Nazistas queimam livros em Berlim, em 1933 | Foto: World Wide Photo
Nazistas queimam livros em Berlim, em 1933 | Foto: World Wide Photo

Estão queimando livros no Canadá

Depois dos ataques a monumentos históricos, militantes destroem 5 mil obras literárias acusadas de racismo estrutural

Primeiro, foram os monumentos históricos. Em junho de 2020, por exemplo, um dos maiores estadistas de todos os tempos, Winston Churchill, teve uma estátua em sua homenagem pichada com a frase “Was a racist” (Era um racista) durante um protesto em Londres. Um ano depois, 15 vândalos atearam fogo à estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo, enquanto gritavam “fascista”. Neste mês, o governo do Estado da Virgínia, nos EUA, mandou retirar do centro de Richmond a estátua do general Robert E. Lee, comandante do Exército da Virgínia do Norte durante a Guerra Civil Americana. O militar também foi “cancelado” sob a acusação de racismo.

Esse tipo de revisionismo histórico ganhou uma nova velha tática: a destruição de livros. Prática que já foi símbolo do nazismo.

No Canadá, aproximadamente 5 mil exemplares foram queimados por um conselho que reuniu representantes de 30 escolas de Ontário, num “ritual de purificação” contra obras consideradas racistas. Ocorrido em 2019, o caso veio à tona nesta semana depois de uma reportagem veiculada pela Radio-Canada. Entre as obras, enciclopédias e histórias em quadrinhos.

De acordo com os “professores” do conselho canadense, o objetivo das queimas foi promover uma “reconciliação com os povos indígenas” por se livrar de material que continha “representações inapropriadas”. Um vídeo enviado aos alunos dos ensinos fundamental e médio transmitiu a seguinte mensagem: “Nós enterramos as cinzas do racismo, da discriminação e dos estereótipos na esperança de que cresceremos em um país inclusivo, em que todos possamos viver em prosperidade e segurança”. Depois de queimar os livros, as cinzas foram usadas como “fertilizante” para plantar uma árvore.

O grupo de educadores pertence a colégios católicos, com aulas ministradas em francês. Depois da repercussão negativa, os organizadores emitiram uma nota à Radio-Canada informando que se arrependeram do evento. Também se comprometerem a “revisar o descarte de livros obsoletos”.

Veja os livros que viraram pó.

As Aventuras de Tintim

Foto: Reprodução

De autoria do escritor belga Hergé, Tintim na América foi publicado entre setembro de 1931 e outubro de 1932 para uma série do jornal francês Le Petit Vingtième. A história trata do jovem repórter Tintim e seu cachorro Milu, que são enviados para os EUA, onde o jornalista passa a cobrir o crime organizado em Chicago. Perseguindo um bandido por todo o país, ele encontra uma tribo de nativos americanos, os blackfoot, antes de derrotar o sindicato do crime de Chicago. As referências aos indígenas “pele vermelha” e “pele escura” foram consideradas racistas pelo conselho canadense.

Asterix

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Os quadrinhos foram publicados em 1959 pelos escritores Albert Uderzo e René Goscinny. A história se baseia no povo gaulês. Asterix reside com seus amigos em uma pequena aldeia sitiada por romanos, no norte da antiga Gália. Para resistir ao domínio estrangeiro, os aldeões contam com a ajuda de uma poção mágica que lhes dá uma força sobre-humana. A obra recebeu a pecha de racista por supostamente retratar ameríndios de forma preconceituosa.

Pocahontas

Foto: Reprodução

Lançados pela Marvel Comics na década de 1990, a história de Pocahontas descreve a vida de Matoaka. Filha do chefe Powhatan, de uma tribo de nativos-americanos, a jovem salva o colono inglês John Smith, que havia sido sequestrado. O inglês fica encantado com ela e ambos têm um caso de amor. O conselho canadense considerou a obra sexista e racista: “Pocahontas é tão sexual e sensual que representa um perigo para as mulheres nativas”.

Lucky Luke

Foto: Reprodução

Concebida em 1946 pelo escritor franco-belga Morris, a história em quadrinhos se passa no Velho Oeste americano. Em suas aventuras, Luke depara com várias tribos indígenas. A obra foi acusada de “desequilíbrio de poder entre brancos e aborígines, esses últimos vistos como bandidos”.

Laflèche

Foto: Reprodução

Publicados em 2009 pelo escritor Marcel Levasseur, os quadrinhos Laflèche contam a vida do personagem que leva o nome da obra. O enredo se passa na Nova França, em meados do século 18, quando ingleses e franceses lutam pela América do Norte. Laflèche é forçado a tomar parte nesse conflito quando a filha de um chefe algonquin (povo nativo do noroeste da América do Norte) é sequestrada por uma tribo rival aliada aos ingleses. Antes de ser queimado no Canadá, o livro recebeu a tarja de “linguagem inaceitável” e de “representação incorreta dos nativos”.

Revisionismo histórico

Anamaria Camargo, presidente do Instituto Livre pra Escolher, não vê racismo nos livros, mas exagero por parte da militância. “O que estamos testemunhando é uma minoria que se sente oprimida impondo uma agenda que propõe apagar o passado”, constatou. “Infelizmente, isso vem ocorrendo em várias camadas da sociedade: escolas, universidades, empresas e esfera pública”, disse, ao mencionar que os grupos que promovem o revisionismo são motivados pela revolta.

