Júlio Cézar Busato | Foto: Abrapa
Júlio Cézar Busato | Foto: Abrapa

Júlio Cézar Busato: ‘Só vejo bons tempos para a agricultura’

Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão conta que, até o fim do ano, peças de roupas serão vendidas com um QR Code que mostrará, em detalhes, toda a cadeia produtiva

Descendente de italianos, o agrônomo Júlio Cézar Busato, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), foi o primeiro de sua família a desbravar o oeste da Bahia. Gaúcho nascido em Casca, ele buscava um lugar para expandir a produção agropecuária, até então restrita à cidade natal.

A decisão lhe ocorreu enquanto cursava a Universidade de Passo Fundo (RS), quando percebeu que só alcançaria o crescimento desejado em Mato Grosso ou na Bahia. Depois de conhecer os dois Estados, optou pelo cerrado baiano.

A mudança para Barreiras aconteceu em 1987. Era um ambiente bastante inóspito”, relembra Busato, que partiu sozinho, deixando a mulher e um filho pequeno, os quais buscaria meses depois. “Me enfiei no meio do mato. Um lugar sem luz, sem telefone, sem televisão, sem água, sem escola, sem hospital. Foi um tempo bastante difícil, mas muito bom.”

A primeira terra da família Busato no Estado foi uma área arrendada. A soja, principal cultura produzida hoje no Brasil, foi a cultura escolhida. Depois, quando conseguiram implementar técnicas de irrigação, plantaram feijão, milho pipoca e algodão — o carro chefe da propriedade. 

Atualmente, o Brasil é o principal produtor mundial de algodão em áreas secas (não irrigadas, que contam apenas com a água da chuva) e está entre os cinco maiores exportadores e consumidores. Na safra 2020/2021, foram plantados 1,3 mil hectares. Entre agosto de 2020 e julho de 2021 — ano comercial de venda do algodão —, o Brasil exportou 2,4 milhões de toneladas da pluma de algodão — como é chamado o algodão comprado em farmácias e utilizado na fabricação de roupas. O número é 23% maior que o registrado na temporada anterior e marca um novo recorde. Conforme o mais recente relatório da Companhia Nacional de Abastecimento, as perspectivas para a próxima safra (2021/2022) são positivas.

Entre janeiro e julho deste ano, o algodão gerou US$ 1,9 milhões e representou 1,2% das exportações totais. Considerando todos os produtos exportados, ficou em 15º lugar — e sobe para a 8ª posição entre as exportações agropecuárias. Hoje, a Abrapa reúne 10 associações estaduais, que representam 90% da produção brasileira. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, existem mais de 3.200 unidades produtoras de algodão no país.

“Todo dia a gente acorda de manhã tentando fazer melhor do que fez no dia anterior, sempre buscando produtividade, sempre buscando sustentabilidade”, contou Júlio. “Nós temos de entregar para os nossos filhos, nossos netos uma terra melhor do que aquela que nos foi entregue. Esse é o objetivo.”

Para isso, toda cadeia atende a rígidas regras de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. Um exemplo é o programa SBRHVI (Standard Brazil HVI), que tem como foco padronizar a classificação do algodão e informatizar o acesso aos dados. A iniciativa iguala os processos brasileiros aos realizados em outros países produtores. Já o Sistema Abrapa de Identificação (SAI), criado em 2004, monitora e rastreia o algodão por meio de etiquetas com sequência numérica de código de barras que são fixadas nos fardos. 

Para ganhar o título de Algodão Brasileiro Responsável (ABR), os associados da Abrapa precisam cumprir 178 itens de responsabilidade, com práticas sociais, ambientais e econômicas. “Estamos tirando algodão lá do fundo da loja e trazendo para a vitrine, dando transparência”, disse. “A rastreabilidade do Sistema Abrapa de Informação permite saber onde cada fardo foi produzido, por quem foi produzido e em que local foi beneficiado. O ABR cuida da parte de sustentabilidade.”

