Ilustração: Montagem/Shutterstock
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Eles não querem que a pandemia acabe

Medo, politicagem, interesses econômicos, admissão de equívocos. Por que uma parte da sociedade não quer que a crise acabe?

Nesta semana, o Brasil atingiu a marca de 100 milhões de pessoas com o ciclo de vacinação completo. No Estado de São Paulo, 80% da população já recebeu ao menos uma dose. Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, 70%. Algumas cidades decretaram o fim da exigência do uso de máscaras.

Nas grandes capitais, já há preparativos para as festas de Réveillon e Carnaval. Aos poucos, o torcedor está voltando aos estádios de futebol. Com a taxa de transmissão do coronavírus no menor patamar desde abril de 2020, as tímidas manchetes escondidas na imprensa tradicional mostram que a pandemia pode estar perto do fim. Mas não para todos.

Provavelmente, o leitor deve ter deparado recentemente com dezenas de situações bizarras. O praticante de atividade física mascarado ao ar livre, em alguns casos até dentro de piscinas. Pais obrigando crianças a usar as proteções faciais na marra. O motorista solitário paramentado dentro do carro. O vizinho que se recusa a usar o elevador em companhia. E, claro, a clássica foto que inunda as redes sociais há dois anos: máscara no rosto (às vezes duas) e a camiseta com os dizeres “Vacina sim, ele não”, acompanhada de uma legenda sobre a importância de aceitar o “novo normal”, doa a quem doer. Mas o leitor normal pode se perguntar: quem definiu esse consenso?

De todos os itens da cartilha de bom comportamento dos pandelovers, o mais controverso atualmente é o uso infinito de máscaras. O governador João Doria (PSDB), amparado por seu ex-centro de contingência, rebatizado de “comitê científico”, disse algumas vezes que pretende manter o uso de máscaras obrigatório até 31 de dezembro. Mas já foi demonstrado diversas vezes durante a pandemia que a “ciência” que orienta as políticas de gabinete pode mudar de acordo com os interesses dos governantes.

A máscara como gesto político

Passados dois anos, a medida nem sequer é uma unanimidade entre médicos. “Em lugar fechado, transporte público, elevador eu ainda seguraria”, diz o clínico-geral e doutor em imunologia Roberto Zeballos. “Em locais abertos, não vejo a menor necessidade de máscara.” Para ele, o Brasil caminha para alcançar a imunidade coletiva ou de rebanho, porque o “país já enfrentou dois grandes surtos e todos que passaram por essa epidemia e a venceram já estão imunes.”

“As máscaras devem se limitar a ambientes de alto risco de contágio”, afirma o neurocirurgião Paulo Porto de Melo. “Não tem cabimento manter o uso da forma como está, e, aliás, não foi o prometido. O anunciado era que, quando todos estivessem vacinados, seriam eliminadas as máscaras. Ou seja, foi estelionato.”

Cobrir o rosto tornou-se um gesto político em meio à crise sanitária. No Brasil, uma resposta possível é que, ao ostentá-la publicamente, se trata de uma resposta à conduta do presidente Jair Bolsonaro. Não à toa, ele é recordista em multas aplicadas por prefeitos e governadores de oposição nos passeios de moto. A última delas ocorreu em Peruíbe, no litoral paulista, onde foi cercado por apoiadores enquanto comia pastel.

Bolsonaro se recusa a usar máscara há dois anos. Mas, ainda que a figura do presidente seja deixada de lado por um instante, a inquietação não para por aí. O Brasil tem hoje seus patrulheiros anônimos da covid. São dezenas de caras de reprovação e nojo. Um verdadeiro tribunal do “cancelamento”.

É como se o mundo tivesse se dividido em dois tipos de cidadãos: de um lado, os nobres, que se preocupam com a saúde pública e querem salvar a humanidade. Do outro, os “negacionistas” irremediáveis. O mesmo se aplica ao questionamento sobre a potência das vacinas e a autonomia médica para receitar tratamentos. Entramos na era da “ineficácia cientificamente comprovada” e da tirania do passaporte sanitário. Ao final, trata-se muito mais de um debate sobre liberdades individuais do que sobre ciência.

O jogo da imprensa

Uma das grandes responsáveis pela interdição do debate e pela imposição da “verdade absoluta” é a velha imprensa e seus especialistas. Chegaram ao ponto de apresentadores de televisão se mostrarem escandalizados porque homens em fuga do Talibã despencaram da fuselagem de um avião sem máscara. Ou durante entrevistas realizadas pelo computador ou com o devido distanciamento em que apresentador e entrevistado cobrem nariz e boca — é o uso “pedagógico” da máscara. Ou a nova modalidade dos comentaristas esportivos, que reclamavam dos rostos sem proteção na final do torneio de tênis de Wimbledon e da Eurocopa. Fora os campeonatos de futebol no Brasil, onde, além dessas queixas, é exibido um placar de mortos pela covid na tela. Independentemente se a partida é no Rio ou no interior de Goiás.

