Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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Os picaretas da Amazônia

Já passou da hora de o Congresso descobrir o que as ONGs da Floresta Amazônica fazem com o dinheiro público e a que interesses elas atendem

Há décadas, o brasileiro ouve histórias sobre a presença de ONGs (organizações não governamentais) embrenhadas na Amazônia. As teses vão desde um sem-número de ambientalistas fantasmas que desviam dinheiro público a agentes estrangeiros interessados nas riquezas e nas oportunidades da selva inexplorada. Mas quantas são? Quem as fiscaliza? O que se sabe sobre elas? A resposta geralmente é: quase nada.

A primeira informação relevante é que nem o Tribunal de Contas da União (TCU) nem o Congresso Nacional têm um mapeamento de quantas organizações atuam — presencialmente ou não — na Região Norte. O número mais próximo da realidade é 16 mil, segundo um cadastro do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com base em CNPJs (Comprovante de Inscrição e de Situação Cadastral) disponíveis. Mas até os técnicos ouvidos pela reportagem de Oeste desconfiam.

Há boas pistas de que muita coisa errada acontece à sombra da mata. Por exemplo: o TCU tem documentos sobre o repasse de R$ 252 milhões do Fundo Amazônia para 18 ONGs. Quase 85% do dinheiro foi gasto com palestras, livros e pesquisas — algumas sem registro de publicação.

O gestor desse fundo é o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A auditoria diz que os recursos atingiram 160 mil pessoas — isso num universo de mais de 20 milhões de habitantes. Ou seja: provavelmente, a verba não foi usada efetivamente contra o desmatamento nem para socorrer índios ou proteger a fauna e a flora silvestres.

“Empreendimentos florestais não madeireiros”

Um caso bastante suspeito envolve a Fundação Opção Verde. Quem levantou o véu sobre a entidade recentemente foi o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que briga pela instalação de uma CPI para esmiuçar esse universo, mas enfrenta resistência na Casa. Ele reuniu documentos recolhidos em cartórios que sugerem que a ONG seria proprietária de terras no município amazonense de Coari, na beira do Rio Solimões. Na cidade, está localizada a província petrolífera de Urucu, a maior reserva de petróleo e gás natural do Brasil.

De acordo com os documentos que chegaram ao gabinete do senador e ao Ministério Público do Amazonas, a dirigente da ONG teria adquirido mais de 100 mil hectares de terras — o equivalente a 100 mil campos de futebol. No município, contudo, moradores relatam que, como não há demarcação oficial, esse número é subestimado. E poderia ser quatro vezes maior.

O site da ONG informa que a página está “em construção” e indica apenas as informações de contato: um endereço no município de Coari onde consta somente uma placa com o nome da fundação, conforme raras imagens disponíveis na internet (veja abaixo). O telefone divulgado está desativado. Não há perfis nas redes sociais. A busca pelo CNPJ tampouco leva a algum lugar.

“Os aviões para São Gabriel da Cachoeira são praticamente todos ocupados por canadenses. É ali o maior depósito de nióbio do mundo”

O nome da proprietária é Maria Helena Lopes da Costa, mas todas as pesquisas sobre ela indicam se tratar de uma “laranja”, conforme o jargão dos contratos de gaveta. Sabe-se apenas que tem um pequeno escritório contábil para a “preparação de documentos e serviços especializados de apoio administrativo”. É especialista em montar ONGs há 15 anos. Um grupo de holandeses que atua na área de energia e mineração estaria por trás da aquisição de terras, segundo investigações do Ministério Público.

Uma consulta ao Mapa das Organizações da Sociedade Civil, o banco de informações do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), também assusta. Não há um dado sequer disponível: estatuto, missão, onde capta recursos, projetos em curso, nem como surgiu. (clique aqui para conferir).

As únicas imagens disponíveis na internet sobre o que a ONG faz estão abaixo: um curso para a confecção de biojoias e um concurso remunerado sobre “empreendimentos florestais não madeireiros”, em parceria com o Sebrae.

Aluga-se

O senador Plínio Valério também reclama da presença constante de estrangeiros em outras partes da floresta. Em São Gabriel da Cachoeira, onde atua o Instituto Socioambiental (ISA), que tem escritórios em Manaus e Brasília, quase nenhum brasileiro pode pisar hoje em dia por proteção aos índios. Com a pandemia, o acesso ficou impossível, porque até o transporte fluvial foi interrompido na chamada Cabeça do Cachorro.

