Paulo Guedes, ministro da Economia
Paulo Guedes, ministro da Economia

Os holofotes voltam a concentrar-se em Paulo Guedes

Com o PIB no mesmo patamar do período pré-pandemia, o ministro volta a ter a bola nos pés faltando 17 meses para o fim do (primeiro) mandato

A gestão de Paulo Guedes à frente do Ministério da Economia estava no seu 365º dia quando autoridades chinesas anunciaram, em 31 de dezembro de 2019, a descoberta de uma doença misteriosa que havia infectado dezenas de pessoas e se propagava rapidamente. O agente causador, que recebeu o nome de novo coronavírus, provocaria mais de 4 milhões de mortes, derrubaria bolsas de valores mundo afora, levaria à paralisação de setores da indústria e geraria gastos adicionais para os governos.

Agora, 17 meses depois do marco zero da pandemia, o Produto Interno Bruto brasileiro voltou ao patamar pré-covid. Outros indicadores da economia, como o nível de emprego, também apontam para uma retomada. Com a gestão marcada por um pesadelo sanitário sem precedentes na era moderna, Guedes tem pouco menos de um ano e meio para definir qual será a sua grande marca. A favor dele, está o fato de ter aprendido muito sobre os meandros de Brasília de 2019 para cá. Contra, estão as condições políticas ainda mais turbulentas que em 2019.

A Universidade de Chicago, onde Paulo Guedes obteve o seu doutorado, fica próxima do Lago Michigan, na terceira maior cidade norte-americana. A influência da instituição no estudo da economia no século 20 foi tão grande que deu origem à chamada Escola de Chicago — termo usado para definir o grupo de professores que, em termos gerais, sustentam a ideia de que o livre mercado é mais eficiente que o Estado na geração de riquezas.

Doutor aos 29 anos por Chicago, Guedes voltou ao Brasil em seguida. Como sócio de banco, professor e fundador do think tank Millenium, ele construiu uma reputação sólida no mercado financeiro e no meio liberal. Mas, no currículo estrelado, ainda não havia uma passagem pelo poder público. Não por falta de convite. Cobiçado por outros governos, ele não aceitou os termos que lhe foram oferecidos. Queria ser ministro, e ministro com grau de autonomia elevado. “Ele nasceu para ser ministro, e toparia qualquer convite, viesse de onde viesse, desde que com a promessa de deixá-lo executar”, disse um interlocutor de Guedes. Pois ele acabou encontrando o que buscava em um nome improvável: o do deputado federal Jair Bolsonaro, que, em 2000, havia afirmado que o então presidente Fernando Henrique Cardoso merecia ser fuzilado devido ao programa de privatizações de seu governo.

Mas Bolsonaro mudara. Um ano antes da eleição que o levaria ao Planalto, ele tinha a clareza de que estava se transformando de azarão em candidato competitivo, e de que ainda precisava de um nome forte na economia. Paulo Guedes, por sua vez, estava em busca de um candidato que estivesse disposto a fazê-lo ministro da Fazenda. O primeiro encontro entre os dois aconteceu em novembro de 2017, no (hoje extinto) Hotel Sheraton da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Bolsonaro, que morava no condomínio ao lado, mais ouviu do que falou; embora tenha discordado de Guedes em alguns pontos, como a privatização de estatais tidas como estratégicas, o candidato gostou do estilo do economista — franco, de poucos sorrisos e com certo tom constante de urgência.

A partir dali, Bolsonaro repetiria dois termos com frequência ao se referir a Paulo Guedes. Um, “carta branca” — importante para indicar ao mercado que o futuro ministro teria autonomia para atuar. O outro, “Posto Ipiranga” — o epíteto emprestado de um comercial de TV e que representava a condição de guru econômico a quem Bolsonaro recorria sempre que fosse preciso (ou quando queria evitar perguntas mais espinhosas sobre economia). A parceria funcionou bem na campanha. Uma subida de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto geralmente era acompanhada por uma subida proporcional no índice da bolsa de valores.

O governo por dentro

Paulo Guedes assumiu o Ministério da Economia em janeiro de 2019 em meio a grande expectativa. Como prometido pelo presidente, teve autonomia para escolher os principais nomes de sua equipe. Entre eles, figuras respeitadas e de inclinação liberal, como Salim Mattar, Mansueto Almeida, Paulo Uebel e Adolfo Sachsida.

