Ilustração: Gabriel de Oliveira

Política e economia

Muito dessa tensão que estamos vivendo tem ligação com o fato de Bolsonaro representar uma ruptura, e o sistema estar unido contra ele

O Brasil terminou o primeiro trimestre de 2021 com quase 15 milhões de desempregados, enquanto o nível de pobreza atingiu praticamente 30% do total da população, ante os 25% no mesmo período do ano anterior. Além disso, o fardo inflacionário tem aumentado, e as previsões apontam para mais de 7% no fechamento acumulado do ano, medido pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPCA). No mais, a volatilidade dos mercados financeiros aumentou, e o Ibovespa, que atingiu 130 mil pontos em junho, perdeu cerca de 10 mil pontos desde então. O que está por trás disso?

Quanto aos indicadores macroeconômicos, é impossível fazer qualquer análise sem levar em conta a pandemia. Não só o vírus chinês em si, mas a reação que muitos países adotaram por conta dele. Se esta pandemia não foi sem precedentes, a decisão de fechar tudo foi. No Brasil, ela ficou a cargo de prefeitos e governadores, com o aval supremo. Muitos repetiam que o foco deveria ser a saúde, e que a economia ficaria para depois. O “depois” chegou.

As restrições ao funcionamento da economia impuseram um custo muito elevado, que explica o aumento da pobreza. Ele teria sido ainda pior não fossem os programas de auxílio emergencial do governo federal. Os mesmos que apoiaram o fechamento e repetiram que a economia poderia ficar para depois exploram politicamente os dados negativos contra o presidente Jair Bolsonaro, demonstrando puro oportunismo demagógico.

O fato é que o PIB brasileiro caiu menos do que as estimativas do ano passado, que chegavam a apontar até 10% de declínio, e neste ano deve acontecer uma recuperação razoável, com crescimento da ordem de 5%. Em comparação com nossos vizinhos, o Brasil não fica entre os piores, cabendo o posto aos argentinos, com folga. A situação de miséria se agravou tanto no país governado pela esquerda lulista que o escambo voltou a ser praticado. Famílias se desfazem do que tiverem em casa para trocar principalmente por alimentos ou produtos de limpeza e higiene pessoal.

O fenômeno inflacionário, assim como a queda da atividade, também é global. Bancos centrais do mundo todo injetaram muita liquidez nos mercados para impedir recessões maiores, e há gargalos enormes na logística e na mão de obra, produzindo choques de oferta e alta de preços. Nos Estados Unidos, a inflação ultrapassa os 5%, para se ter ideia. O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a inflação brasileira não está fora de controle e que os índices de preços sobem no mundo todo. Para ele, uma inflação entre 7% e 8% está “dentro do jogo”. E ele tem um ponto.

Claro que assusta esse patamar, ainda mais num país com péssimo histórico como o nosso. Felizmente, temos agora um Banco Central independente, graças ao governo Bolsonaro, e cujo presidente tem credenciais liberais sólidas para transmitir a confiança de que não permitirá uma espiral inflacionária. O ideal seria acelerar reformas que reduzissem os gastos públicos, mas isso depende do Congresso, e perto de eleições complica mais ainda. Se o BC tiver de usar sua cavalaria monetária, porém, isso será feito para ancorar as expectativas. A escalada da taxa de juros medida pela Selic já teve início com esse propósito.

Vale notar que a crise hídrica também agravou o quadro, e isso é choque pontual de oferta, não uma política inflacionária deliberada produzida pela expansão do crédito. Só no resultado do mês passado, os custos de moradia subiram 3,1%, puxados pela energia elétrica, que subiu 7,88%. Houve também uma alta forte do preço das commodities no mercado internacional, causada pelo reaquecimento de economias como a chinesa, a que menos sofreu com a pandemia originada justamente lá, talvez em laboratório.

Mas há um fator interno nos números negativos, sim, e se trata da instabilidade política. Por um lado, decisões do governo sobre precatórios e renovação de auxílios acenderam uma luz amarela sobre uma guinada populista de abandono à responsabilidade fiscal, ainda que a crise pandêmica justifique a medida. A demora nas reformas estruturais, como a administrativa, também desanima investidores. Por fim, não se pode ignorar a tensão institucional em curso no Brasil. Mas de quem é a culpa aqui?