As manchetes da covid também descobriram alguns fenômenos. No mês passado, o instituto Datafolha, do jornal Folha de S.Paulo, encontrou 91% de brasileiros favoráveis à manutenção da obrigatoriedade das máscaras nas ruas. Seguramente, não eram as multidões que caminham aos domingos pela Avenida Paulista, nem as que frequentam a orla de Copacabana.

Outro levantamento, da Confederação Nacional de Municípios, consultou gestores de cerca de 2 mil municípios e revelou que quase 64% pretendem manter o uso obrigatório de máscara mesmo que a população esteja totalmente imunizada. Ou seja, a intenção da maioria das autoridades públicas é manter a vida no “modo pandêmico” por mais um bom tempo. Quem sabe, para sempre.

Chamada de uma matéria do jornal Folha de S. Paulo sobre a pandemia, dia 29 de setembro de 2021 | Foto: Reprodução

 

Pesquisa do jornal Folha de S. Paulo sobre a pandemia, dia 29 de setembro de 2021 | Foto: Reprodução

 

A turma do pijama

Além da crise sanitária que se espalhou pelo mundo, um surto de pânico paralisou parte da população que ficou isolada e agora pena para voltar à vida normal. Como ressaltou o colunista de Oeste Dagomir Marquezi, “quem não escapou da covid quase morreu de medo”.

Mesmo com o avanço da vacinação e os números da pandemia em queda livre, a volta à rotina gera medo, ansiedade e falta de ar em quem não se sente preparado para o retorno. No exterior, ganhou até um nome pomposo — Forto (“fear of returning to the office”, ou “medo de voltar ao escritório”). Se há uma parcela da população com problemas reais de saúde mental, há outro tanto que simplesmente se acomodou com a vida caseira e desenvolveu uma forma de preguiça social. São os fanáticos pelo lockdown.

A principal estratégia dos gestores da covid baseou-se em provar que o confinamento da população iria deter o coronavírus

“No contexto da pandemia, as pessoas que se isolaram desde o início ainda têm se mantido seguras num comportamento de retroalimentação” — explica o doutor em psicologia pela PUC-Campinas Luiz Ricardo Gonzaga. “Ou seja, quanto mais elas se isolam, mais o comportamento delas se mantém.” Para uma minoria que pode fazer o isolamento caviar, regado a comida por delivery, compras on-line e home office, a vida durante a pandemia não foi um fardo. Mas tudo cobra seu preço, mesmo entre os mais privilegiados.

A especialista em inteligência emocional Gisele Finardi orientou um grupo de empreendedoras para dar apoio durante a pandemia. “Muitas mulheres ficavam de pijama o dia todo e se queixavam de desânimo, apatia e baixa produtividade”, conta a psicóloga. “Ao ficar em casa, é como se as pessoas parassem de ter regras de horário, de compromisso. Os dias da semana passaram a ser domingo e a produtividade consequentemente baixou. Quando estou de pijama, o que meu cérebro recebe de informação? Descanso. Ele não quer trabalhar.”

Sair desse looping vicioso em que alguns se meteram vai ser desafiador, mas fundamental para voltar à ativa. A principal estratégia dos gestores da covid baseou-se em provar que o confinamento da população iria deter o coronavírus. Não funcionou. Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Alemanha mostrou que é possível manter a epidemia sob controle com estratégia, e não pela imposição de lockdowns sem respaldo científico.

Medidas como a realização de testes diagnósticos regulares, o rastreamento de contatos e políticas para isolar os infectados já se mostraram eficazes para conter o vírus em países asiáticos, como a China e a Coreia do Sul. O Brasil poderia ter aprendido com a experiência de outras nações. Mas aceitar essa linha da ciência seria admitir o erro de centenas de políticos que trancafiaram as pessoas em casa e estrangularam a economia como se essa fosse a única salvação para a crise.

A covid-19 continua ativa, é perigosa, e as medidas para evitar a contaminação devem ser levadas a sério. Mas quase dois anos depois, as justificativas da turma do #fiqueemcasa estão rareando. Se a tendência de queda nos números da covid se mantiver nos próximos meses, vai ficar cada vez mais difícil arrumar uma desculpa para não voltar ao convívio social.

Ao digitar a frase “quando a pandemia vai acabar”, o Google oferece quase 57 milhões de ocorrências. É sinal de que há interessados no tema. A pandemia criou labirintos, é fato. Mas, enquanto muita gente está em busca de saída, há aqueles que não pretendem procurá-la tão cedo.

