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Rússia X Ucrânia – De que lado você está?

O mundo mudou muito nos últimos 30 anos, mas Vladimir Putin parece não ter percebido

Não sabemos se a Rússia vai invadir a Ucrânia. Ou se vai empilhar forças na fronteira para conseguir concessões. Ou se vai fazer um ataque parcial para deixar o país fragilizado e assim instalar um regime obediente a Vladimir Putin, como o da vizinha Bielorrússia.

Teremos uma guerra mundial, um holocausto nuclear, o fim da civilização? É improvável. Tudo será resolvido pela diplomacia? Teremos uma acomodação? Esse conflito vai levar a uma nova era de paz na Europa? Não sabemos nada. Conflitos internacionais não têm spoilers.

A Ucrânia, atualmente governada pelo presidente Volodymyr Zelensky, quer ser parte do “mundo ocidental”. Deseja seguir as regras de uma economia de mercado e se alinhar à Comunidade Europeia. Antes de tudo, quer deixar de ser um puxadinho da Rússia, como durante o período dos czares e da União Soviética.

Vladimir Putin acha tudo isso inaceitável. E tem seus apoiadores pelo mundo, inclusive no Brasil. Um vídeo divulgado pela agência russa de notícias Sputnik mostra uma longa e indignada resposta de Putin à jornalista britânica da SkyNews Diana Magnay. O vídeo se tornou uma peça de propaganda do governo russo. Aqui vai um resumo:

“Dissemos claramente que a futura expansão da Otan em direção ao leste é inaceitável. Será que não deu para entender? Somos nós que colocamos mísseis junto das fronteiras dos EUA? Não, foram os EUA que vieram com seus mísseis para perto de nós. Os mísseis estão na porta de nossa casa. Como os americanos reagiriam se colocássemos nossos mísseis na fronteira entre o Canadá e os EUA, ou na fronteira do México com os EUA? Disseram para nós que não avançariam nem 1 centímetro para leste, nos anos 1990. E acabaram nos enganando. Foram cinco ondas de expansão da Otan. Nos anos 1990, a URSS fez de tudo para ter relações normais com os EUA e o Ocidente. Vocês deveriam ter encarado a Rússia como um provável aliado. Mas, não, foi tudo ao contrário. Uma tentativa de nos destruir ainda mais”. 

Esse discurso foi feito a uma jornalista, como se ela fosse pessoalmente responsável pela expansão da Otan. Uma câmera a focalizou em close permanente num enorme monitor, numa atitude de claro constrangimento. É assim que funciona. 

Putin, o herói

Vladimir Putin tem seu fã-clube entre pessoas que se consideram “de direita”. Ele seria um campeão da causa conservadora pelo jeito como defende a instituição familiar (e pela maneira como despreza homossexuais, por exemplo). Por outro lado, os países ocidentais estão passando por um momento especialmente infeliz. O autoritarismo irracional com que a maioria deles agiu (e continua agindo) durante a pandemia de covid é injustificável. A adesão de muitos desses governos a pautas típicas da esquerda — com relação a identidades sexuais, imigração e o chamado globalismo — marcaria essa nova divisão ideológica do mundo. Numa virada radical, o Ocidente — Europa, EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia — seria a nova “esquerda”. E a Rússia de Vladimir Putin, a nova “direita”, a resistência contra os “interesses financeiros do capitalismo”, contra os malvados expansionistas de Washington e Londres. 

Vamos, portanto, torcer pela Rússia nesse conflito? Vamos esperar que as tropas russas invadam a Ucrânia e deem uma lição nesses traidores que eram unha e carne com Moscou e agora se venderam ao imperialismo ianque? Quem é contra o esquerdismo do partido de Joe Biden deve então vestir a camisa de Vladimir Putin? É o inimigo do meu inimigo? É assim que funciona? De que lado você está?

A exportação do caos

Se a Otan chegou até a fronteira da Rússia, é porque os países europeus estão se sentindo ameaçados pela… Rússia. República Tcheca, Hungria, Polônia, Bulgária, Romênia, Eslováquia, Eslovênia — todos passaram 45 anos (1945-1991) sob domínio soviético e não querem repetir a experiência. A Geórgia, que fez parte da URSS, também não. Os pequenos países bálticos (Estônia, Latia, Lituânia) vivem sob a ameaça permanente de uma invasão por tropas de Putin. Até países que eram militarmente neutros, como a Finlândia e a Suécia, estão apressando sua entrada na Otan, com medo da agressividade russa. 

