Ilustração: Shutterstock
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Metaverso: muito além do Facebook

Considerada a nova internet 3.0, essa realidade virtual já movimenta milhões de dólares pelo mundo

Apesar de ter ganhado notoriedade com o Facebook, o metaverso é um conceito bem mais antigo que a rede social fundada por Mark Zuckerberg em fevereiro de 2004. O termo surgiu há 30 anos, no livro de ficção científica Snow Crash, escrito pelo romancista Neal Stephenson. Em linhas gerais, o metaverso é um mundo virtual que imita a realidade. Ele é hospedado em sites na internet e aplicativos de celular. No metaverso, as pessoas interagem entre si através de avatares (bonecos personalizados que representam a pessoa nesse universo).

Ao enxergar vantagens nesse mercado em formação, Heitor Fonseca, de 28 anos, trocou a carreira jurídica pelo metaverso e passou a investir no mundo virtual. “Comprei um ‘terreno’ por US$ 400 em fevereiro de 2021 e o vendi por US$ 6 mil (R$ 30 mil, na cotação atual) em novembro do mesmo ano”, contou Fonseca. A transação aconteceu na plataforma Ember Sword, um jogo de computador que se passa na era medieval.

Nesse jogo, não há uma história com começo, meio e fim nem um objetivo a ser alcançado. O enredo é definido pelos jogadores, que podem se enfrentar em lutas com espadas ou apenas colaborar para a construção de um castelo ou uma casa. Se o personagem “morrer” no jogo, ele pode “ressuscitar” e continuar jogando. Fonseca ainda tem outro terreno, avaliado em US$ 8 mil, no Ember Sword. O jogo será lançado só no segundo trimestre deste ano, mas as vendas das propriedades começaram com um ano de antecedência, para que o jogo esteja pronto na data.

Facebook Horizon Workroom | Foto: Divulgação

Nesse universo de fantasia, os usuários poderão criar personagens, escolher uma “nação” e se aventurar no mundo misterioso. Mas para que um terreno num mundo fictício? Os “terrenos” serão palco do enredo e caberá aos donos modificar essas “terras” com árvores, lagos e castelos, entre outros objetos virtuais. Uma das ideias é atrair mais jogadores e tornar sua propriedade rentável, para, no futuro, vendê-la por um bom preço ou trocar por outras coisas.

Terreno do jogo Ember Sword | Foto: Divulgação

Com a finalidade de orientar quem não sabe o caminho das pedras, Fonseca abriu uma consultoria, em que também ensina como investir no metaverso e gerir ativos digitais. No mundo dos jogos, por exemplo, o público a ser conquistado é grande. Aproximadamente 3 bilhões de pessoas jogam video game — quase metade da população mundial. Trata-se de um mercado que deve girar US$ 220 bilhões em 2024, segundo a empresa de dados Newzoo.

Fonseca não é o único que vê potencial no metaverso. A empresa brasileira VRGlass desenvolve óculos de realidade virtual e ambientes imersivos. Essas “realidades” podem ser acessadas tanto pelo produto, como por computadores, celulares e tablets. Em 2020, com o início da pandemia, a VRGlass elaborou a Virtual Town (Metrópole Virtual), uma plataforma que cria, customiza e gerencia metaversos. Por meio dela, empresas como Oracle, NBA e Roca vêm oferecendo produtos digitais.

Para a VRGlass, o metaverso ganhou força durante o isolamento social e abrangerá outras áreas. “As pessoas entenderam que podem trabalhar, realizar treinamentos, estudar, fazer compras, participar de eventos, além de muitas outras atividades sem sair de casa”, observou Guilherme Seder, diretor de inovações da VRGlass. “Melhor ainda, podem fazer tudo isso de qualquer lugar no mundo. Hoje, é perfeitamente possível ter mais tempo com a família sem abrir mão de compromissos profissionais.”