“Os aviões de carreira para São Gabriel da Cachoeira são praticamente todos ocupados por canadenses. O que eles vão fazer lá?”, pergunta Valério. “Filantropia? É a região dos Seis Lagos, o maior depósito de nióbio do mundo.”

Embora grande parte da mídia tradicional trate casos assim como “teoria da conspiração”, eles não são novos. Em 2007, por exemplo, a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) descobriu que um milionário sueco usava uma ONG chamada Cool Earth para explorar terras no Brasil — algo perto de 160 mil hectares. O sueco promovia uma campanha de arrecadação na internet — por 35 libras era possível ser dono virtual de 2.000 metros de terras amazônicas. Tudo era feito em defesa do desmatamento. A mensagem não era diferente de um discurso do presidente francês, Emmanuel Macron: a Amazônia é do mundo e, se os brasileiros não cuidam dela, devemos ser inquilinos.

A ação da entidade entrou no radar porque um pedaço da área “administrada” ficava em terreno da Força Aérea Brasileira (FAB), na Serra do Cachimbo, no Pará, fronteira com Mato Grosso. Nos arredores, há pesquisas geológicas de reservas de ouro e diamantes. Até hoje o empresário tenta fazer negócios na região, mas o governo monitora.

“Queremos puxar o fio da meada com essa CPI. Estão comprando terras onde não devem?”, afirma o senador Plínio Valério. “O Davi Alcolumbre (ex-presidente do Senado) levou um ano para ler o requerimento da CPI, e agora o Rodrigo Pacheco (atual presidente) vai levar mais um ano para instalá-la. E logo as TVs e os sites vão tentar desqualificar a investigação para proteger as ONGs da Amazônia.”

Caixa-preta

A pergunta “Quantas ONGs existem no Brasil?”, digitada no Google, devolve 3,3 milhões de consultas. É um bom sinal de que o tema suscita curiosidade. E um mal sinal o fato de ninguém ter a resposta. Há dois anos, o IBGE tentou quantificá-las: são pelo menos 237 mil. Mas, dada a quantidade de notas de rodapé e observações no estudo, a própria nota técnica chega à conclusão de que não sabe a resposta. Afinal, nem o instituto tem certeza de quantas estão ativas e quais podem ser enquadradas como ONG.

O fato é que o Congresso Nacional nunca teve interesse em avançar sobre o assunto. A última vez que uma CPI tentou analisar contratos do terceiro setor, em 2006, a apuração acabou em pizza. Na época, a oposição ao governo Lula até conseguiu instalar a comissão no Senado. O foco não era exatamente a Amazônia, mas uma ONG de Jorge Lorenzetti, conhecido como o churrasqueiro de Lula, que havia recebido R$ 18 milhões.

Temerosos, os aliados da ex-ministra Marina Silva aproveitaram a oportunidade para lançar mão do discurso de defesa dos povos da floresta contra ataques da direita ruralista às ONGs. O governo colocou na relatoria o então senador cearense Inácio Arruda, do PCdoB. Ele cuidou da CPI com um legítimo “aparelho”. O parecer final nunca foi votado.

Aliás, imagine se a Rede Sustentabilidade, de Marina Silva e seu discípulo mais estridente, o senador Randolfe Rodrigues, tivesse para investigar o que acontece na floresta deles a mesma fibra que demonstra para surfar em causas midiáticas no Supremo Tribunal Federal? São incontáveis (ainda) os picaretas da Amazônia.

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21 comentários Ver comentários

  1. Há muito tempo essas ONGs operam na Amazônia com o único objetivo: tirar as riquezas, se ninguém fizer nada, logo toda a Amazônia estará a mercê de outros países, isso já está acontecendo em vários pontos da floresta, em que, quem manda lá é o gringo.

  2. Tchê, tu ainda não conhece a operação Maus Caminhos? Desde a lava-jato o meu grupo no facebook acompanha no MPF essa operação que era maior do que a lava-jato. Dá uma olhadinha no site do MPF da região Norte. Ali estão dados que apontam que nossa desconfiança a determinas ONGS tem fundamento. Aliás, até vocês não acompanham muita coisa que corre no judiciário.

