O jornalista Rafael Fontana, autor do livro <i> Chinobyl </i> | Foto: Arquivo Pessoal
O jornalista Rafael Fontana, autor do livro Chinobyl | Foto: Arquivo Pessoal

“A mídia brasileira não tem interesse em falar a verdade sobre a China”

O jornalista Rafael Fontana morou quatro anos no país e escreveu um livro para relatar sua experiência nas entranhas do governo comunista

Quando foi professor universitário na China, o jornalista Rafael Fontana recomendou aos alunos a leitura do livro 1984, de George Orwell. Fontana se surpreendeu, no entanto, ao descobrir que eles nunca tinham ouvido falar na obra, nem mesmo conseguiram comprá-la on-line — o título foi banido há décadas pela ditadura chinesa. Por essa indicação desavisada, ele poderia ter sido deportado do país. Esse e outros relatos estão registrados no livro Chinobyl, lançado em setembro deste ano. 

O jornalista chegou à China em 2015 para ministrar aulas de português em uma universidade. Depois, assumiu o cargo de editor na Rádio Internacional da China, mídia estatal criada em 1950 e veiculada em 65 idiomas. “O país começou muito cedo o processo de espalhar a propaganda chinesa pelo mundo”, disse em entrevista a Oeste. Durante quatro anos, Fontana testemunhou de perto os programas para expandir a influência do Partido Comunista Chinês (PCC) na política de outros países, por meio de financiamentos, propaganda e tecnologias de espionagem — de uma população de 1,4 bilhão de pessoas, cerca de 90 milhões são membros do PCC.  

De volta ao Brasil, recebeu um convite para ser diretor de Comunicação da Huawei, empresa privada chinesa de tecnologia, mas “controlada pela ditadura”. Para o jornalista, há motivos para se preocupar com a presença do gigante chinês no mercado brasileiro. “Eles usam a tecnologia que circula dentro das redes de transmissão para copiar, roubar ou desviar informações que passam pelos equipamentos de forma ilegal e sem que ninguém descubra.” De Brasília e por videochamada, o jornalista com mais de 25 anos de carreira conversou com a reportagem de Oeste sobre sua experiência de imersão na cultura oriental, a rotina na mídia estatal, e contou como funcionam os créditos sociais — um sistema de pontuação atribuído à população por bom comportamento. Chinobyl está em sua segunda edição e o título é uma alusão ao desastre russo de Chernobyl — a iminência de uma bomba capaz de abalar o regime comunista chinês, assim como a explosão da usina nuclear, acelerou a desintegração da União Soviética. 

Confira os principais trechos da entrevista. 

Quando chegou à China, qual foi o maior choque cultural que você observou?

Todo dia é uma coisa nova. Morar na China não é mudar para um novo país, é mudar para um novo mundo. A forma como eles enxergam o mundo é diferente. A questão da higiene foi um choque. O hábito de cuspir no chão o tempo todo incomoda. É um festival de cusparada. Parece bobo, mas depois de um tempo começa a dar desespero. Existem placas em piscinas sinalizando ‘não cuspa na piscina’. Poxa, precisa de placa? Aí você observa as pessoas na piscina colocando a cabeça para fora para cuspir na borda. Dentro de ônibus, em restaurante, em campo de futebol. O tempo todo tem cuspe no chão. 

Você se mudou para a China em 2015 e atuou como professor em uma universidade. Como surgiu seu interesse pelo Partido Comunista Chinês? 

Foi um conjunto de fatores. Quando mudei para lá, um amigo que participava de um grupo sem fins partidários que reunia informações sobre a China me pediu para observar as ações do Partido Comunista e como eles se organizavam para expandir a influência do Partido para fora das fronteiras chinesas. Na época, até brinquei: ‘Você está vendo muito filme de ficção científica, isso é teoria da conspiração’. Então já cheguei no país com uma missão. Como professor universitário, comecei a prestar atenção no comportamento dos alunos, professores e na direção. Rapidamente descobri que a vida na China era diferente do que as pessoas pensavam. 

Por exemplo? 

Quando fui professor na Universidade de Hebei, em Xiao An She, recomendei aos alunos a leitura do livro 1984, de George Orwell. Eles começaram a procurar na internet a versão on-line ou impressa da obra para comprar, mas não encontraram. Nem sequer acharam citações a Orwell na web. Sem entender direito o que acontecia, comentei o episódio com uma colega professora. Foi então que ela me disse que o livro é proibido em ditaduras comunistas e foi banido há décadas na China. Eu poderia ter sido deportado pela recomendação de um livro proibido pelo regime.

Você trabalhou na Rádio Internacional da China. Qual a dimensão dessa mídia estatal? 