Sachsida era, até a chegada de Guedes, o principal assessor econômico de Bolsonaro. Dos quatro nomes da lista, também é o único que continua no governo, ocupando o cargo de secretário de Política Econômica. Os outros três pediram para sair por estarem insatisfeitos com o ritmo do avanço da agenda do ministério. Mattar disse a Oeste que não se sente confortável em comentar o desempenho do ex-chefe. Mas, em entrevista ao Estado de S. Paulo, pouco depois de pedir demissão, resumiu a situação nestes termos: “Paulo Guedes é resiliente, mas não percebeu que foi vencido”.

Paulo Guedes no dia da posse no Ministério da Economia | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Para Sachsida, entretanto, o desempenho da gestão de Guedes até aqui é digno de elogio. O secretário afirma que o ministro tem um norte claro. “A consolidação fiscal e as reformas pró-mercado visam a aumentar o PIB potencial, fortalecendo as instituições e estabelecendo marcos legais que proporcionem segurança jurídica ao investidor, reduzam o tamanho do Estado na economia e melhorem o ambiente de negócios”, disse. “São medidas que pavimentam o caminho para o crescimento do país no médio e longo prazo e não mais em voos de galinha.”

Entre os ex-subordinados do ministro, é difícil encontrar quem critique sua conduta. “Ele é um excelente estrategista, um visionário, e tem a visão correta”, disse um dos principais nomes da formação inicial do ministério de Guedes. “Não é um gestor, e por isso é preciso haver uma estrutura de gestão abaixo dele.” O ministro é descrito como alguém de postura firme e que lida com o cargo com senso de missão. “Ele se preparou a vida toda para isso”, assegura outro interlocutor. Esse sentimento de dever é o que explica a resiliência de Guedes diante dos muitos percalços, inclusive desentendimentos com Jair Bolsonaro sobre a necessidade de um controle rigoroso nas despesas públicas: o ministro considera estar a serviço do país, e não do governo. E, embora tenha personalidade firme, é descrito como alguém que não arranja brigas à toa.

As expectativas para a gestão de Guedes eram altas por causa do seu histórico profissional, mas também porque o próprio ministro fazia questão de elevá-las com frequência. Em setembro de 2019, por exemplo, chegou a dizer que a reforma tributária seria enviada ao Congresso na semana seguinte. Não o fez, envolvido em uma queda de braço dentro do próprio governo sobre temas como a volta da CPMF. A primeira etapa da reforma foi remetida ao Legislativo apenas em julho do ano seguinte. O texto ainda não foi votado. A segunda parte, que era esperada para este ano, deve atrasar. Em Brasília, os relógios andam mais devagar que o tráfego na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo.

O mesmo vale para as privatizações. Durante a campanha, Guedes expressou a opinião de que quanto menos estatais, melhor. Já no governo, e pressionado pelo Executivo e pelo Legislativo, adotou um tom menos otimista. Para alguns, o próprio presidente da República está entre os culpados.

A única vez em que Jair Bolsonaro foi visto lendo livros sobre economia foi em um avião, durante uma viagem entre o Rio de Janeiro e Brasília, em 2017. No dia anterior, ele havia recebido uma cópia de uma das bíblias dos defensores do livre mercado: As Seis Lições, de Ludwig von Mises. Resolveu levá-la consigo na viagem de uma hora e meia até Brasília. Bolsonaro confessa, a quem perguntar, que praticamente não lê — e, quando o faz, não tem apreço por livros de economia. Por isso, na campanha e no início do governo, terceirizou o tema a Guedes. Conforme ganhava rodagem como presidente, contudo, o capitão passou a dar mais palpites e a ouvir seu ministro com maior frequência.

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro | Foto: Marcos Corrêa/Domínio público

Bolsonaro também passou a ver com simpatia o nome de Rogério Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional e encarregado de tocar a Reforma da Previdência. Economista, Marinho tem um currículo menos extenso do que Guedes, mas traz uma grande vantagem: deputado federal experiente, é político de carreira. “O Marinho entende de economia e não tem medo do Paulo Guedes”, repete Bolsonaro. Alguns entendem isso como um recado ao ministro da Economia.

Vitórias

As dores de cabeça, entretanto, não apagam o fato de que Paulo Guedes conseguiu duas vitórias expressivas já no primeiro ano à frente do ministério: a aprovação da Reforma da Previdência, que reduzirá substancialmente o rombo no setor a longo prazo, e a Medida Provisória da Liberdade Econômica, que simplificou regras e reduziu os custos para empreendedores de todo o país.