Colheita de algodão | Fotos: CNA/Flickr

Antes de assumir a presidência da Abrapa, Busato fez parte da Associação Baiana dos Produtores de Algodão, do Fundo para o Desenvolvimento do Agronegócio do Algodão e da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). “Com a criação da Aiba, começamos a nos organizar melhor e fizemos parcerias com a Embrapa, universidades públicas e privadas e fomos visitar outros países”, afirmou. “Essa busca pela tecnologia faz com que a Bahia tenha a maior produtividade de soja e milho do Brasil e a maior produtividade de algodão não irrigado do mundo.” 

Leia os melhores momentos da entrevista.

Como o senhor avalia o atual cenário para o produtor de algodão?

Primeiro, vou falar como eu vejo o mercado, não só para o algodão, como para o milho, a soja e as carnes. O Brasil tem uma grande oportunidade de pegar o mundo pela barriga. Temos muita terra e usamos hoje menos de 8% do nosso território para produzir. O potencial de crescimento é enorme, principalmente nas áreas de cerrado, respeitando todo o Código Florestal Brasileiro. Se perdermos essa oportunidade, alguém vai pegar, talvez a África. No caso do algodão, em função da produtividade, da qualidade e da escala, podemos nos tornar o maior exportador mundial. Hoje, somos o segundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Resumiria tudo numa única palavra: oportunidade.

E o senhor acredita que essa oportunidade está atrelada à tecnologia?

Com certeza. Para crescer, precisamos de rentabilidade das culturas e mercado. Rentabilidade vem de produtividade, do controle do custo de produção e do preço. No preço não conseguimos interferir, porque é a lei da oferta e da procura em nível mundial. Mas, na produtividade, sim, porque ela está atrelada à tecnologia. Todo dia a gente acorda tentando fazer o melhor que fez no dia anterior, sempre buscando produtividade, sustentabilidade. Temos de entregar para os nossos filhos e netos uma terra melhor do que aquela que nos foi entregue. Esse é o objetivo. Para aumentar a produtividade, melhoramos a fertilização e a matéria orgânica do solo. Precisamos usar mais defensivos agrícolas de origem biológica — ou seja, insetos, fungos e bactérias que controlam as doenças e pragas das culturas. O Brasil hoje é campeão. A variedade de sementes melhoradas também ajuda bastante. Tenho certeza de que a nossa tecnologia vai avançar cada vez mais e mais rápido.

À frente da Abrapa, como o senhor pretende trabalhar para que o país se torne o maior exportador mundial de algodão?

Estamos desenvolvendo dois grandes programas: o Sou de Algodão e o Cotton Brazil. Nosso objetivo é conquistar novos mercados e valorizar a pluma do algodão brasileiro. Para isso, temos um programa que checa a qualidade da fibra nos laboratórios brasileiros, e também focamos em sustentabilidade. A cultura do algodão tem de ser rentável para aqueles que trabalham em toda a cadeia produtiva. O produtor também precisa cumprir todas as normas do Código Florestal Brasileiro, ou seja, preservar 80% da sua propriedade na Amazônia, 35% no cerrado da Amazônia e 20% no cerrado, além de outras regras. Temos feito isso muito bem. Só vejo bons tempos para a agricultura brasileira, principalmente para o cotonicultor.

Como é feita a rastreabilidade do algodão?

Hoje, ainda é um leitor de código de barras, mas em pouco tempo será um QR Code. Assim, será possível ir até a loja, escanear o QR Code com o celular e encontrar toda a história daquela peça. Quem produziu, inclusive com uma foto da família produtora, onde, informações sobre a qualidade das fibras e em que local ele foi beneficiado. Da separação da fibra do caroço, passando pelo feitio do fio, pela costura, até chegar à prateleira da loja. Tudo isso certificado. Isso faz parte do programa Sou de Algodão, que a Abrapa está conduzindo. Vamos começar com duas marcas neste ano e passar para outras em 2022.

Os brasileiros têm noção da dimensão e da importância do agronegócio?