  3. Silvio, essa matéria é de deixar qualquer um de cabelo em pé. É revoltante, estamos entregando nossas riquezas, e quando as próximas gerações procurarem só encontrarão as crateras como no garimpo da serra pelada.

  4. A sensação de desalento com o Brasil é imensa……triste sina deste país, onde prosperam os desonestos, hipócritas, interesseiros, antipatriotas.A verdade , a ética, o bem comum não têm lugar nesta terra…e agora mediante a ameaça do retorno de lula e sua quadrilha, aprofunda em nós este sentimento de abandono e tristeza…..Fico pensando nas campanhas mentirosas, caluniosas e perseguição aos conservadores que assistiremos , leremos e ouviremos neste ano de 22, com o intuito de pavimentar a volta do ladrão e sua camarilha.Deus nos ajude!!

  5. Por que o STF não pede ao presidente do Congresso Rodrigo Pacheco se pronunciar em 48 horas a respeito desse requerimento da CPI, como costumeiramente faz com o presidente Bolsonaro e sua equipe de governo?

  6. Pois é Silvio, esse inútil e estridente senador pelo Amapá, estado com pouco mais de 500 mil eleitores, consegue ser acolhido no STF com frequência, em todas as demandas contra o governo Bolsonaro e como sempre vota contra todos as reformas e medidas econômicas e saneadoras relevantes no Congresso e sempre perde, irritadíssimo JUDICIALIZA no STF. É um verdadeiro despachante dessa Corte.
    Silvio, verifiquei que esse inútil Randolfe votou contra as reformas trabalhista, previdenciária, MP871 de combate às fraudes da previdência que vão poupar aos cofres públicos mais de R$200 bi em 10 anos, e pasmem, o Marco Legal do Saneamento Básico, que solucionara o grave problema da sua capital MACAPÁ, a cidade que é a pior em saneamento entre 100 cidades brasileiras.
    Seria interessante apresentar aos leitores e ao público do bom jornalismo da revista oeste, jovem pan, gazeta do povo e outras mídias idôneas, a produção legislativa desse inútil.

  7. Parabéns Navarro por trazer à tona esse acinte que são as ONG da Amazônia. As investigações não avançam pelo simples motivo de envolver ratazanas graúdas da política da Região Amazônica.

  8. A reação do André Trigueiro à demissão da gestora do Fundo Amazônia dá uma pista dos interesses do Global no meio ambiente.

  9. Estamos sendo roubados diariamente pelos europeus! Toneladas de ouro e madeira extraídos ilegalmente da Amazônia vão para a Europa. Depois esses Macrons e Gretas da vida vem posar de defensores da floresta amazônica. Não passam de hipócritas.
    E os políticos, que se recusam a investigar aonde vai parar essa dinheirama toda dada para essas ONGs de fachada, estão de conluio com os europeus.

  10. 85% de 252 milhões = 214 milhões em palestras ! TCU, stf : os senhores tão atuantes em causas diversas….., nem um piu ? ; Senadores e Deputados do região Amazônica que tanto clamam por $$ e + $$ : seus quintais estão sendo sacados, vcs estão dando $ para Organizações que nem sabem o que fazem. É inocência d+ ou estão todos envolvidos na gatunagem ?

  11. Ótimo artigo, mas o pior, como sempre, é que existem organizações sérias que são arrastadas para o ralo dessa sujeira e esculhambação.

  12. Se só o fato de reportagens sobre ONGs da Amazônia evidenciarem a nossa ignorância sobre o tema que já é de assustar, imagino se realmente tiver uma CPI e mostrar a realidade. Talvez ocorra um despertar geral, assim como na descoberta do maior esquema de corrupção do mundo e todos passaram a se interessar mais pelo assunto 🤔

  13. é inacreditável que não exista um único comentário sobre as 16 mil prováveis ongs na região Amazonas. Não é possível esse desleixo do nosso Presidente que é tão zeloso
    por tudo o que se passa no nosso Pais. 16 mil ? quem cuida do que eles estão fazendo dentro de nossas terras? Urge o governo tomar providências urgentes.

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