Foto: Montagem com imagem Shutterstock/Revista Oeste
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A pandemia da inflação

As medidas restritivas impostas pelos governos desestruturaram toda a cadeia produtiva, criando gargalos de produção, potencializados pelo excesso de encomendas com a reabertura econômica

Assim como a pandemia da covid-19 teve um alcance mundial, a inflação atual também apresenta essa característica global. Aliás, no mundo da economia, inflação elevada também é considerada uma doença, com causas e consequências bem conhecidas.

Entende-se por inflação a alta generalizada e persistente dos preços, ocasionada pela expansão monetária (emissão de dinheiro) acima do que a capacidade produtiva da economia consegue absorver. O excesso de dinheiro provoca o aumento da demanda (consumo) acima da oferta (produção), levando ao aumento de preços.

Atualmente, o fenômeno inflacionário global está relacionado com os problemas de oferta e de demanda, com origens na pandemia de covid-19.

Com o alastramento do coronavírus, diversos países decidiram restringir o funcionamento das empresas e a circulação de pessoas, levando à falência de muitos negócios. Com o fechamento das firmas, milhares de pessoas ficaram desempregadas e sem renda para sustentar suas famílias.

Diante dessa situação, governos em todo o mundo pagaram um auxílio emergencial para socorrer os cidadãos da pobreza, e os bancos centrais colocaram bastante dinheiro em circulação, a juros bem baixos ou até mesmo zerados, com o objetivo de fornecer crédito barato para que as empresas conseguissem se manter abertas.

Na prática, houve grande emissão de papel-moeda numa economia com restrição de produção. A consequência inflacionária era previsível. Na medida em que começou o processo de reabertura de muitas empresas, a conta da pandemia chegou e a inflação surgiu por vários motivos.

Primeiro, porque a quantidade de grana colocada nos mercados não desapareceu. Pelo contrário, esse dinheiro foi potencializado por uma demanda de consumo reprimida. Naturalmente, houve uma pressão de consumo por parte das famílias e de compras de insumos e maquinários por parte das empresas.

No entanto, essa demanda reprimida encontrou uma capacidade menor de produção, já que, durante a pandemia, muitas companhias fecharam as suas portas, e as que sobreviveram diminuíram a capacidade produtiva, mantendo estoques elevados. Afinal, para que realizar investimentos se estava tudo parado?

Com a reabertura, esses estoques foram rapidamente consumidos e começaram a faltar diversos componentes para a produção. Acontece que muitas empresas dependem de insumos fabricados por outras para produzirem. Por exemplo, uma firma de automóvel usa peças feitas por um fornecedor, que, por sua vez, necessita adquirir aço de uma siderúrgica, a qual precisa comprar minério de ferro de uma mineradora.

Se, ao longo da cadeia produtiva, faltarem componentes ou ocorrerem atrasos na entrega das matérias-primas, diversas indústrias ficam sem os insumos para a produção, o que levará a uma diminuição da oferta de produtos e, consequentemente, ao aumento de preços.

Foi exatamente isso o que aconteceu. A pandemia desestruturou toda a cadeia produtiva, criando gargalos de produção, potencializados pelo excesso de encomendas com a reabertura econômica.

O aumento de preços foi disseminado por várias commodities — insumos básicos para a produção de qualquer mercadoria. As cotações de petróleo, commodities agrícolas e metálicas dispararam nos mercados internacionais.

No Brasil, tivemos um ingrediente adicional: a elevação do preço da energia elétrica por conta da crise hídrica (falta de chuvas).

Com a alta das commodities e da energia, as empresas tiveram um aumento ainda maior dos custos. Nesse caso, não há saída. Ela é obrigada a repassar parte disso para o preço final do produto, com a finalidade de recompor a sua margem de lucro e garantir a sobrevivência do negócio.

É um erro acreditar que é possível controlar preços “na marra”, com o “porrete estatal”. O valor elevado sinaliza a escassez e permite que o mercado se autorregule. De um lado, o consumidor terá um gasto e um uso mais consciente. Do outro, o aumento incentivará as empresas a produzirem mais em busca de maiores receitas, o que ajudará a oferta a crescer e reduzir os preços futuramente. Neste cenário de elevação de custos e aumento de demanda, o empresário não toma a decisão de aumentar o preço de suas mercadorias por ter “mau coração” ou ser “ganancioso”. Se ele não fizer isso, a empresa deixará de existir, junto com muitos empregos que serão destruídos.

Se o governo destruir esse mecanismo de equilíbrio, impondo o controle de preços — um tabelamento, como já ocorreu no Brasil —, isso desestimulará a produção e incentivará um consumo desenfreado, gerando escassez de produtos.

É crucial entender que o controle de preços pode causar ainda mais inflação ou escassez

Invariavelmente, o controle de preços leva à destruição de empresas e setores. Veja o exemplo da Petrobras durante o governo Dilma. A política de segurar os valores da gasolina trouxe consequências danosas para a estatal e para a sociedade.

Uma delas foi a quebra de muitas empresas do setor sucroalcooleiro, com a destruição de milhares de empregos. Era impossível para as produtoras de álcool competirem com a gasolina a preços artificialmente baixos.

Outra consequência negativa ocorreu para a própria estatal. A Petrobras é uma empresa global e visa ao lucro para os acionistas (qualquer pessoa que tenha ação da companhia). Com uma política que atendia a interesses populistas eleitoreiros, e não aos princípios básicos de economia e finanças, suas ações chegaram a ser negociadas abaixo de R$ 5.

Com a destruição do valor da Petrobras, o aumento de custos e a perda de receita, o ajuste de preços da gasolina se tornava inevitável. O aumento ocorreu em meados de 2015, e a sociedade acabou pagando do mesmo jeito — numa intensidade maior — os períodos de combustível artificialmente barato.

Nesse sentido, é crucial entender que o controle de preços pode causar ainda mais inflação ou escassez. O Brasil da década de 1980, assim como a Argentina e a Venezuela atualmente, é exemplo de como a intervenção estatal leva à ineficiência de recursos na sociedade, gerando falta de produtos e inflação galopante.

Para combater a inflação atualmente, que teve origem nas medidas de restrição da atividade econômica (menor oferta) e na injeção brutal de dinheiro no mercado (maior demanda), o tratamento já é conhecido: aumentar os juros para enxugar o excesso de dinheiro e não interferir na política de preços de nenhum setor. A livre negociação entre compradores e fornecedores, com o mecanismo de preços livres, ajudará a normalizar mais rapidamente os gargalos da cadeia produtiva.

Infelizmente, a fatura do “economia a gente vê depois” chegou para 2021 — e inflacionada!


Alan Ghani é professor do Insper e economista-chefe da Sarainvest

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