As pessoas precisam conhecer mais o que o Brasil tem de bom, e o algodão brasileiro eu diria que é uma das coisas que temos de melhor. Muitas vezes as informações chegam distorcidas. Na década de 1970, a maior população do Brasil estava no campo. Hoje, só 13% da população está no campo. Mesmo assim, essa gente consegue produzir alimento em quantidade, qualidade e a baixo custo tanto para a população brasileira quanto para a mundial. Os agricultores trazem riqueza para o país. 

Leia também “Agricultura lidera a preservação ambiental”

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5 comentários Ver comentários

  1. Fique em casa , a economia agente vê depois. Belo refrão
    para os sem noção de como se produz as coisas e da cadeia que isso gera. Mas a alienação dos que repetem estas queixas é produto da geração Paulo Freire , misturada com hipocrisia.

  2. Talvez o nosso amigo JR seja um daqueles que em vez de comprar ações da Petrobras e torcer para que ela seja privatizada o mais breve possível prefere que a empresa gere prejuízo para que a gasolina fique mais barata e assim repassar o custo do combustível daqueles que possuem automóvel para os mais pobres! Resta saber se o mal do qual ele padece resulta de sua ideologia ou de ignorância mesmo. Aposto que deve ser leitor de Carta Capital…

  3. Enquanto isso a manchete da população :‘SÓ VEJO OS PREÇOS DOS PRODUTOS DA AGRICULTURA SUBINDO NOS SUPERMERCADOS’. Bons tempos para quem , cara pálida? Para quem exporta? Para quem tem contratos em dólar? Para quem recebe ajudas do Governo? AH! sim, entendi. E nos supermercados com inflação dos alimentos a mais de 10% e alta nos produtos agrícolas a mais de 40% , alguns até com 60% de aumento|? Ah é o dólar alto. Ah é o problema do clima nas plantações! Ah é o preço das comódites cotados em moeda estrangeira! Sempre foi assim. É igual ao preço dos combustíveis: sempre houve essa alíquota do ICMS e os combustíveis estavam a R$4,00 reais em média. Agora a R$7,00 a culpa é do ICMS. Me poupem. Petrobras com 4 BILHÕES de lucro no semestre passado. Acionistas alegres. O General que ganha 250 mil alegre . E a população? Oeste está com a razão: Só Vejo Bons Tempos!

    1. Meu caro JR, mas isso não é culpa do agricultor. A culpa é daqueles que disseram fique em casa que a Economia a gente vê depois. É também daqueles que se submeteram a essa balela, não reagiram e ficaram em casa. A conta de Economia chegou. E só não chegou mais cara porque o agricultor NÃO FICOU EM CASA. Não foi por falta de aviso do presidente, que foi acusado de negacionista da pandemia pelos próprios negacionistas da inflação que viria e chegou, inclusive para o agricultor. É só ver a alta dos custos de produção.

    2. Prezado JR,
      Existe uma coisa chamada lei de mercado; ele se auto regula. E como vi nos comentários anteriores, um dos motivos para todo esse aumento de preço foram realmente alguns dos fatores citados por você.
      Uma opção que talvez te deixaria contente, seria o controle de preços pelo governo. O que já provou ser um desastre em todas as vezes que foi implementado.
      Uma atitude alinhada com o seu pensamento, é o que está contecendo na nossa querida e vizinha Argentina.
      Como o preço da carne bovina estava subindo ( porque a população está pobre pelas atitudes tomadas pelo atual governo – leia-se intervenção no mercado ), eles resolveram que os pecuaristas que quiserem exportar seu produto, serão obrigados a vender metade da carne para o mercado interno e a outra metade poderão exportar.
      O que você acha que já está acontecendo como o setor da pecuária por lá?
      Total desestimulo dos produtores do agronegócio que estão mudando seu local de produção para onde : BINGO – para o Brasil; onde existe liberdade de mercado fazendo dessa maneira com que o preço da carne caia por aqui. Para que pessoas como você tenham conforto para criticar um país de livre iniciativa de mercado.
      Definitivamente….o Brasil não é para amadores.

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