Putin não teme os mísseis da Otan. Ele teme a liberdade

Ninguém os obriga a isso. São todos governos democráticos, com eleições livres. Mas liberdade e democracia não parecem ter a menor importância na equação dos admiradores de Putin. Livre mercado também. Isso é ser “de direita”? O que é ser “de direita” a essa altura do campeonato? 

Vladimir Putin hoje usa táticas típicas de um Nicolás Maduro — seu aliado — para nunca mais sair do Kremlin. A última pessoa que o desafiou para uma disputa democrática, Alexei Navalny, foi envenenado e jogado numa cela de prisão. Boris Yeltsin tentou transformar a Rússia num país democrático, com economia de mercado. Esse sonho acabou quando Vladimir Putin assumiu o poder, em 2000, distribuiu a riqueza do país entre seus amigos e decidiu que nunca mais deixaria o poder. Hoje, o “herói antiglobalista” tem como aliados a China e ditaduras como as que dominam Cuba, Venezuela, Bielorrússia e Síria.

A doutrina Putin

Um dos seus apoiadores mais fiéis, Vladislav Surkov, afirmou, em novembro do ano passado, que “a única maneira de a Rússia poder escapar do caos é exportar o caos para um país vizinho”. Putin não suporta a ideia que a Ucrânia tenha resolvido assumir seu próprio destino, quando milhões de cidadãos tomaram as ruas de Kiev na chamada “Revolução Laranja”, de 2004. 

Putin não teme os mísseis da Otan. Ele teme a liberdade. Ele teme a visão de Alexei Navalny, segundo a qual a Rússia não devia insistir em ser um império, mas apenas um país civilizado, um Estado a serviço do povo. Putin prefere a ilusão de um império em expansão, de um povo obediente aos seus pés, de um palácio no Mar Negro. 

“Chame de ‘Doutrina Putin’”, escreveu Angela Stent para a Foreing Affairs. “O elemento central dessa doutrina é fazer com que o Ocidente trate a Rússia como se fosse a União Soviética, uma potência a ser respeitada e temida, com direitos especiais em sua vizinhança e voz em todos os assuntos internacionais sérios. A doutrina sustenta que apenas alguns Estados devem ter esse tipo de autoridade, junto com soberania completa, e que outros devem se curvar aos seus desejos. Implica defender regimes autoritários em vigor e minar democracias. E a doutrina está ligada ao objetivo abrangente de Putin: reverter as consequências do colapso soviético, dividir a aliança transatlântica e renegociar o assentamento geográfico que encerrou a Guerra Fria.”

De cada janela, um tiro

Seguindo sua doutrina, Vladimir Putin se dá o direito de estuprar a Ucrânia a qualquer momento. Ele sente saudade do Pacto de Varsóvia, que era o equivalente à Otan no bloco soviético. O pacto se caracterizou por invadir seus próprios membros, quando se tornavam rebeldes — a Hungria, em 1956, e a Tchecoslováquia, em 1968. Segundo Angela Stent, que hoje trabalha no Brooking Institute, Putin quer dividir o mundo em três “donos” — EUA, Rússia e China. Pretende que a metade oriental da Europa volte a ser o quintal da Rússia, com o pretexto de “garantir sua segurança”. “É possível que um conflito militar seja evitado desta vez”, completa Angela Stent. “Mas, enquanto Putin estiver no poder, sua doutrina também estará.”

Os ucranianos sabem que não são páreo para as Forças Armadas da Rússia. Mas prometem que a tarefa não será um passeio para os invasores. Depois que os russos abocanharam a Crimeia, em 2014, a população resolveu se preparar melhor para um novo ataque. Conforme declarou um oficial ucraniano, os tiros partirão “de cada janela”. Um cálculo malfeito do “czar” pode enfiar a Rússia num pântano parecido com o que devorou os soviéticos no Afeganistão, entre 1979 e 1989. E precipitar o fim de seu poder, hoje supremo.

“Putin diz que seu país está ameaçado”, resumiu a revista britânica The Economist. “Não está. A Otan é uma aliança defensiva. Mesmo depois da Crimeia, ela se conteve de colocar forças de combate permanentes na Europa Oriental. A verdadeira ameaça é Putin. Quando ele emite suas exigências no cano de uma arma, isso deve fortalecer a determinação tanto do Ocidente quanto dos resilientes ucranianos de detê-lo e resistir a ele.”

