Estátua da Liberdade | Foto: Steve Collender/Shutterstock
Estátua da Liberdade | Foto: Steve Collender/Shutterstock

A volta do tribalismo

Uma sociedade que gasta seu tempo brigando por lealdades tribais e étnicas nunca tem os recursos para se concentrar em sua prosperidade coletiva

Roma nos deu a palavra natio (nação) para refletir a ideia revolucionária de que os cidadãos livres de um Estado não precisavam ser todos iguais nem nascer no mesmo lugar para gozar dos mesmos direitos ou ser da mesma tribus, ou seja, tribo. Não havia palavra semelhante a natio em nenhuma língua antiga, segundo o historiador Victor Davis Hanson. Já mencionei seu novo livro, The Dying Citizen, aqui, e volto a ele para traçar um paralelo entre nação e tribo.

Para começo de conversa, o tribalismo é um sentimento bem mais antigo e enraizado, por ser mais natural, insidioso e forte do que uma ideia de cidadania não racial ou tribal. É o default da natureza humana, o estado mental mais comum. Sem ideias um tanto abstratas que possam construir, ao longo do tempo, uma cidadania calcada em valores republicanos, o normal é os seres humanos se aglutinarem em suas tribos, com laços de parentesco, religião e etnia.

Pelo menos até recentemente, o tribalismo era visto como retrógrado, uma noção reacionária e pré-civilizacional que tornava impossível para um cidadão de uma nação multirracial considerar os de diferentes aparências ou religiões seus iguais. O tribalismo foi a ruína do governo constitucional, do ensino superior e da cultura popular, minou a meritocracia e marcou o caminho para a pobreza, o caos e a violência. Quando sua lealdade depende de sua tribo, e não de valores mais consensuais e independentes de tais categorias primitivas, então é quase impossível manter uma república.

A política de identidades é em essência pré-civilizacional

A invenção da política e do império da lei deu início à lenta e frágil ascensão sobre o estado normal e natural de tribalismo. As etnias entregaram suas identidades e lealdades primárias a uma noção mais elevada de ideias, laços e tradições transcendentes. No entanto, diz Hanson, o tribalismo nunca termina. Sua atração é apenas suspensa e suprimida — na melhor das hipóteses pelo pluralismo constitucional, na pior, às vezes pela coerção ditatorial ou ideológica. É estranho que a atual virada progressista da América para o tribalismo e a auto-identificação primária por raça e gênero seja reacionária ao extremo. Ou seja, a política de identidades é em essência pré-civilizacional.

Uma sociedade que gasta seu tempo brigando por lealdades tribais e étnicas nunca tem os recursos para se concentrar em sua prosperidade coletiva, liberdade, realizações e segurança, e certamente não pode contratar, admitir o ensino superior ou recompensar e punir com base no mérito individual. Os Estados Unidos da América foram criados como essa grande ideia meritocrática, republicana, em que a lealdade tribal do passado deveria ser deixada de lado em troca de algo maior e comum.

Em um dos últimos discursos de sua Presidência, Ronald Reagan enfatizou esses mesmos pontos: “Você pode ir morar na França, mas não pode se tornar um francês. Você pode ir morar na Alemanha, Turquia ou Japão, mas não pode se tornar alemão, turco ou japonês. Mas qualquer pessoa, de qualquer canto da Terra, pode vir morar na América e se tornar um americano”.

Para os japoneses, o gaijin se aplica àqueles que, por nacionalidade, etnia e raça, não podem ser totalmente aceitos como japoneses. Na Espanha castelhana do século 18, gringo (agora um termo pejorativo racial mexicano comum para americanos, especialmente americanos brancos) significava qualquer estrangeiro, falante de espanhol não nativo.

A América, que sobreviveu a uma sangrenta guerra civil entre facções políticas e geográficas, tornou-se até agora uma das poucas exceções da história. O fundamento lógico final da Constituição única da América levou os americanos eventualmente a se definirem por seus valores compartilhados, não por suas aparências inconsequentes. Pior, não pode haver legitimidade política se a posse de qualquer tipo de cargo for baseada unicamente na família, clã e raça de uma porção específica da população residente.

