Ilustração: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Ilustração: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

“Não quero mais trabalhar”

Uma onda de pedidos de demissão nas gerações conhecidas como millennials e Zs preocupa empresas norte-americanas e britânicas

Do início da pandemia até o final de sua fase mais crítica, a maioria das empresas foi extremamente flexível na adoção do trabalho remoto. Escritórios de advocacia e arquitetura, bureaus de design, agências de publicidade, bancos de investimento e corretoras autorizaram o esquema home office. Mesmo segmentos nos quais é indispensável uma linha de frente in loco liberaram para o trabalho em casa o pessoal de departamentos como finanças, RH e cadeia de suprimentos. Isso aconteceu, por exemplo, no agronegócio, no varejo, na indústria naval e nos laboratórios farmacêuticos. No geral, as empresas foram bem bacanas — claro, aquelas que conseguiram vencer a arrebentação da crise e se manter operantes. Agora, na convocação para o retorno ao “trabalho presencial” — termo do léxico covidístico —, registram-se protestos ruidosos por parte sobretudo de funcionários millennials. Estão fazendo biquinho. A volta ao escritório representa um alto risco, dado que o vírus ainda está por aí, atuante e implacável. E as empresas, antes fofas, tornaram-se “do mal”. Ah, esse capitalismo desalmado…

O fenômeno já tem nome. Dois, na verdade. É chamado de Great Resignation e Big Quit — numa tradução livre, Grande Onda de Pedidos de Demissão. A maré preocupa especialmente empresas norte-americanas e britânicas. Levantamento do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos dá conta de que 4,3 milhões de pessoas pediram demissão ou aposentadoria apenas no mês de agosto. No Reino Unido, uma economia que representa 13% da norte-americana, foram 400 mil pedidos entre julho e setembro. Nas entrevistas de saída, o setor de Recursos Humanos das companhias documenta como principais razões alegadas pelos demissionários o medo de contrair covid, as supostas condições de trabalho insatisfatórias e o desejo de reorganizar a vida a partir de outros parâmetros.

Os motivos que podem ser listados sob a categoria “existenciais” são expostos por profissionais mais velhos, acima dos 50 anos. Há os que acumularam dinheiro e frustrações no mundo corporativo e pretendem finalmente realizar sonhos quase esquecidos. É também numeroso o grupo daqueles que dizem buscar projetos que ocupem apenas uma fração do dia, de modo a permitir mais tempo com a família. Pensadores telúricos acreditam que essas são reações compreensíveis diante da finitude da espécie escancarada diariamente nas histórias de perdas de amigos e familiares e pelos números da pandemia. Analistas mais céticos consideram que esses empregados estão pedindo o boné apenas por terem identificado o que o mercado chama de “janela de oportunidade”. Tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, as políticas de “dinheiro de helicóptero” encheram os bolsos da população e o cenário de pleno emprego permitirá, em tese, o retorno ao trabalho a qualquer momento.

Entre as queixas relacionadas a condições de trabalho, a falta de creches nas empresas aparece em grande destaque, ao menos nos Estados Unidos, nas entrevistas com mulheres demissionárias. Um casal com renda mensal de US$ 10 mil que tenha dois filhos pequenos chega a gastar US$ 2,5 mil de creche. Feitas as contas, pode ser uma boa escolha a mãe ou o pai parar de trabalhar para cuidar das crianças. Especialmente se o casal foi capaz de poupar o dinheiro do Plano de Resgate Americano, um auxílio emergencial megaturbinado. Em 2020 e 2021, os cheques que essa família recebeu, incluindo a ajuda por cada uma das duas crianças, terão somado US$ 17,2 mil, o equivalente a R$ 98 mil.

Que tal um game entre um Excel e um PowerPoint?