“Trata-se de um ressentimento despejado em cima de como o Ocidente se formou”, explicou. “No caso desses livros, muita gente aprendeu a ler e se entreteve com eles. As obras exerceram uma função. Estamos em uma sociedade doente, que acha que destruir evidências vai apagar o passado. Não irá. O que teremos é mais convulsão social”, salientou, lembrando de um caso no México, quando feministas atearam fogo a cópias do livro Psico-Terapia Pastoral na presença de famílias, em 2019. A obra oferece apoio profissional e espiritual para aqueles que desejam deixar relacionamentos homoafetivos.

Exemplar de A Psico-Terapia Pastoral, queimado por feministas, em 2019 | Foto: Reprodução/Internet

Os casos descritos anteriormente têm semelhanças com o dia 10 de maio de 1933. A data marcou o auge da ruptura com o passado na Alemanha nazista. Em todo o país, montanhas de livros se acumulavam nas praças aguardando para se transformarem em um amontoado de cinzas. Tudo o que fosse crítico ou se desviasse dos padrões impostos pela ditadura foi consumido pelas chamas. O poeta nazista Hanns Johst foi um dos que justificaram a queima, logo depois da ascensão do nazismo ao poder, com a “necessidade de purificação radical da literatura alemã de elementos estranhos que possam alienar a nossa cultura”.

Agente nazista observa a destruição de obras literárias em Berlim | Foto: Reprodução Museu do Memorial do Holocausto dos EUA

Também foi com esse pensamento que o Partido Comunista da China mandou incinerar livros e materiais religiosos que eram “incorretos”, segundo a ideologia de esquerda. Em 2019, funcionários de uma biblioteca do condado de Zhenyuan receberam ordens do governo para destruir 65 “publicações ilegais e religiosas, papéis e livros desviantes, livros ilustrados e fotografias”. O objetivo: exercer plenamente a difusão da ideologia comunista.

No Brasil, até mesmo Monteiro Lobato entrou na mira dos inquisidores. Em 2010, na gestão Dilma Rousseff, o Conselho Nacional de Educação recomendou que o livro Caçadas de Pedrinho não fosse distribuído pelo governo nas escolas públicas por apologia ao “racismo estrutural”. A discriminação estaria presente, entre outras passagens, no tratamento da personagem Tia Nastácia. Uma das frases do livro informa: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão”.

Embora a obra não tenha sido queimada, entrou para a lista de “revisão histórica” do governo federal. Cleo Campos Kornbluh, bisneta de Monteiro Lobato, defendeu que o livro, incluindo o Sítio do Pica-Pau Amarelo e demais títulos do patriarca da família sejam revistos à luz da atualidade. “Hoje entendo que o fim da escravidão e a parca incorporação do negro à sociedade resultaram em um cenário propício ao racismo estrutural”, argumentou, em artigo publicado na revista Veja.

Segundo o sociólogo Rogério Baptistini, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o vandalismo contra monumentos, a queima de livros e ataques similares representam o “obscurantismo” que paira sobre a sociedade moderna. “Estão se voltando contra inimigos imaginários”, resumiu. Para o especialista, os que tentam reescrever a história estão de olho nas gerações futuras, para que elas não tenham acesso ao que de fato ocorreu no passado. “Isso é grave”, disse. O acadêmico defende que o enfrentamento desses atos tem de ocorrer no campo intelectual e na sociedade por gente capacitada e entendida dos fatos históricos. “Ou nós atuamos fortemente numa educação para a cidadania, ou estaremos condenados.”

Heinrich Heine, poeta alemão perseguido por Hitler e que teve suas obras destruídas, disse: “Onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas.”

Leia também “A mais recente tentativa de cancelar o passado”

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13 comentários Ver comentários

  1. O que eu vejo nesses atos, e demais realizações de cunho socialista, é que os preguiçosos materiais e de espírito, que não saem da merda, não admitem que ninguém prospere e, portanto, tentam puxar todos para que morram afogados na merda.

  2. Conforme já sabemos, a história se repete, em nações e povos que não a estudam. Quem estudou a história já sabe de uma verdade: Não há como contemporizar ou dialogar com elementos extremistas. A tentativa de apazigua-los apenas adia um conflito mortal inevitável, em que dominados e dominadores vão decidir o futuro das gerações seguintes. Estamos em mais uma etapa de transição, das muitas porque a humanidade já atravessou. O segredo é não permitir que os extremistas vençam, e para isso é necessário que se use de todas as ferramentas disponíveis. E o problema é mundial, não há para onde fugir.

  3. O caminho entre a barbarie e a civilização foi longo e dolorido e está registrado na História da Humanidade. Apagar as pegadas do passado é condenar gerações futuras à catástrofe de cometerem os mesmos erros das gerações passadas. Considero isso um apagão mental.

  4. Excelente alerta sobre práticas totalitárias. Apenas relembrando, Heine morreu em 1856. Seus livros foram efetivamente queimados pelos nazistas, provavelmente por sua ligação intelectual com Marx e Engels, com que conviveu. A frase de Heine, embora atemporal e aplicável, se refere a algum outro episódio anterior ao nazismo. A intolerância tem raízes muito profundas e está sempre pronta a se manifestar.

  5. Lendo reportagens como esta, entendo o motivo de alguns estarem investindo em viagens espaciais. Talvez já vislumbrem no futuro, ser o local mais seguro longe de um planeta doente e servido pelo ódio de forma abundante, sem respeito as opiniões e sentimentos contrários a esta minoria violenta. Depois de 65 aniversários, jamais imaginei momentos como os atuais.

      1. A disseminação massiva da informação a pessoas ignorantes implica em interpretações errôneas em todos os aspectos e áreas do saber. Mas se a ignorância já está instalada nas universidades, onde estarão os intelectuais?

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