Depois que o tribalismo toma conta, é quase impossível frustrar esse narcótico antigo ou impedi-lo de destruir o trabalho secular e muito mais difícil de estabelecer uma nacionalidade e cidadania multirracial. A realização, medida por habilidades quantificáveis ​​de linguagem, fala, história e literatura, cria um senso de confiança e orgulho — e também corta muitos laços tribais. Alunos que dividem uma sala de aula para estudar os clássicos, independentemente de classes ou tribos diferentes, conseguem compartilhar de um sentimento comum, um denominador que os une para além dessas características.

Tudo isso está sendo ameaçado com o recrudescimento do tribalismo nos Estados Unidos e no mundo, com campanhas que segregam com base na raça, que criam “nações” dentro de nações, ou que enxergam a própria literatura clássica pela ótica revisionista de opressores e oprimidos. Os guerreiros da justiça social de hoje se identificam mais com o apresentador milionário da CNN Don Lemon ou com o bilionário rapper Jay Z do que com um trabalhador branco e pobre de uma mina de carvão em Virgínia.

Consequentemente, o esforço para enfraquecer a cidadania se voltou em parte para a raça, porque os Estados Unidos são uma sociedade fluida e frequentemente ascendente na qual é difícil galvanizar uma classe permanente de oprimidos. Quem está entre os 5% mais ricos hoje pode não estar amanhã, e quem nasceu pobre pode ficar rico. A divisão com base em classe, portanto, nunca se mostrou ferramenta útil para a esquerda marxista. Já a política de identidade tem enfraquecido os pilares civilizacionais da nação, e ainda serve como desculpa para os ricos das “minorias”. Um ator negro ou um jogador de basquete da NBA multimilionários podem bancar as vítimas acendendo velas para os movimentos enquanto preservam seus privilégios de classe.

Cuspir no legado da civilização é outra estratégia utilizada. Se os cidadãos não acreditam que herdaram um passado excepcional, se, em vez disso, reivindicam todo o bem percebido do presente como seu e todo o mal como a carga dos inferiores e agora mortos, então, inevitavelmente, eles criarão sua justiça própria, presunçosa, hipócrita.

As chaves para o patriotismo americano, para Hanson, são dois valores, agora desaparecendo: primeiro, a gratidão por ser um cidadão dos Estados Unidos; segundo, o reconhecimento de que alguém imigra para os Estados Unidos ou continua a viver dentro de seus limites territoriais porque acredita que é preferível a outros países. Todo passado será imperfeito. Mas ninguém demoniza Martin Luther King Jr. por ele ter praticado adultério, preferindo enxergar suas várias virtudes e seu legado positivo no ativismo civil. O mesmo vale para os pais fundadores e tantos outros heróis. Honrar seu heroísmo é colocar como preponderante seu lado bom, deixando de lado o que ocasionalmente era ruim.

A história dos Estados Unidos nunca foi apenas um psicodrama simplista do branco contra o não branco; em vez disso, era um conto de antagonismo de classe e provações frequentemente compartilhadas, as contradições e hipocrisias de ver a raça como algo importante, e a lógica inerente e corretiva da Constituição e documentos fundadores, que ofereceu um caminho sancionado fora do viés do preconceito racial para um modelo mais justo e racialmente cego de sociedade. Isso foi uma grande conquista, e basta observar a qualidade de vida dos negros americanos na média, comparando isso não só com os negros africanos, mas com os brancos de outras culturas.

Quem tem focado em demasia no tribalismo, na política de identidades, está contribuindo, consciente ou inconscientemente, para a destruição de uma grande nação, que representa o ápice de uma civilização calcada em valores republicanos. É isso que está em jogo quando se reforça o conceito de raça para exigir vantagens ou para derrubar estátuas.

Leia também “A cidadania corre perigo”

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7 comentários Ver comentários

  1. Esse negócio de tribo me parece uma farsa, que só consegue enganar quem já é acostumado a sê-lo ou que finge ser. Qual tribo ou quais tribos poderão assumir o controle e solução dos problemas mundiais, sem uma estrita colaboração de seus contrários? Em um mundo cada vez mais complexo, será que já temos cacife para simplificar tudo em tribos? A meu ver, a primeira consequência funesta do tribalismo, no médio e longo será a fome. O resto já dá pra imaginar.

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