Em novembro, um iate foi vendido no metaverso por US$ 650 mil

Segundo o executivo, está claro para as empresas que investir nesse segmento é bastante promissor. “Afinal, não estamos falando de uma tendência, mas de algo que já está aí, fazendo parte da vida de muita gente, seja no game, no evento, no e-commerce, em reuniões de trabalho, entre outras atividades do cotidiano.”

Para além dos video games e do Facebook

O metaverso está extrapolando o universo dos video games e das redes sociais de Mark Zuckerbeg. Em novembro, o fundo de investimentos imobiliários Republic Realm, com sede em Nova Iorque, surpreendeu ao vender um “iate” no metaverso por US$ 650 mil (R$ 3,6 milhões, na cotação atual). O Metaflower Super Mega Yacht é descrito como um iate luxuoso, com cabine de DJ, dois helipontos e uma banheira de hidromassagem, entre outras comodidades. Nesse iate, os avatares podem interagir entre si e desfrutar dos luxos da embarcação por meio de um aplicativo de celular. O comprador não foi revelado.

No mês seguinte, o Republic anunciou um acordo de US$ 4,3 milhões para comprar terrenos digitais para a construção de um shopping center no The Sandbox, um dos vários sites de mundo virtual do metaverso. O Republic tem ainda um terreno no site Decentraland, em que também fez um centro comercial chamado Metajuku, aludindo ao shopping japonês Harajuku — que existe na vida real. Nele, o Republic aluga boxes, de modo que os lojistas possam vender suas mercadorias. Os usuários daquela realidade precisam de dinheiro de verdade para adquirir as roupas virtuais que serão utilizadas por seus avatares, para ficarem bonitos ao interagir com outros clientes daquele universo.

Um mês antes, a empresa canadense de criptomoedas Tokens.com desembolsou US$ 2,4 milhões em um “bairro” chamado Fashion Street. Também localizado na Decentraland, a empresa quer abrigar lojas virtuais de marcas de luxo da vida real.

Essas iniciativas chamaram a atenção das marcas. A Adidas, por exemplo, conseguiu arrecadar mais de US$ 22 milhões (cerca de R$ 125 milhões) com a venda de seus produtos virtuais no metaverso só em dezembro do ano passado, entre eles, tênis e meias estilizados. Das 30 mil mercadorias disponibilizadas, só sobraram 380.

O site de dados Dapp informou que, em dezembro de 2021, foram vendidos terrenos virtuais que somam US$ 100 milhões nos quatro principais sites do metaverso: The Sandbox, Decentraland, CryptoVoxels e Somnium Space. Os lotes se esgotaram em poucas horas.

Ainda no mundo da moda, outras marcas também migraram para o metaverso, mas de olho no tradicional e-commerce. Prada e Farfetch testaram provadores com tecnologia de realidade aumentada, possibilitando ao cliente “provar” roupas em manequins com as medidas do próprio usuário. O objetivo é diminuir as trocas de objetos reais que vão chegar na casa do cliente. Gucci, Ralph Lauren e até a Renner seguiram o mesmo modelo e criaram mundos virtuais para a venda de roupas.

Provador virtual das lojas Renner | Foto: Divulgação

Até mesmo a Lacta lançou uma loja no metaverso, em 10 de dezembro. Por meio de um site desenvolvido em parceria com a empresa de tecnologia ByondXR, os clientes têm a experiência de visualizar prateleiras e andar pela loja, como fariam em um ambiente físico. Tudo é feito clicando e arrastando cada seção. A ideia é que o canal funcione como uma versão virtual da loja on-line sazonal que a marca mantém durante a Páscoa — só que, dessa vez, com um site que fica disponível o ano todo. E com os 79 produtos da marca.

Loja virtual da Lacta | Foto: Divulgação

A Microsoft é outra companhia que aderiu ao metaverso, ao lançar a plataforma Mesh. Com foco no mercado corporativo, a Mesh vai permitir que empresas criem os próprios metaversos, em que os funcionários podem interagir em um universo virtual, seja em reuniões de trabalho, seja em happy hours. Além disso, a Mesh vai proporcionar suporte para tradução e transcrição de reuniões. Assim, será possível conversar com colegas de trabalho de diversos países sem se preocupar com o idioma.