A Rádio Internacional da China começou nos anos de 1950, logo depois que o PCC chegou ao poder. Havia muitos analfabetos na China e a TV era incipiente, quase não existia. O rádio foi fundamental para disseminar as ideias do partido. O país começou muito cedo o processo de espalhar a propaganda chinesa pelo mundo. A Rádio Internacional da China é a emissora com mais idiomas no mundo, mais até que a BBC. O conteúdo é traduzido para cerca de 65 idiomas. Assim, eles estão habilitados a se comunicar com mais de 4 bilhões de pessoas no planeta. A internet massificou e popularizou ainda mais. Foi quando eles foram para as redes sociais. As redes como o Twitter, Facebook, YouTube são proibidas na China, mas a mídia estatal produz conteúdo fora do país para esses canais, sem problemas com as big techs. É curioso que essas empresas não se importam em divulgar as notícias de uma ditadura comunista que mantém 1 milhão de pessoas em campos de concentração. 

Praticamente todos os chineses são vigiados pelos aparelhos celulares

Como foi sua experiência como jornalista na rádio estatal chinesa? Quais diferenças você destaca na rotina profissional em comparação com o Brasil?

No Brasil, estamos acostumados a trabalhar 12 horas, é uma correria. Lá, o expediente era muito tranquilo. Trabalhávamos cinco, seis horas por dia, e tudo era totalmente controlado pela ditadura chinesa. Eu era editor, mas tinha pouca margem para editar. Podia mexer no estilo, mas não tinha como alterar o conteúdo, até porque não tinha acesso aos repórteres chineses. A matéria já chegava traduzida em português, só tinha de lapidar e tornar o conteúdo mais palatável ao público estrangeiro, até porque os chineses não são muito criativos. O conteúdo que eles produzem na China é muito ruim. No departamento de português, onde eu trabalhava, havia uma média de 20 pessoas. No Brasil, esse mesmo trabalho poderia ser feito por oito, dez pessoas no máximo, e com maior qualidade. Os chineses gastam muito e não são eficientes na gestão do dinheiro. É uma estrutura socialista, inchada, eles precisam gerar emprego em todos os setores, inclusive na comunicação, para manter as pessoas ocupadas. Imagine que na rádio havia um departamento de esperanto, com cerca de 20 pessoas trabalhando lá. Ninguém mais fala esperanto no mundo. O departamento ficava em frente ao nosso, e a gente via que a maioria das pessoas que trabalhavam lá era de mulheres de membros do Partido Comunista. Conheci duas jornalistas do departamento de esperanto que tinham começado a estudar a língua naquele ano. Ou seja, mal tinham noção do idioma.

Em uma passagem no livro, você conta que um colega da rádio chinesa questionou se o seu trabalho na mídia estatal estaria ajudando a espalhar a propaganda comunista no mundo.  Como você reagiu? 

Durante dias, fiquei pensando naquelas palavras. No meu último ano na China, era muito comum tomar remédios para dormir, e acordava quase sempre deprimido. Uma parte daquele desânimo, com sintomas muito parecidos com os de uma depressão, poderia ser explicado pela poluição, que cobria o céu de cinza. Mas eu também era atormentado por aquela sensação de estar ajudando na propaganda da ditadura chinesa, tentava me afastar desse pensamento, mas ele me consumia todas as manhãs antes do trabalho. Aos poucos, pedi para trabalhar nas áreas de cultura, literatura, para me desvincular um pouco da política. Comecei a ser menos exigente com a qualidade do que estava sendo publicado, mesmo que meu nome estivesse ali. Pensava: ‘Quanto menos as pessoas se interessarem pelos assuntos chineses, melhor’. 

Como você ficou sabendo da existência dos créditos sociais do Partido Comunista da China e como funciona isso na prática? 

Os chineses não podem comentar com estrangeiros a respeito, mas eles têm consciência, só não sabem o tamanho do perigo. O crédito social foi idealizado por volta de 2009. O presidente Xi Jinping decidiu implementar o sistema a partir do ano 2016, que começou com um projeto piloto para voluntários. Milhões de pessoas do Partido Comunista entraram, até mesmo para fazer uma média com seus superiores. Desde 2020, coincidiu com a pandemia, o sistema passou a ser compulsório. Todos os chineses têm uma pontuação e praticamente todos são vigiados por aparelhos celulares, câmeras, pelos vizinhos. A pessoa começa com uma pontuação alta e, quando ela tem problemas, perde pontos. Por exemplo, imagine que você perdeu pontos por beber demais ou bater o carro. A partir desse momento, você começa a ser evitado dentro de um círculo social de pessoas que têm pontos mais altos. As pessoas começam a te evitar porque uma das formas de ganhar ou perder pontos é o seu círculo de amizade. Para recuperar a pontuação, você pode dar um presente, uma festa. Só que você está sem dinheiro. Então faz um empréstimo no banco e não paga. Em vez de ganhar, perde ainda mais pontos, e isso vira uma bola de neve. A pessoa com baixa pontuação pode receber punições como não embarcar em trens de alta velocidade, não poder escolher os melhores vagões, fazer viagens, pedir empréstimos no banco. Ou seja, a vida vai ficando mais difícil. É algo irreal e que vai levar ao colapso. Quando falei a respeito disso para um grupo de brasileiros em uma palestra, eles mencionaram o episódio da série Black Mirror [trata-se do primeiro episódio da terceira temporada, chamado Queda Livre]. Nem conhecia, pois estava morando na China e não tinha visto a série. Mas nesse caso não é ficção, está acontecendo de verdade. 

