Projeto Horta Social Urbana, do Instituto ARCAH | Foto: Divulgação
Projeto Horta Social Urbana, do Instituto ARCAH | Foto: Divulgação

Plantando o futuro

Por meio de projetos como a Horta Social Urbana, o Instituto ARCAH mostra um caminho para enfrentar o flagelo da população de rua: investir na autonomia do indivíduo

Baiano de Salvador, Joseval, de 42 anos, chega todos os dias com uma hora de antecedência ao trabalho, por volta das 7 horas. Às 8 horas, já está capinando, roçando e plantando na Horta Escola, um dos projetos da Associação de Resgate à Cidadania por Amor à Humanidade (ARCAH). Depois de cinco meses vivendo nas ruas de São Paulo, cidade à qual chegou há 20 anos, este soteropolitano mostra, orgulhoso, as mãos calejadas pelo contato com a terra e fala com entusiasmo sobre a atividade que lhe  possibilitou voltar a ter uma residência fixa. Ele mora sozinho em uma pequena casa com quarto, banheiro, cozinha e sala, no bairro de Americanópolis, na região de Cidade Ademar, extremo sul da capital paulista. Costuma levar alimentos plantados na horta para os vizinhos. Me sinto bem aqui”, disse. “É a profissão que escolhi para mim. Nunca sonhei em aprender alguma coisa. Aprendi e estou aqui até hoje.” 

A aposta é na capacitação pessoal e profissional

Fundado em 2012, o Instituto ARCAH é uma organização da sociedade civil que resgata pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social, oferecendo assistência psicológica e formação em áreas da agronomia. 

O empresário Filipe Sabará, de 38 anos, é o fundador. Ele foi secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social da capital paulista — pasta que atende 2,4 milhões de pessoas diariamente, não só em situação de rua — e comandou o Fundo Social de São Paulo, órgão de filantropia do Estado. “É um tabu isso que muitos dizem que a maioria não quer deixar a rua”, afirma Sabará. “Arriscaria dizer até que todos querem sair da rua. Ninguém gosta de dormir com a orelha no asfalto.” Ao contrário de grande parte das organizações não governamentais (ONGs) que atuam na área, a ARCAH se contrapõe às políticas assistencialistas tradicionalmente adotadas para lidar com o problema. A aposta é na capacitação pessoal e profissional e no fortalecimento da autonomia do indivíduo. 

Jornada da Autonomia

O principal projeto da ARCAH, que dá sustentação aos demais, é a Jornada da Autonomia, composta de cinco etapas: abordagem, acolhimento, capacitação, emprego e moradia (saiba mais detalhes no gráfico abaixo). O primeiro passo é o contato inicial com o indivíduo em situação vulnerável, geralmente nas ruas, mas também em favelas e albergues — atendendo o público chamado de “pré-rua”. O acolhimento inicialmente era feito em fazendas da ARCAH — uma em Cotia e outra em Araçariguama (SP) —, onde as pessoas moravam por três anos. Atualmente, essa etapa acontece nas Hortas Sociais Urbanas, para facilitar a ressocialização e estar em sintonia com um movimento que hoje é muito mais urbano do que rural. “As pessoas já vieram do campo para a cidade. Você levá-las de volta ao campo foi bom, mas há um problema e um desafio enormes depois, na ressocialização urbana”, explica Sabará.

Na fase de capacitação, os interessados em participar do processo frequentam a Academia Socioambiental da ARCAH (ASA), na qual fazem um curso de agroecologia com duração de 15 semanas. Depois de formados, os alunos que mais se destacam ou se identificam com a atividade agrícola são contratados para trabalhar nas hortas urbanas da ARCAH. Os demais são direcionados a outros empregos em instituições parceiras, como McDonald’s, Expo Center Norte, bares, restaurantes e supermercados. Nos últimos dois anos, foram 100 pessoas formadas. A taxa de empregabilidade é de cerca de 30%. “A Horta Social Urbana ajuda a financiar toda essa estrutura e o salário dos nossos funcionários, que estavam nas ruas”, destaca o fundador da ARCAH. 

O último passo é conquistar a moradia própria. Com o salário que recebem, seja trabalhando nas hortas seja em outras empresas, os formados têm condições de pagar por um aluguel. Em vários casos, há um estágio de transição em uma república. “O problema só pode ser resolvido por meio da autonomia”, afirma Sabará. “Ninguém vai entrar na vida do outro para fazer a pessoa andar com as próprias pernas. A autonomia é construída por eles, e a gente ajuda nesse processo.”   

O diretor da Horta Social Urbana da ARCAH, Rodrigo Flaire, de 35 anos, reforça a necessidade de abordar a questão dos moradores de rua como um problema que exige soluções integradas. “Para falar de autonomia, precisamos tratar de renda e moradia”, diz. Depois de formados no curso da ARCAH, os alunos que chegam ao mercado de trabalho são acompanhados por pelo menos seis meses. “No começo, esse acompanhamento é feito de forma mais intensa, uma vez por semana; depois, uma vez a cada 15 dias. Isso traz mais segurança para o empregador”, explica Flaire.  

Horta Comercial

As principais hortas da ARCAH ficam em espaço concedido pelo governo do Estado de São Paulo e administrado pela empresa francesa GL Events, que gere o centro de convenções São Paulo Expo. A companhia cedeu parte do espaço ao instituto, que desenvolveu duas hortas no local: a Horta Escola (onde trabalha Joseval) e a Horta Comercial. Em funcionamento desde 2017, as duas, somadas, contam atualmente com 11 funcionários. Há outras cinco hortas urbanas na cidade de São Paulo. Uma delas, inaugurada em novembro, fica no topo do Shopping Parque da Cidade, no Morumbi, em São Paulo.