 

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21 comentários Ver comentários

  1. Perdoem-me pela objetividade, talvez seja mais uma forma de desabafo de quem já não aguenta mais…, mas diria que quem ainda não percebeu a enganação é covarde, burro ou desonesto. Simples assim.

  2. O mais triste (ou assustador) é vermos pessoas reféns de tais ordens e ainda nos policiarem por “contrariá-las” ao ponto de fazer caras feias ou criarem rixa por conta de não nos submetermos a tais atos autocráticos por viés de legitimidades!

  3. Os únicos que não eram pra usar máscara seriam os políticos corruptos da Esquerdalha, eles estão mascarados desde que entraram na política

    1. Ótima matéria, a impressão que sempre tive é que o mundo emburreceu, se deixando manipular pelos interesses da minoria. Mas sempre foi assim. Pelo menos estamos acordando. Fala-se muito do livro 1984, que li, mas lendo agora o prefácio de Revolução dos Bichos, do mesmo autor, escrito em 1940 e poucos, impressiona muito perceber que sempre foi assim. E ainda nem entrei na leitura na estória do livro.

  4. Me recusei aceitar o pânico, na minha casa a vida seguiu normal. A minha teoria se fundou no fato que tive dengue duas vezes , em minha casa não tinha pernilongo.
    Só uso máscara quando saio de casa para não causar atrito com os intolerantes. Comemoramos todos os aniversários e datas festivas , nos abraçamos , rimos , dançamos e fortalecemos nossa imunidade com a alegria.
    A rotina da minha casa não mudou , todos tomamos Ivermectina desde o início. Meus filhos continuaram trabalhando normalmente, só não nos demos ao trabalho de consultar o Dr. Camarotti, Dr. Bonner, Dra. Amanda, (a sabe tudo) e afins.

    1. Parabens por sua atitude!!!Creio que os numeros de mortos, podem ser atribuidos a varios fatores (desde nao haver uma conduta clara para tratar, pessoas idosas e outras mais jovens com comorbidades e ate a falta de atendimento adequado etc etc) Nada se sabia, era uma guerra interminavel e a grande maioria “ficou em casa e so procurou hospitais quando estavam com falta de ar!!!! Poderia se instalar uma cpi da falta de O2!!!!

  5. Ótima matéria, mostra a realidade “nua e crua” num mundo cheio de gente “de cristal” que aproveitou o momento para nada fazer ou simplesmente depender dos outros. Mas há que se perguntar: à quem interessa essa situação? Enquanto no Ocidente discutimos e debatemos o assunto com uma turminha “democrática” mas que não aceita opinião contrária (ótima referência aos “Maoístas”), mostrando medo de uma doença ainda não comprovada e com origens obscuras(pra mim nada mais é do que guerra química) a China “vem com tudo”. Mostrou a fragilidade(e a ganância de alguns grandes empresários) de ter desmontado boa parte do parque industrial e transferido as linhas de produção para lá… quem se lembra do período “Deng-Xiao-Ping” sabe do que falo. A China já era em 1980 o maior produtor de produtos químicos(guerra química) e ninguém nunca falou nada… e continua “de bico fechado”. Destruiu quase completamente o Ocidente e hoje se mostra mais forte do que nunca… o pior são os “politicamente corretos” apoiando essa gente.

  6. Na mina cidade que é a beira mar, vou quase todas as tarde correr na orla, e me deparo com pessoas usando máscara, mesmo estando sozinha e sem ninguém por perto. E as vezes com um vento muito forte, se eu tentasse comer uma farofa no vento, nem conseguiria, pois iria de dissipar antes.

  7. Tenho horror de conversar com pessoas que só sabem falar em pandemia, ciência e isolamento. O que mais me apavora sãos as que vão pra praia de máscara, vi gente entrando no mar de máscara. O mundo está maluco, socorro!!!!

  8. Minha alma clama para sair desse país, desse mundo. Está insuportável conviver com as ordens dos governantes, com a aceitação dos meus pares e com a aquiescência da nossa justiça e imprensa. Não suporto mais ouvir falar em “especialistas “ e a voz da Malu e do Willian Bonner desperta meus instintos mais primitivos…

    1. Sinto a mesma coisa. Da Globo já me livrei. Mas , o pior é a subserviência de pessoas supostamente esclarecidas que fazem questão de se colocar como os paladinos da saúde pública. Está difícil! Para piorar , o Vitória corre o risco de cair para terceira divisão.

    2. Isso, Alexandre. O mesmo digo eu. A insanidade tomou conta do mundo, mas mais aqui. Não suporto mais qualquer menção do politicamente correto, falar de LGBTQ+++, imprensa velha, cancelamento, esquerdalha metida em tudo, Justiça, STF então, pelamor !!!! Aos setenta e dois, cansei.

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