A imprensa em geral a coloca em Bolsonaro, ignorando os vários abusos por parte do Supremo Tribunal Federal. E aqui cabe uma análise um pouco mais detalhada. Bolsonaro venceu com um discurso disruptivo, quase revolucionário. Tentou governar com bancadas temáticas e pressão das ruas, sabendo dos grandes desafios disso, mas recusando lotear os ministérios no velho toma-lá-dá-cá. A aprovação da importante reforma previdenciária animou, mas era talvez um lapso de sensatez de um Congresso fisiológico em busca de sobrevivência. O “centrão” sabia que tinha de preservar as galinhas dos ovos de ouro.

Logo ficou claro que o presidente precisava chamar os parlamentares para o governo, transferir poder e cargos. Ele não venceu para ser um déspota esclarecido, e o Congresso, ainda que com regras ruins, foi eleito. Bolsonaro se rendeu, então, ao “centrão”, mas parte disso tem como meta somente sua própria permanência, já que a ameaça de impeachment é constante. Algumas reformas até avançaram, mas bem aquém do necessário. Seria tudo mais simples e fácil se Bolsonaro ao menos aderisse de vez ao mecanismo corrupto, não é mesmo?

A pergunta é capciosa de propósito. Muito dessa tensão que estamos vivendo tem ligação com o fato de Bolsonaro representar uma ruptura, e o sistema estar unido contra ele. A coisa que os mercados mais temem é incerteza, indefinição. Investidores não costumam deixar de alocar capital em países dominados por corruptos ou mesmo por ditaduras. Vide a China. Claro que podem preferir democracias sólidas, mas isso não é necessariamente um impeditivo. O que não gostam é de insegurança.

São nossas liberdades como cidadãos que estão em jogo.

Pode parecer amoral ou insensível isso, mas é exatamente esse o jogo: os investidores não priorizam a ética ou a liberdade dos povos, apesar da sinalização de virtude com campanhas como o ESG (Environmental, Social, and Governance, em inglês). O objetivo continua sendo maximizar o retorno sobre o capital investido. Investidores não são ONGs, e mesmo essas muitas vezes viram negócios lucrativos sob o manto do ativismo nobre. É o que é, não o que romantizam. E movimentos bruscos de mudança assustam investidores, eis a verdade.

O caso extremo é uma revolução. Ela pode acabar bem, como a liberal americana, ou muito mal, como as “progressistas” francesa, cubana, soviética etc. Mas, durante o processo de parto, os investidores ficam receosos demais, justamente pela indefinição do resultado. É por isso que já vemos bilionários desejando a volta do corrupto petista: eles sabem que isso significa um retrocesso ético na política, o retorno da roubalheira, mas não ligam muito, se em troca tiverem a garantia de “normalidade”. Bolsonaro incomoda por não transmitir essa “tranquilidade” dentro de um esquema podre.

Esse breve resumo serve para a seguinte conclusão: há problemas reais em nossa economia, parte deles oriunda da pandemia, e outra parte derivada do clima tenso na política. Mas esse ambiente nervoso tem como principal causa o fato de que o presidente vem resistindo aos esforços do “mecanismo” de derrubá-lo num ato golpista. Os investidores podem sofrer no curto prazo, mas são nossas liberdades como cidadãos que estão em jogo, a tentativa de construir uma democracia mais robusta, impondo limites ao arbítrio supremo. E raramente há parto sem dor…

Leia também “A ditadura do capitalismo lacrador”

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24 comentários Ver comentários

  1. Será se ele trabalhasse caladinho, tipo o ministro Tarcisio, niguem o visse ou ouvisse, ele nao teria mais sucesso em seu governo. CAda vez que ele dá um passo ou abre a boca a imprensa toda se apega ao fato e é de perder a paciencia. ACho que nao verei este pais caminhando normalmente sem convulsões a cada dia.

  2. Parabéns Constantino!!! Continue com essa forma boa de colocar em ordem os acontecimentos, pois isso coloca uma Luz no caminho, para construirmos um Brasil Melhor. Estaremos no 7 de setembro por aqui defendendo nossas cores, nossa terra, nossa liberdade, nos expressando e criando as bases de um Povo para criar uma Nação. Que essa Luz continue sempre clara a iluminar suas ideias.

  3. Cada artigo que leio, sou instada por um íntimo desejo de fazer um comentário elogioso aos textos e análises. Eis mais um. Excelente!
    É que sou nova por aqui e ainda não me acostumei com jornalismo de qualidade. Parece que estou elogiando indiscriminadamente. Mas, não! Todos os jornalistas, analistas e articulistas são muito bons e já não via isso há tempo. Mais um pouco percorrendo esta ilha de excelência jornalística, e eis que me acostumarei com os profissionais que fazem seu trabalho sem militância, com apego aos fatos, reféns apenas da verdade e do cuidado com sua própria credibilidade.

