O boicote ao pensamento

A cultura do cancelamento nas universidades criou um ambiente em que é perigoso discordar de ideias

Para quem não está habituado com as redes sociais, a cultura do cancelamento consiste na prática deliberada de linchamento virtual de pessoas em razão de suas opiniões. Nesse caso, um grupo de internautas se reúne com o propósito exclusivo de assassinar a reputação daqueles que julgam ter se expressado de maneira inadequada.

Embora a cultura do cancelamento seja uma prática relativamente nova na internet, a violência que a impulsiona existe há anos em ambientes físicos, com consequências no mundo real. Nas universidades, por exemplo, chama a atenção como o meio é dominado por uma intolerância da esquerda contra opiniões divergentes. Quem já sofreu bullying dos autodenominados “progressistas” ou ficou acuado diante de uma maioria que prega a “diversidade”, mas não tolera o “diferente”, sabe que, muitas vezes, é melhor evitar a discussão: quem ousar discordar pode ser eliminado.

Sem opiniões diferentes, as discussões são rasas

Uma pesquisa da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, mostra que 80% dos estudantes de direita se autocensuram, com medo das consequências de suas opiniões políticas. Já entre os alunos de esquerda, 24% adotam esse comportamento. Segundo o mesmo levantamento, 18% dos estudantes que se consideram “muito de esquerda” defendem o cancelamento de palestras de “republicanos conservadores”, enquanto menos da metade — 8% dos “muito conservadores” — faria o mesmo contra um palestrante “democrata de esquerda”.

É estranho imaginar que um lugar que deveria privilegiar a pluralidade de ideias se torne um reduto monotemático de pensamentos e um santuário de verdades inquestionáveis. O resultado da falta de discordância é a pobreza do debate. É simples: sem opiniões diferentes, as discussões são rasas. Estudantes e professores ficam encastelados em bolhas ideológicas e perdem a oportunidade de conhecer outras ideias e refinar o argumento.

A Revista Oeste ouviu relatos de professores que sofreram com a sanha persecutória de grupos que não admitem divergências de opinião. São histórias que mostram como a cultura do cancelamento criou um ambiente em que é perigoso discordar de ideias. É a antítese do que se espera da academia.

Impeachment, o pecado capital

Para o professor associado da Universidade de São Paulo (USP) Mauricio Conti, de 55 anos, a ex-presidente Dilma Rousseff cometeu crime de responsabilidade e, portanto, deveria ser afastada do cargo. Foi o que bastou para o professor especializado em Direito Financeiro sofrer retaliações no ambiente universitário. “Meu posicionamento foi visto como o de alguém contrário ao governo. Fui tachado de antiesquerdista”, disse Conti, em entrevista à Revista Oeste.

Conti estava prestes a disputar o concurso para professor titular da USP. Mas, devido ao seu posicionamento, sofreu boicote. “O problema ficou evidente, porque a banca que me julgaria seria formada por pessoas contrárias ao impeachment de Dilma Rousseff”, disse. “Eu não poderia ser arguido por gente que me tachava de golpista.” Para minimizar o viés tendencioso, Conti conseguiu afastar alguns membros da banca. Mesmo assim, apesar de ter apresentado cinco diplomas aos examinadores, recebeu a mesma nota que outro candidato, que tinha apenas três. Um dos avaliadores chegou a dar nota menor a Conti, diante de um critério objetivo: “É surreal testemunhar que um colegiado com professores da principal faculdade de Direito do país seja capaz de convalidar uma decisão que conclui ser três maior que cinco”.

Mauricio Conti é professor associado da Universidade de São Paulo | Foto: Divulgação/Instituto Brasileiro de Estudos de Direito Administrativo Financeiro e Tributário

As portas começaram a se fechar para ele. “A USP retirou algumas das aulas que eu dava e fui impedido de lecionar a principal disciplina de Direito Financeiro para os alunos da graduação. Recorri contra isso, mas perdi”, lamentou. O fato de ser, além de professor, juiz de Direito contribuiu para expor o caso e se posicionar com mais segurança diante do problema. “Sabia que seria retaliado, mas a dificuldade de fazê-lo seria grande, porque eu pertencia a um poder independente, tinha cargo vitalício”, afirmou. “Por isso, pensei: se eu não tiver coragem, tendo em vista todos esses fatores a meu favor, quem vai ter?”

Conti ressalta que o cancelamento nas universidades ocorre também pela postura passiva das vítimas. “Muitos profissionais são prejudicados em razão do comportamento covarde de cidadãos que, embora saibam que estamos certos, preferem não se envolver.”

A reportagem entrou em contato com a Universidade de São Paulo, mas até este momento não obteve resposta.