Mais tarde viriam outras conquistas, como a autonomia do Banco Central. “O Paulo Guedes entregou muita coisa importante, que no cenário inicial de mandato, com apoio inicial, havia mais facilidade de aprovação”, afirma Helio Beltrão, presidente do Instituto Mises Brasil e um liberal convicto. Para Beltrão, as dificuldades do governo com o Congresso, além da cacofonia do próprio Executivo, prejudicaram a atuação de Guedes. Essa é uma explicação semelhante à dada pelos auxiliares do próprio ministro para o avanço tímido das privatizações (das grandes estatais, apenas a da Eletrobras andou). Além disso, Beltrão afirma que o próprio ministro “trocou os pés pelas mãos” em alguns episódios, como quando sugeriu a criação de uma moeda única com a Argentina ou defendeu a volta de um imposto nos moldes da CPMF.

Embora projetos que modificam a legislação em vigor sejam importantes, outros aspectos mais discretos da gestão de Guedes têm impacto considerável na construção de um ambiente econômico mais favorável à livre-iniciativa.

A reta final do mandato deve se basear em dois pilares: reformas e privatizações

O ministro freou a elevação dos gastos públicos (com a exceção, compreensível, dos gastos emergenciais com o combate ao coronavírus). Ele vetou a contratação de novos servidores, exceto em casos de extrema necessidade, e cortou ou congelou uma fatia importante de recursos do Orçamento do Executivo. Ao fazê-lo, enfrentou a ira de sindicatos de diversas categorias. Mas não cedeu. O ministro e sua equipe também simplificaram a gestão interna na Esplanada dos Ministérios, por meio de um sistema eletrônico de circulação de documentos. O sistema evita que ofícios e projetos se percam nas gavetas do Executivo. O resultado é maior transparência e menor favorecimento aos preferidos dos burocratas.

Apesar do seu relacionamento com Bolsonaro já ter se desgastado, Guedes continua tendo a confiança do chefe do Executivo. A reta final do mandato deve se basear em dois pilares: reformas — sobretudo tributária e administrativa — e privatizações.

“O Brasil está bem na foto”, diz o professor Roberto Ellery, da Faculdade de Economia da Universidade de Brasília. “A maioria dos países ainda não voltou ao patamar do último trimestre de 2019. O que precisa ser feito é retomar a agenda de reformas.” Ele acrescenta que o governo não pode ceder à tentação de estender indefinidamente os benefícios criados para aplacar os efeitos do coronavírus.

Com o PIB no mesmo patamar do período pré-pandemia, Paulo Guedes volta a ter a bola nos pés faltando 17 meses para o fim do (primeiro) mandato. O sucesso ou o fracasso do ministro da Economia tende a ter consequências que ultrapassam o campo econômico: deve ser um dos fatores determinantes na decisão sobre um segundo mandato de Bolsonaro — e provavelmente do próprio ex-aluno da Universidade de Chicago.

Leia também “Ubiratan Iorio: ‘A reforma tributária é um ‘remendo’’”

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13 comentários Ver comentários

    1. Gosto muito de vários ministros escolhidos por Bolsonaro.Paulo Guedes é um deles,firme quando não pode ceder, difícil conduzir um governo depois de dois presidentes do PT,que deixaram apenas corrupção e terra arrasada.Acho que estamos caminhando para um País melhor.Nao desistiremos.

  1. A equipe de ministros do Presidente Bolsonaro, capitaneada por Paulo Guedes, é muito louvável, com raras exceções. Espero que continue assim. Se não houver “mutreta”, com certeza o Presidente será reeleito no primeiro turno com folga. Precisamos ficar vigilantes. Deus acima de todos.

  2. Guedes tem visão do modelo de liberdade econômica que não vejo em outros.
    Parabéns ministro Guedes! E cuide para que os pobres e a classe média não sejam onerados não reforma tributária. E cuidado, dentro da máquina são muitos os especialistas em encobrir as consequências.

  3. Pela primeira vez tenho a esperança de que o governo irá publicar um balanço, que se preste a esse nome, onde fica demonstrada a aplicação de cada centavo.
    Obrigação mínima jamais cumprida.

    1. O título de Mandalorian dado ao Ministro Paulo Guedes é digno da ficção para a realidade. Economistas medalhões estão morrendo de inveja, afinal, é bonito de se ver a retribuição de dons e privilégios ao menos abastados. E não menos importante, Presidente Bolsonaro com a sua humildade soube escolher implacavelmente o Mandalorian. Que se permitam a continuidade da obra.

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