A turma do home office eterno é a dos millennials (26 a 40 anos) e Zs (abaixo de 26). Uma parte expressiva deles está determinada a simplesmente não voltar ao trabalho em escritório. Se essa situação for capital para a empresa, aí é melhor deixar a brincadeira. Talvez porque, até na linha do discurso propagandeado por diversas corporações, o trabalho tem de proporcionar divertimento. E, como está divertidíssimo em casa, vamos manter o esquema de uma partida de Fire Emblem entre um Excel e um PowerPoint da firma.

Se a família existe para dar suporte ao meu ego, por que a empresa em que trabalho haverá de me contrariar?

Os altos executivos ficaram todos pimpões ao defender a construção de uma teia de significados subjetivos para suas marcas. Conquistaram legiões de fiéis com algumas verdades e muitas lorotas. De sua parte, os jovens parecem ter-se arrebatado pela prototranscedência corporativa e esquecido — ou demonizado — conceitos fundamentais do capitalismo, como lucro e interesse dos acionistas. Dado que repudiam o exercício da metafísica em territórios religiosos tradicionais, a empresa tornou-se o grande centro gravitacional da nova espiritualidade. E como, agora, surgirá uma doutrina mundana que tentará se impor à minha alma tão frágil? Se a família existe para dar suporte ao meu ego, se a prioridade da escola foi elevar minha autoestima, por que a empresa em que trabalho haverá de me contrariar?

É claro que muitas companhias — sobretudo aquelas de serviços digitais — comprovaram vantagens do modelo de trabalho remoto e decidiram mantê-lo mesmo depois de vencida a pandemia. A escola de programação Bloom Institute of Technology, a seguradora Lincoln Financial Group e a gestora de transações com criptomoedas Coinbase, por exemplo, aparecem na extensa lista de empresas que passaram a operar no sistema cem por cento home office. Mas a escolha foi cravada em benefício do negócio, não em razão de lamúrias ou surtos de arrogância juvenis.

Por baixo da superfície às vezes arrogante, millennials e Zs declaram que o sentimento mais mobilizador para eles é o medo. Foi o que constatou a psicóloga norte-americana Jean Twenge, professora na Universidade de San Diego. Jean planilhou uma montanha de entrevistas e provavelmente é a especialista em todo o mundo que dispõe do maior volume de dados sobre o comportamento dessas duas gerações. Algumas conclusões: os jovens contemporâneos têm medo de estabelecer vínculos afetivos porque mais tarde um rompimento pode gerar muita dor; o lugar da casa em que mais passam tempo é o quarto, mas isso não tem nada a ver com o exercício da sexualidade — ficam na cama com o celular, jogando ou vendo as redes sociais; declaram-se extremamente ansiosos e dizem já ter experimentado sintomas associados à depressão. Parece razoável presumir que a covid tem potencial para exacerbar todo esse medo.

Parte dos postos de trabalho deixados pelos assustados filhos da classe média abastada dos Estados Unidos vem sendo ocupada por jovens hispânicos e asiáticos em luta por ascensão social. Ainda assim, o país tem 10,5 milhões de vagas à espera de candidatos.

Na Europa, o Big Quit tem merecido atenção permanente no Reino Unido, até por agravar a falta de mão de obra causada pelo Brexit — muitos imigrantes deixaram o país, que contabiliza 1,1 milhão de vagas. A França, curiosamente, não registra números significativos de pedidos de demissão. É possível que a política de despejar dinheiro nas empresas em vez de entregar cheques de porta em porta tenha dinamizado o mercado e estimulado não apenas os empreendedores, mas também os empregados. De todo modo, trata-se de um fenômeno cujas razões e consequências só poderão ser completamente esclarecidas daqui a alguns anos. A escritora e comediante britânica Viv Groskop aposta que a onda é passageira. Em artigo para o jornal Financial Times, diz ela: “A maioria das pessoas é grata às empresas pelos seus empregos. O trabalho foi uma tábua de salvação para muitos de nós durante a pandemia”.


Kaíke Nanne é jornalista. Foi publisher nos grupos Abril, Time Warner e HarperCollins. Atuou como repórter, editor e diretor em diversos títulos, entre eles Veja, Época, Playboy, Claudia e Oeste.

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