram organizadas também em Paris, Hamburgo, Frankfurt, Berlim e Nova York.

O ministro peruano de Relações Exteriores na época, Augusto Blacker, protestou na Comissão de Direitos Humanos da ONU: “Não é coerente nem racional, não é ético nem politicamente justificável que terroristas que matam, torturam, sequestram e usam crianças como explosivos vivos sejam apoiados por outros Estados. E menos ainda que esses Estados permitam que eles mantenham uma organização internacional que divulga propaganda em favor da violência e a desestabilização de democracias legítimas”. O Sendero Luminoso provou mais uma vez que radicais chiques e revolucionários de butique aceitam qualquer monstruosidade, desde que seja “de esquerda”.

No último 23 de maio, três homens mascarados e armados surgiram numa aldeia miserável no interior do Peru. Fuzilaram 16 pessoas apanhadas ao acaso, duas delas crianças, e saíram deixando panfletos assinados por um “Partido Comunista Militarizado do Peru”. Que todo mundo na região sabe ser apenas um novo nome para o velho Sendero Luminoso.

Cartaz do Sendero Luminoso | Foto: Divulgação

Por enquanto o “novo” Sendero está limitado a 450 seguidores na região central dos Andes. Agem como uma quadrilha dedicada à extorsão de traficantes de coca. Seu objetivo primeiro é afastar qualquer repressão ao tráfico de drogas na região. E também garantir que qualquer sinal de progresso seja cortado pela raiz. Pois fanáticos maoistas só conseguem algum sucesso em regiões de miséria absoluta.

O Sendero Luminoso vai voltar a crescer? O Peru vai se tornar outra Venezuela com Pedro Castillo? Assessores cubanos estão a caminho de Lima? O regime chinês — cada vez mais saudoso de Mao Tsé-tung — vai propor algum novo grande acordo com o atual presidente peruano? O Brasil deve se preparar para novas ondas de refugiados?

Aguardamos os próximos episódios.

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18 comentários Ver comentários

  1. Dagomir Marquezi, como sempre, fazendo jornalismo de alta qualidade. Nós, os leitores, somos gratos por sua competência e compromisso com o bem , o bom e o belo. Essa história concisa do Sendero Luminoso retrata o perigo da chaga comunista para a civilização ocidental. Que esse seu relato reverbere na sociedade brasileira, pois a cada dia temos sinais perturbadores da degeneração moral paulatina que viceja no país (sorrateira, mas já mostrando suas garras em virtude de êxitos institucionais patrocinados pelo STF com amplo amparo da velha mídia que não vive sem dinheiro estatal), cujo tragédia será sentida quando já for tarde demais.

  2. Excelente artigo, que mostra que a “democracia” em vigor na América Latina existe apenas no nome. Não há como esconder que o movimento de transformação de países em vassalos comunistas está em pleno andamento, com Venezuela, Argentina, Bolivia, Nicaragua e agora o Peru definitivamente em risco altíssimo de conversão. A batalha pelo Brasil está acontecendo debaixo dos nossos olhos, todos os dias.

  3. O duro é aceitar que a lei democrática não extingua esses bandidos. Acredito e torço que, para bandidos só serve a lei deles próprios. Essa eles respeitam e só essa os extinguirá.

  4. SOU DE UMA CIDADE QUE FAZ FRONTEIRA COM PERU E COLÔMBIA, BENJAMIN CONSTANT, JUNTAMENTE COM TABATINGA E ATALAIA NO NORTE, NO AMAZONAS. ALERTO, DESDE JÁ, O COMANDO MILITAR DA AMAZÔNIA PARA REFORÇAR ESSA FRONTEIRA, POIS O PERIGO DO REAVIVAMENTO DAS AÇÕES DO SENDERO É REAL.

  5. Como o grosso da população do Peru se concentra além da cordilheira, no litoral, refugiados se houver, deverão se dirigir principalmente à Colômbia, via Equador. A amazônia peruana é pouco habitada e talvez o estado do Acre seja mais prejudicado nisso daí. Enfim, mais um vizinho problemático.

  6. kkkk velha tática comunista de colcoar um social democrata nas finanças para enganar os investidores enquanto criam as bases do narco socialismo corrupto. lenin fez o mesmo pós 1917 com a NEP

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