Os inquisidores da Academia

“Ingressei na universidade em 1981”, contou o professor doutor Ricardo da Costa, de 58 anos, titular do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Costa é ex-assessor especial do ex-ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez e trabalhou no MEC durante a gestão do ex-ministro Abraham Weintraub. “O ambiente acadêmico acostumou-se com essa dominação ideológica, e isso se refletia na escolha bibliográfica, nos livros, nos trabalhos passados aos alunos e na interpretação dos fatos”, afirmou Costa. “Na época do regime militar, tudo tinha um viés stalinista — ou seja, passava pelo filtro do Partidão. Vivíamos no contexto da Guerra Fria.” De acordo com Costa, o ambiente universitário brasileiro é hostil à liberdade de pensamento. “Deixam de te convidar para publicar artigos, e sua progressão de cargo dentro da carreira é travada. Você não participa mais de revistas e bancas. Enfim, as portas são fechadas.”

Ricardo da Costa é professor titular do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM) da Universidade Federal do Espírito Santo | Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Costa foi vítima de cancelamento em 2007. Na ocasião, sem apresentar razões técnicas, um de seus alunos teve uma bolsa de estudos cortada. “Isso foi a gota d’água”, revelou. “Protestei contra a decisão”, disse o professor. “Fui processado administrativamente por indisciplina — o que não era verdade. Ganhei em todas as instâncias jurídicas universitárias.” Costa reconquistou a bolsa de estudos para seu aluno, mas à custa de um acidente vascular cerebral. “Demorei praticamente dois anos para movimentar novamente com desenvoltura todo o lado esquerdo do corpo”, lembrou. Após saberem do grave quadro de saúde do professor universitário, alguns alunos dos cursos de humanidades celebraram. “Foram beber cerveja nos bares. Eles próprios tiraram as fotos da comemoração”, explicou Costa.

Doze anos depois, em 2019, um grupo de professores não alinhados ao pensamento de esquerda criou uma chapa de direita para concorrer à reitoria da Ufes. “O ambiente não é democrático. Certa vez, nas paredes de um dos banheiros da universidade, picharam ‘Queimem Ricardo da Costa’”, contou. Devido à gravidade da situação, o caso ganhou espaço no jornal mais importante do Espírito Santo, A Gazeta. “Quando surgiram comentários sobre a possível formação de uma chapa de direita, em grupos de WhatsApp houve quem dissesse que deveriam me queimar literalmente.”

“Queimem Ricardo da Costa”

 

“Queimem Ricardo da Costa”
Caso de assédio a Ricardo da Costa ganhou espaço no jornal A Gazeta | Foto: Arquivo pessoal

Para Costa, a sociedade brasileira precisa tomar consciência do “ambiente de constrangimento” nas universidades federais. “Nesse sentido, a internet é nossa carta de alforria, para que não fiquemos à mercê de grupos de pressão”, diz o professor. “Não seria exagero dizer que, se não fosse a internet, estaria, metaforicamente falando, enterrado vivo em Vitória [ES], à mercê de senhores feudais locais.”

Questionada pela reportagem, a Ufes respondeu.

“A Administração Central da Ufes afirma que tem como princípio o respeito à diversidade de pensamento e de expressão, nos três pilares que sustentam a atividade acadêmica: ensino, pesquisa e extensão. Da mesma forma, a Universidade adota critérios públicos e impessoais em seus processos seletivos internos e externos, observando os princípios que regem a Administração Pública.

Atenciosamente,

Thereza Marinho

Diretora de Jornalismo Superintendência de Comunicação — UFES”

O processo sigiloso

Os irmãos Abraham Weintraub e Arthur Weintraub eram professores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) quando conheceram, em abril de 2017, o então pré-candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro. “O deputado federal Onyx Lorenzoni [DEM-RS] foi quem nos apresentou”, contou Abraham. Naquele ano, Lorenzoni anunciou que os irmãos ajudariam a formular o projeto de reforma da Previdência.

Desde então, Abraham e Arthur passaram a elaborar o texto nas instalações do Centro de Estudos em Seguridade (CES), uma associação sem fins lucrativos formada por professores da Unifesp. Alegando que os docentes estavam usando o nome da instituição de maneira indevida, a reitoria da universidade abriu um processo administrativo contra Arthur, Abraham e Daniela Baumohl Weintraub, também professora da Unifesp. “Para me atingir, atacaram minha esposa”, criticou o ex-ministro da Educação.

Abraham Weintraub é ex-ministro da Educação | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Depois da abertura do processo, a defesa da família Weintraub pediu acesso aos autos, mas a Unifesp negou a solicitação. “Só conseguimos quatro dias antes do segundo turno das eleições de 2018”, lembrou. Os três foram julgados e condenados. “Estávamos dando apoio científico ao governo, deveria ser motivo de orgulho para a universidade”, lamentou Arthur, ao recordar a postura da Unifesp. “Naquela época, alguns alunos enviaram recados dizendo que jogariam tijolos em nossas cabeças quando estivéssemos escrevendo na lousa. Riscaram meu carro, nos ameaçaram.” Os irmãos contam que pediram proteção à Unifesp, sem sucesso. A esposa de Abraham precisou de escolta policial armada para garantir que não seria agredida.