Clique nas câmeras para ver imagens ao vivo da Ucrânia:

Leia também “Por que as ditaduras não caem mais”

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17 comentários Ver comentários

  1. Rússia, China, Venezuela, Cuba, Coreia do Norte, Síria, Vietnã não podem ser. O mesmo é termos os partidos de esquerda no Brasil. TODOS, sem exceção, irão, em nome da “revolução proletária” (como se tal apocalipse não acontecer, o TRABALHO vai deixar de existir), escravizar, irão mentir, retirar as liberdades individuais e de pensamento, o diteito à propriedade privada, a livre concorrência e o comércio. Irão criar oligopólios economicos e politicos. E culminar nas ditaduras assassinas e espoliadoras. E então, de que lado você está?
    Em tempo, pela soberania da Ucrânia e Taiwan!

  2. Para início de conversa, a Otan não é uma aliança tão defensiva assim. Se a Ucrânia quiser ingressar na economia de mercado, realizar “paradas gay” ou protestar contra o aquecimento global e as mudanças climáticas, tudo bem! Moscou não está nem aí. O que não pode é que os chamados países conhecidos como “sacos de areia” da Rússia queiram aumentar o poder e a influência da Otan no Leste Europeu. Isto é assim desde os tempos em que Moscou e São Petersburgo alternavam-se como capital da Mãe Rússia. Dificilmente, o mundo voltará a entrar em guerra por causa disto. Mas, é bom que a União Européia e os Estados Unidos tratem de reconstruir suas economias, combalidas devido à pandemia, e incitem seus governantes a sairem de suas bolhas e se esforçarem para que a democracia em seus países seja restaurada.

  3. Não existe essa história de aliança defensiva. Existem forças Armadas de cada lado. A Rússia passou por um período de fraqueza militar e a OTAN se aproveitou para ir bater na porta da Rússia. Putin restaurou o poder militar russo e quer reverter parte dos danos. Isso vale para a China que passou de um capacho dos europeus e japoneses para uma superpotência comercial, científica e militar. Não tem bonzinhos no mundo.

  4. A situação não é tão confortável para o Brasil que integra os BRICS, penso que o Brasil deva continuar jogando diplomaticamente o quanto mais possível. A visita do presidente deve continuar marcada e se realizar, por trás disso tudo, tem questões que não interessam ao Brasil. Por que deveria se manifestar?

  5. porque´o Sr. Marchesi não explica quais são os interesses pessoais das familias Biden e Clinton na Ucrania?????
    evidentemente ele não sabe, pois , se soubesse ……………………….
    cansa ler os inuteis artigos prolixos do sr. Marchesi.
    Tem flor de jornalistas investigativos na Europa ( mas não so ) que poderiam explicar ao respeitavel publico da Revista Oeste o que realmente esta´acontecendo por la´.

  6. Puttin quer 3 blocos : EUA, China e Rússia. Em qual deles, nós, estaremos inseridos? Façam suas apostas. Eu chuto a China. Brincadeiras a parte, vivemos momentos sinistros.

  7. Acho que a Diplomacia deveria cancelar a visita do nosso Presidente à Rússia. O clima não é favorável, além do que iria aumentar o desgaste junto à oposição e parte da mídia.

      1. Caríssimo Sr. Marquezi, bom dia.
        O País Báltico Latia, não o localizei, nos que compõe, no mar Báltico.
        Favor me ajudar em sua localização.
        Grato.
        Caldeira Júnior.

  8. Para entender essa treta vai ter que pesquisar a vergonhosa campanha feita pela União Europeia para estrangular economicamente a Rússia. Desde sempre. Sem esse cabedal de informações você é só mais um inocente útil desse jogo mesquinho que no momento está sendo útil para encobrir os crimes do Fauci e do Bill Gates. Acorda, Mané!

  9. SIMPLES!!
    Eu estou do LADO de QUEM NÃO QUER TOMAR A AMAZÔNIA DE NÓS….
    PENSEM ACÉFALOS!
    Hoje é a Ucrânia…antigo estado/provincia RUSSA desde 1750… amanhã será a Amazonia.
    Porque os EUA não devolvem o TEXAS / Hawai
    FRANÇA sai da Guiana
    e Inglaterra não deixe em PAZ as MALVINAS?!?

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