O foco da Microsoft é usar o metaverso para criar uma realidade mista, na qual pessoas podem simular eventos do mundo real com a segurança do mundo virtual. Assim, profissionais podem errar quantas vezes quiserem, analisar situações de diferentes ângulos, prever acidentes e interagir com coisas sem que elas sejam tangíveis na realidade. A tecnologia deve funcionar em smartphones, computadores e na realidade aumentada, com óculos 3-D.

A engenharia por trás dos bytes e os desafios do metaverso

Cada ativo no metaverso — terrenos, roupas para avatares, entre outros produtos — custa dinheiro, seja físico seja criptomoeda. Além disso, esses bens têm registro de propriedade e podem valorizar com o tempo. Portanto, já há um mercado em gestação nessa área, embora ainda careça de aperfeiçoamento.

Essa “economia digital” é possível porque cada ativo do metaverso possui uma espécie de título de propriedade, chamado NFT (“token não fungível”, na sigla em inglês). Fazendo um paralelo com o mercado imobiliário, um NFT é como a escritura de um imóvel, mas com algumas diferenças:

  1. a primeira é que ele é basicamente uma sequência de letras e números, e não um documento físico;
  2. a segunda é que não há necessidade de ir a um cartório para registrá-lo. Isso porque um NFT fica guardado em uma blockchain, um grande banco de dados que nasceu com o bitcoin no fim de 2008.

As transações com a maioria dos NFTs, bem como a posse deles, estão registradas na blockchain Ethereum, a rede que hospeda ether, a segunda criptomoeda mais usada no mundo (a primeira é o bitcoin). Isso faz com que NFTs e Ethereum estejam numa posição vantajosa para se tornarem a espinha dorsal do metaverso, o que poderia legitimar as criptomoedas como forma de pagamento, acelerando a aceitação delas pelo público em geral.

Franklin Melo, especialista em Tecnologia da Informação, avalia que o metaverso veio para ficar, mas pondera que a consolidação desse mercado ainda vai demorar um pouco. Ao analisar o Brasil, o especialista ressalta a importância da implementação do 5G.

“Com o 5G, teremos maior capacidade de processamento de dados e velocidade, o que vai tornar as imagens do metaverso mais realistas, por exemplo”, disse. “Como toda novidade, o metaverso vai precisar de uma infraestrutura, que leva tempo”, avaliou, ao mencionar o custo de equipamentos tecnológicos, como óculos 3-D e demais aparatos da realidade aumentada, que ainda são caros. “O metaverso é a ‘nova internet 3.0’”, afirmou. “Com o tempo, vamos ter de nos adaptar a ele.”

Leia também “O império Facebook está derretendo”

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9 comentários Ver comentários

  1. Quem me garante que essas “vendas e compras” de terrenos e iates etc, não são combinadas entre as partes para gerar interesse e credibilidade. É bom lembrar que grandes investidores mundiais trilionários são sócios em quase tudo. Nada custa entre eles gerar um cenário de comércio para atrair mentes comuns que, aí sim, vão começar a colocar dinheiro real para a coisa decolar? Existem camadas e camadas neste mundo de meu Deus que não aparecem para os simples mortais. Maçonaria, por exemplo, é algo que penetrou muito nas nações.

  2. Sou um sexagenário com muita vontade de viver muito para poder ver ao máximo onde a humanidade vai parar (ou não). Mas não me digam que isso proporcionará mais tempo com a família, isso não, porque cada um estará no seu metaverso, ainda que sob o mesmo teto.

    1. Concordo com o senhor Paulo. E ainda acho que a humanidade não quer mais viver o mundo real, precisa criar seu mundo de fantasia e não quer mais sair dele. Por isso essa geração está tão infantilizada, não aceita frustrações, se ofende com qualquer coisa. O mundo virtual é perfeito para os fracos que podem morrer e ressuscitar quanto quiserem.

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