Kyle Rittenhouse foi absolvido por unanimidade | Foto: Reprodução
Kyle Rittenhouse foi absolvido por unanimidade | Foto: Reprodução

O caso Kyle Rittenhouse e a histeria das elites

Sob uma pressão extraordinária, o júri nos mostrou a silenciosa sabedoria do povo

As elites liberais dos Estados Unidos estão arrasadas. Estão totalmente loucas e fora da realidade. Isso ficou brutalmente claro nas últimas semanas. Enquanto todos nós sabíamos o que estava por vir, o surto coletivo da classe política e da mídia sobre a absolvição de Kyle Rittenhouse, de 18 anos, revelou uma classe dominante tão distorcida, tão imoral, tão governada por preconceitos partidários que ela basicamente vive em um universo paralelo.

Em Kenosha, Wisconsin, um júri considerou Rittenhouse inocente de homicídio e tentativa de homicídio pelos disparos contra três homens, dois dos quais ele matou, em meio aos protestos na cidade na noite de 25 de agosto de 2020. Os atos emergiram depois que a polícia atirou em um homem negro, Jacob Blake. A inquietação tomou conta do lugar. A defesa argumentou, com sucesso, que Rittenhouse disparou em legítima defesa, enquanto estava sendo perseguido e atacado.

Naquela noite, ele estava cuidando de comércios locais, armado com um rifle, junto com algumas outras pessoas. A cidade havia sucumbido ao caos depois que a polícia perdeu o controle das ruas. Ao que parece, esse adolescente terrivelmente ingênuo se considerou um destemido mantenedor da paz. Filmagens mostram Rittenhouse andando pela cidade oferecendo assistência médica e tentando apagar incêndios. A tensão aumentou, e duas pessoas acabaram mortas.

A noite foi uma tragédia que nunca deveria ter acontecido. Kyle Rittenhouse deveria ter ficado em casa, e a polícia deveria tê-lo mandado para casa assim que o viu. Os políticos deveriam ter se concentrado em manter a ordem, em vez de fingir, junto com a mídia, que a ausência de lei que estava se espalhando pelos Estados Unidos era a raiva legítima dos oprimidos. Mas qualquer pessoa que tenha visto as imagens daquela noite enxergaria que a defesa tinha argumentos.

O primeiro homem contra quem Rittenhouse disparou, e que ele matou, Joseph Rosenbaum, o perseguiu e tentou pegar sua arma. O segundo, Anthony Huber, o golpeou com um skate depois que Rittenhouse caiu no chão. O terceiro, Gaige Grosskreutz, que sobreviveu, estava com uma pistola apontada para a cabeça de Rittenhouse quando o adolescente disparou. Grosskreutz admitiu isso em seu depoimento, o que acabou com a promotoria.

Conforme o julgamento avançava, ficou mais claro que a narrativa criada sobre Rittenhouse, e sobre aquela noite de agosto do ano passado, era totalmente falsa. Uma narrativa muito bem resumida pela deputada do Partido Democrata Ayanna Pressley, que afirmou que Rittenhouse era um “terrorista doméstico da supremacia branca de 17 anos de idade” que “disparou contra e matou duas pessoas que tinham se reunido para afirmar seus valores, sua dignidade e a importância das vidas negras”.

Líderes democráticos também foram incrivelmente irresponsáveis, ainda que de uma forma mais eufemística

Não há evidências de que Rittenhouse tenha tendências relacionadas à supremacia branca. A menos que ser pró-polícia e pró-Trump conte, o que aparentemente é o caso para muitas pessoas supostamente inteligentes. A ideia de que ele era um forasteiro que foi para Kenosha só para mirar nos manifestantes também é absurda. Apesar de morar em Antioch, Illinois, seu pai, sua avó, sua tia e seu tio vivem em Kenosha. Ele também tinha um emprego na cidade e estava hospedado com um amigo naquela noite. Aqueles com quem ele entrou em atrito também não eram “manifestantes”. Joseph Rosenbaum era, pelo que se sabe, um indivíduo profundamente perturbado que foi para o centro da cidade para arrumar confusão.

Mas, tirando algumas notáveis exceções, muitas figuras grandes e boas apostaram em suas versões ridículas, mesmo depois que o tribunal as desmentiu. “A supremacia branca mantém seu disfarce”, anunciou um colaborador da rede de televisão MSNBC após a absolvição. O fato de que as três pessoas contra quem Rittenhouse disparou eram brancas continua passando batido por muitos, incluindo o jornal britânico The Independent, que disse aos seus leitores que Rittenhouse tinha matado dois homens negros.

Líderes democráticos também foram incrivelmente irresponsáveis, ainda que de uma forma mais eufemística. “Passei a maior parte da minha carreira trabalhando para tornar o sistema de justiça mais igualitário, e claramente ainda há muito a ser feito”, comentou a vice-presidente, Kamala Harris. O presidente, Joe Biden, divulgou uma declaração sugerindo que estava “bravo e preocupado” com o veredito, antes de pedir que as pessoas o aceitassem.

Para boa parte da elite dos Estados Unidos, esse julgamento não era uma questão de provar que Rittenhouse era culpado acima de qualquer suspeita. Não era uma questão de tentar revelar a verdade do que aconteceu naquela noite terrível. Era mais um confronto na batalha fantasiosa contra a supremacia branca que existe apenas na sua imaginação. Os jurados foram instados não a ponderar sobre as evidências e os depoimentos, mas a oferecer o veredito “correto” e a desferir um golpe contra o mal.

O peso de tudo isso sobre os homens e as mulheres do júri deve ter sido imenso. De acordo com o New York Times, os jurados agradeceram aos auxiliares do xerife por colocarem uma divisória que os protegeu da exposição pública. “Ajudou a acalmar meu nervosismo”, disse um deles. A “cobertura da mídia está uma loucura”, disse outro.

Essa questão encontrou eco no juiz Bruce Schroeder, que considerou a mídia “totalmente irresponsável”. Ele afirmou que pensaria duas vezes sobre transmitir julgamentos como aquele pela televisão no futuro. Schroeder baniu a MSNBC do tribunal pelo restante do julgamento, depois que a polícia pegou um de seus colaboradores seguindo o ônibus que estava transportando o júri. A polícia acredita que ele estava tentando fotografá-lo. Os jurados deveriam se manter anônimos por ordem da Corte, tamanha a pressão sobre eles e o potencial para represálias.

Diante de tudo isso, esses 12 homens e mulheres fizeram o que a mídia corporativa e muitos políticos basicamente deixaram de fazer no decorrer da saga de Kyle Rittenhouse: concentrar-se nos fatos, e não na narrativa. Adolescentes armados não vão proteger os Estados Unidos da histeria que o está destruindo. Mas a sabedoria discreta de pessoas comuns talvez consiga fazê-lo.


Tom Slater é editor da Spiked.

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