Arthur Weintraub é ex-assessor especial da Presidência da República | Foto: Alex Ferreira/Câmara dos Deputados

De acordo com Arthur, a perseguição ocorreu por razões estritamente ideológicas. “A reitora é ligada ao Partido Socialismo e Liberdade [Psol].” Em seu site oficial, a Unifesp garante que “nunca abriu processo administrativo contra qualquer membro da comunidade acadêmica em função de posições político-partidárias”.

Indagados sobre uma possível volta à Unifesp, Abraham e Arthur rechaçam a hipótese. “Se, naquela época, não nos apoiaram, quem dirá agora”, afirmaram. “Em determinado momento, você é ‘ostracizado’ completamente. Fizemos a reforma da Previdência, mas não há menção alguma sobre isso. Não fomos reconhecidos pela universidade.”

Questionada pela reportagem, a Unifesp respondeu.

O cerco contra o tratamento precoce

Durante a pandemia, premissas que deveriam nortear a ciência foram escanteadas e o uso de certos medicamentos foi politizado no debate público. O microbiologista e professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo Paolo Zanotto foi um dos vários médicos perseguidos por se posicionar a favor do tratamento precoce. A USP chegou a abrir uma sindicância contra o cientista. “Eles me acusaram de curandeiro e de não ter rigor científico”, disse. “Nas minhas respostas, enviei várias questões técnicas mostrando que estava defendendo o tratamento precoce com base em ciência. Eles nunca me ouviram.”

Paolo Zanotto é microbiologista e professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo | Foto:Divulgação/IEA-USP

Zanotto passou a ser associado a ideias anticientíficas, como o movimento antivacina, e acabou sendo expulso do Instituto Pasteur, no qual atuou como membro da Rede de Diversidade Genética Viral entre 2000 e 2006, e da Rede Zika, em 2016. “Eles alegaram que a decisão de me expulsar era unânime, mas três membros do conselho, além de mim, não votaram. Ou seja, quase a metade do grupo”, afirmou. “Teve abuso de poder, não houve contraditório. Não ocorreu o processo administrativo adequado.”

Zanotto afirma que, depois de ser expulso do Instituto Pasteur, trabalhos científicos que mostravam bons resultados com o uso da ivermectina, hidroxicloroquina e azitromicina — medicamentos defendidos pelo professor no tratamento contra a covid-19 — foram publicados pelo Instituto Pasteur de Paris e pelo Instituto Pasteur de Dakar, capital do Senegal. “E agora? A USP e o Instituto Pasteur de Paris vão expulsar os pesquisadores por fazerem o que sugeri, ou pedir desculpas?”

Recentemente, a USP negou um pedido do cientista para participar de um trabalho de pesquisa no British Columbia Institute of Technology, no Canadá. No entanto, segundo Zanotto, as tratativas para a pesquisa já estavam sendo feitas meses antes e já havia permissão para a realização do trabalho.

Leia também “Estão queimando livros no Canadá”

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11 comentários Ver comentários

  1. Nós conservadores podemos não concordar com várias ideias, mas sempre defenderemos o direito de expressá las. Mas a esquerda é suja, covarde e rasteira, sempre usando a máscara de “defensores dos fracos e oprimidos” quando na verdade, só querem impor a ditadura do proletariado através da força, custe o quê custar. Estamos em guerra novamente e só sei que não dá pra nos defendernos de socos com flores.

  2. Essa resposta da Jornalista da UFES, é qualquer coisa de CANALHA! Perderam a noção do equilibrado, coerente e justo. Como podem ser “caras de pau”. Mas, só mostra o que realmente temos dentro de nossas Universidades Federais!

  3. A ditadura do pensamento único ( esquerdista) é predominante na área acadêmica há anos infelizmente. Decadência total do ensino superior.

  4. Nossa! Essas denúncias de perseguição a profissionais competentes, por questões ideológicas, dentro das universidades e os textos de Guzzo e Constantino sobre Paulo Freire, deveriam ser espalhados em todas as redes. Muito, muito bons!!!

  5. Lembro-me que ao fazer a minha monografia, num viés bem crítico, sobre a educação única em Antônio Gramsci, não tive qualquer apoio da faculdade de Ciências Sociais, nitidamente de viés comunista. O meu orientador indicado foi um professor da área da pedagogia que apenas leu o projeto, a introdução e a conclusão. Aprovou-me apenas a toque de caixa, talvez por receio de uma contestação!

  6. Não podemos nos acovardar, esse é o método dos intolerantes. Nós somos a maioria, não nos esqueçamos disso, não vamos ser ovelhas, temos de usar as mesmas armas se necessário. Não adianta tratar com educação e respeito quem atira pedras e não quer diálogo.

  7. Essa é só a ponta do iceberg.
    O autoritarismo do pensamento único que está no DNA esquerdista tomou conta de tudo, do jardim de infância ao STF.
    Vivemos sob um regime do medo e perseguição desavergonhada, inclusive com apoio formal das instituições máximas do país, nos órgãos do legislativo, executivo e judiciário.

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