Você foi diretor de comunicação da Huawei no Brasil, empresa chinesa fabricante de celulares, além de fornecedora de tecnologia e de equipamentos de infraestrutura para outras companhias. Recentemente, houve o leilão do 5G no Brasil. Há motivos para o país se preocupar com o gigante chinês?

Sem dúvida. Como o leilão do 5G no Brasil foi destinado a operadoras de telefonia, a Huawei não participou. Mas a empresa pode vender equipamentos e participar da construção da infraestrutura do 5G no país. Existem praticamente  três empresas que dominam o mercado de 5G no mundo: a Ericsson, a Nokia e a Huawei. A Huawei é processada em vários países por casos de espionagem, lobbies fraudulentos e informações privilegiadas. Eles usam a tecnologia que circula dentro das redes de transmissão para copiar, roubar ou desviar informações que passam pelos equipamentos de forma ilegal e sem que ninguém descubra. E não é só espionagem militar, estatal, mas também industrial. A Huawei é uma empresa privada, mas controlada pela ditadura. Os principais cargos, desde o CEO aos diretores, são ocupados por membros do Partido Comunista Chinês. O Tiktok [aplicativo chinês popular entre jovens usado para gravar vídeos curtos], uma vez instalado, circula pelo aparelho. É um perigo e está no termo de adesão, que as informações, se requisitadas, podem ser transmitidas ao regime chinês. As pessoas que usam plataformas chinesas estão sendo espionadas.

Como você avalia a relação da mídia brasileira com a China hoje ?

Quando trabalhei na Huawei, participava quase diariamente de reuniões em que os meios de comunicação do Brasil pediam dinheiro. Não era para fazer uma reportagem sobre a empresa, eram repórteres fazendo a parte comercial, pedindo dinheiro mesmo. Estou falando dos grandes meios de comunicação, não dos pequenos. Empresas chinesas possuem um orçamento muito acima das demais, a Huawei tinha um orçamento de publicidade 14 vezes maior que o da Ericsson. Como o governo federal reduziu bastante as verbas para as empresas de comunicação, a China está aproveitando para investir pesado no Brasil. Alguns Estados brasileiros, como o governo paulista, recebem muito dinheiro de publicidade do governo chinês. Isso ajuda a entender por que boa parte da mídia brasileira não tem interesse em falar a verdade sobre a China. 

Como você avalia a conduta da China na condução da pandemia de coronavírus? 

Nenhuma informação que sai da China é confiável. O governo controla a informação e não existe outra fonte. Não há como saber se o vírus foi fabricado em laboratório, nem se houve escape intencional ou acidental. Mas a China tem o controle da Organização Mundial da Saúde e não há investigação. No momento em que os chineses identificaram o problema, eles não informaram o mundo. O governo sabia do coronavírus em dezembro, e a China é o maior emissor de turistas do mundo. Uma média de 12 milhões de chineses saem do país todos os meses. Em 60 dias, são 24 milhões de chineses circulando com uma doença infecciosa. No mínimo, houve negligência do governo chinês.

Neste mês, o Partido Comunista da China aprovou sua terceira resolução histórica, e o presidente da China e Secretário Geral do Partido Comunista, Xi Jinping, deu um importante passo rumo ao terceiro mandato. Como você avalia o futuro político da China? 

Em 2023, Xi Jinping deve assumir o terceiro mandato e a China terá problemas. Ele estará rompendo com o acordo feito na época de Mao Tsé-tung, e a partir daí começarão as brigas entre as elites políticas e econômicas da China. O grupo de Xi Jinping quer se eternizar no poder. Quando não for mais ele serão os sucessores, criando uma dinastia dentro do comunismo. A insatisfação virá das elites e chegará à população, que estará sofrendo com os créditos sociais. Em 2024, haverá eleições nos Estados Unidos. No primeiro ano de mandato, o novo presidente americano ou o presidente reeleito Joe Biden terá de lidar com as convulsões sociais na China. 

Você sofreu alguma ameaça ou retaliação desde que lançou o livro?

Não, mas claro que estou banido da possibilidade de trabalhar em qualquer empresa chinesa para sempre enquanto existir o Partido Comunista. E sei de pessoas citadas no livro que, apesar de terem os nomes trocados para preservar a identidade, já foram chamadas para conversar nos consulados em Angola, na China, em Portugal, no Brasil. Sei que meu celular está sendo controlado, mas não tenho nada a esconder. Tenho material para escrever cinco livros. O comunismo na China está cada vez mais controlador, e a população precisa encontrar meios para driblar o sistema. Não há como controlar 1,4 bilhão de pessoas para sempre. O livro não é um fim, é um começo. 

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