O projeto é sustentado por clientes como o Grupo Pão de Açúcar, que recebe da ARCAH cestas diárias de alimentos. Também há um serviço de entrega por meio de um restaurante próprio, o SOS Salada, disponibilizado pelos principais aplicativos (Rappi, iFood e Uber Eats). Por fim, existe a venda de assinaturas de cestas orgânicas. A cada semana, o cliente recebe uma cesta diferente, composta de produtos que normalmente não são encontrados com facilidade nas prateleiras dos supermercados — como acelga bolshoi, couve-de-bruxelas, couve-flor laranja, nabo roxo, entre outros. A certificação dos orgânicos é feita por outra empresa francesa, que realiza auditorias, visita fornecedores e analisa todas as etapas do processo. 

Mudança de perfil

O drama dos moradores de rua em uma cidade como São Paulo se agravou muito com a pandemia de covid-19. O último Censo da População em Situação de Rua, divulgado em 2020 com dados referentes a 2019, revela que a maior cidade do país tem quase 25 mil pessoas sem teto. A maioria é formada por negros (perto de 70%) e homens (85%). Estimativas mostram que o contingente de moradores de rua em São Paulo aumentou significativamente durante a pandemia de covid-19 e pode ter dobrado, aproximando-se de 50 mil pessoas. 

Segundo Flaire, além de acentuar um problema que já era dramático, a pandemia levou ao início de um processo de mudança do perfil dos moradores de rua em São Paulo. “Quando você analisa os dados do censo, vê uma população majoritariamente não branca, não escolarizada”, diz Flaire. “Na última turma, recebemos duas pessoas com formação superior. Essa é uma característica não muito comum dessa população.” 

De acordo com o diretor da Horta Social Urbana, ainda há muita estigmatização em relação aos moradores de rua. “As pessoas criam o estigma de imaginar que a pessoa está ali há anos, no mesmo quarteirão, sem tomar banho, sem cortar cabelo, etc. É claro que essas pessoas existem, mas não são a maioria. A maioria é formada por gente como Joseval, que precisa de uma oportunidade.” 

A abordagem dos moradores é feita em grande parte nos centros de acolhida oferecidos pela prefeitura. “Quando a pessoa decide ir para um centro de acolhida [ou albergue], significa que ela entendeu que a rua tem mais malefícios do que benefícios”, explica Flaire. “O centro de acolhida não é um resort. Sabemos das fragilidades de muitos equipamentos. Mas não dá para comparar com a rua.” 

A passagem por centros de acolhida ou albergues antes de chegar à ARCAH é importante, para que o morador de rua entenda que está em processo de evolução e não deve retroceder. “Se a pessoa está em um centro de acolhida, a rede pública vai auxiliá-lo em todos os encaminhamentos. Para que eles cheguem aqui com um mínimo de organização, e a gente consiga encaminhar para o mercado de trabalho”, afirma Flaire. 

A corrida de Joseval

Antes de chegar a São Paulo, em 2001, Joseval peregrinou por outras regiões do país em busca de uma vida digna. Ele não teve problemas com droga nem álcool, como grande parte das pessoas que em algum momento se veem obrigadas a viver na rua. A questão mais sensível foi de cunho familiar. “Meu problema foi mais com a família. Brigas com os meus irmãos, depois perdi minha mãe… Quando eu perdi a minha mãe, já estava na rua. Corri muito atrás de serviço. Fui para Minas, até para o Acre já fui”, recorda. 

Na ARCAH, além do trabalho na horta de segunda-feira a sexta-feira, Joseval aproveita o fim de semana para correr. Ele treina todos os domingos em uma pista de atletismo perto de casa e tem um objetivo traçado: disputar a tradicional Corrida de São Silvestre, no dia 31 de dezembro, pela quarta vez — a última foi em 2019. “Já corri a São Silvestre, inclusive quando eu trabalhava no Pão de Açúcar, que apoiava todo ano. Agora quero participar de novo neste ano”, afirma. 

Por meio do trabalho, o sonho de Joseval se torna cada vez mais real. Trata-se de um processo longo, contínuo. Apesar das dificuldades, Filipe Sabará é otimista. “Tem um caminho para você resolver esse problema dos moradores de rua”, afirma. “Ele é complexo, demanda ações sistêmicas. Mas existe, sim, solução.”

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6 comentários Ver comentários

  1. Quando inventaram que o Estado devia fazer ações sociais a coisa só degringolou. O Estado é ineficiente por definição.

    Que iniciativas privadas possam cada vez mais desempenhar esse papel.

  2. Ótimo artigo. Parabéns. Mostra que com determinação, boa vontade e perseverança pode-se ajudar o próximo. Ensinando-o a pescar e não somente dando o peixe.

  3. Entendo que a ARCAH deveria convidar esses defensores públicos e falsos religiosos que abraçam a miséria, assim como ONGs que alimentam e fazem prosperar a quantidade de desamparados, a conhecer esses projetos e a desenvolver orientação para o planejamento familiar com amparo do serviço de saúde pública. É muito insano argumentar contra a orientação ao planejamento familiar, e ver cada vez mais, crianças sem roupas e sem qualquer higiene, se alimentando e convivendo com animais e com a poluição. Isso sim é desumano senhores caridosos religiosos e defensores públicos. Sejam mais verdadeiramente humanos.

  4. Poxa, é de emocionar ao leitor. O problema crônico das cidades, principalmente das grandes cidades, o êxodo rural e o sonho de riqueza, agora com uma solução organizada e humanizante. Até vontade de me voluntariar passou. Acredito que será a solução para os moradores de rua nas grandes cidades. Desejo os melhores votos.

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