  4. Muito bom, Rodrigo. Para os bilionários com contas na Suiça, não importa se o Lula estiver no poder, pois eles nunca perdem. Infelizmente é verdade: a esquerda tem sido eficiente em bagunçar o País e desequilibrar o governo do Bolsonaro que era nossa esperança de tirar a bandalheira do turno.

  5. Bolsonaro não representa a ruptura, ele É a ruptura. Esta a razão da reação. Percebam que TODOS os que o querem derrubar são os que perderam muitos intere$$e$ com sua eleição. Eles estão em busca do que acham que lhes foi tirado e só vão descansar depois de conseguirem.

  6. O que me assusta em toda esta situacao e ver pessoas supostamente com educacao olharem um presidiario como um presidente que apaoia sem restricoes um regime como a Venezuela. Em minha vida profissional vi a America Latina se curvar ao Chavismo. Muitos anos atras visitando Carasas vi Chaves na televisao das 9 da manha ate 5 da tarde discursando pela TV. Minha impressao era que Chavez nao passava de um Musolini latino americano. Despois desta onda vi paises como Venezuela, Ecuador, e outros pagarem um alto preco por este tipo de populismo. Falando como muitos profissionais na Venezuela pude ver a destruicao de um pais nas maos de uma ideologia retrogada e controlada por mais de 25,000 cubanos em posicoes chaves de governo. Porem mesmo depois de tudo isto em 2021 no Brasil vejo politicos, alguns empresarios, e jovens ainda olharem esta mesma ideologia retrogada como solucao para o Brasil.

  7. Constantino, excelente artigo, como sempre!
    O boi é um animal manso – mas tenta encurralar um boi pra ver o que acontece.
    Infelizmente caminhamos nessa direção.

  8. Não se iludam: Luladrão, se eleito, será uma marionete nas mãos do STF. Se ele fizer xixi fora do penico, o STF vai mandar o Senado abrir um processo de impeachment contra ele (Eles conseguiram obrigar o Senado acibstaurara uma CPI, não esqueçam). E se isso não der certo, eles vão revalidar as condenações do Lula na Lava-Jato e colocá-lo na cadeia. Lula será apenas um instrumento para o STF oficializar a ditadura de toga. O Brasil não é mais uma democracia.

    1. Sinceramente? Não acredito em qualquer posicionamento beligerante do STF contra o carniça. A postura do Supremo é pela retomada do poder pelo mecanismo, do qual eles fazem parte. Simples assim!

  9. E pensar que somos tantos e o sistema tão pouco. Basta nos juntarmos e forçar uma mudança que mude essa roubalheira que além de sangrar nosso país, desanima muito nós o povo.

  10. O Estado brasileiro foi aparelhado pela esquerda por 20 anos escolhendo e colocando esquerdopatas nos cargos chaves do funcionamento do Estado. O establisment diariamente conspira contra o Governo Bolsonaro.

  11. O que Lula e o STF (quase todos indicados pelo PT) fazem não me surpreende (e acho que não surpreende a ninguém). O que assusta é o misto de concordância ou pelo menos complacência em relação aos desmandos judiciais brasileiros praticado pela “elite esclarecida” de nossa nação. Pessoas que deveriam expor a situação absurda que vivemos como o faz o brilhante Constantino preferem fazer de conta que é normal termos o comandante do maior esquema de corrupção que o país já viveu como candidato a presidente da república!

  12. Já chegou a hora de Bolsonaro mostrar a que veio. além do que já vem fazendo. Desaparelhar o poder executivo; Jogar duro com o STF (BATEU,LEVOU); apoiar bancada governista no combate aos congressistas socialistas; não abrir a guarda para a conversa fiada dos governadores progressistas, eles só querem dinheiro. Fortalecer os trabalhos de seus ministros. A educação precisa de ações radicais para evitar a perpetuação ideológica de Paulo Freire…

    1. Constantino vc é fonte de luz e clareza.Fatos reais e análise perfeita.Leio sempre seus artigos para aprender.Os fatos reais são muitas vezes cruéis, espero que o Brasil encontre o caminho para a prosperidade, acho que um pouco já conseguimos.

      1. Soube algo sobre o resultado primário. QUE FOI uma boa notícia. Previsão de 50 bi ao invés de 170 bi. É isso mesmo? Obrigado.

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