Bandeira do movimento Lula Livre, criado quando o ex-presidente foi condenado, em 2017, a mais de nove anos de prisão | Foto: Helissa Grundemann/Shutterstock
Bandeira do movimento Lula Livre, criado quando o ex-presidente foi condenado, em 2017, a mais de nove anos de prisão | Foto: Helissa Grundemann/Shutterstock

A esquerda ama odiar

O negacionismo autoritário é camuflado por declarações de amor à vacina

O PT não sabe sorrir, nunca soube. Já no primeiro comício da vitória, o partido mostrou que festejar o próprio triunfo lhe dá muito menos prazer do que comemorar a derrota dos outros com insultos, provocações e pancadarias. Em vez de alegrar-se com o número de eleitores que votaram nos candidatos petistas, os militantes acham mais prazeroso contabilizar e, se possível, identificar os que não seguiram a estrela vermelha: são inimigos a castigar ou destruir. A prevalência da carranca sobre o sorriso foi oficializada no momento em que o chefe supremo do PT dividiu o Brasil em duas tribos: “nós” (os devotos da seita que tem em Lula seu único deus) e “eles” (os que não abdicaram da sensatez). Conforme as circunstâncias, o Mestre comunica a seus discípulos que o nome mudou. “Eles” viraram “golpistas” nos meses que precederam o impeachment de Dilma Rousseff, foram rebaixados a “fascistas” com a ascensão de Jair Bolsonaro e, depois da chegada ao país do vírus chinês, tornaram-se “inimigos da ciência”, “terraplanistas” e “negacionistas”.

O passaporte sanitário que documentava a aplicação de três doses de vacina não impediu que uma militante do PT, quarentona recente, fosse surpreendida pela covid-19. Inconformada com os dez dias de quarentena, caprichou num longo palavrório que batizou de “desabafo”. Examinado com atenção, revela com a precisão de tomografia computadorizada um cérebro petista atormentado pela pandemia. O vírus responsável pela doença sequer é mencionado. Como Lula ensinou, todas as mortes causadas pelo coronavírus devem ser debitadas na conta do presidente genocida, líder dessa sub-raça que “nega a ciência falando contra a vacina”. É bom que se calem, adverte a confinada involuntária, para logo ressalvar em mau português: “Desinformação não é liberdade de expressão”. Assim, os negacionistas devem suspender imediatamente conversas que ofendem a ciência e desperdiçar esse tempo tratando de assuntos menos letais. Futebol, por exemplo. Ou estética. Ou astrologia. “Você pode dar sua opinião sem matar ninguém”, lembra o desabafo. E que fique em casa quem não tomou vacina, conclui a lição, porque o vírus precisa de corpos não imunizados circulando por aí para ganhar força e gerar novas variantes.

Por odiar o convívio dos contrários, todo esquerdista brasileiro é surdo a vozes dissonantes. Por desprezar poços de certezas, sobretudo quando sonham com o assassinato dos direitos individuais e das liberdades democráticas, insisto em ver as coisas como as coisas são e a contar o caso como o caso foi. Em obediência a Lula, seus esforçados devotos qualificam de “inimigos da vacina” milhões de brasileiros que, na infância, recorreram a imunizantes para livrar-se de poliomielite, catapora, sarampo ou caxumba — e, ao longo de 2021, tomaram vacinas contra a covid-19. É o meu caso. Fui vacinado com duas doses da CoronaVac e uma da Pfizer. E afirmo que sofre de negacionismo — e negacionismo delirante — quem nega a existência de dúvidas a esclarecer, enigmas a desvendar, interrogações a desfazer. Criada no curtíssimo período de um ano, a vacina contra a covid-19 configura uma façanha e tanto. Mas só cretinos fundamentais não conseguem enxergar nesses imunizantes algo ainda na primeira infância e, por isso mesmo, em processo de aperfeiçoamento.

Os loucos por lockdowns acabam de decepcionar-se com o estudo que comprovou a ineficácia dos isolamentos radicais. Logo ficarão desolados com as respostas exigidas por outras perguntas muito oportunas. Uma delas: vacinas concebidas para combater o vírus original e suas primeiras variantes são capazes de deter o avanço da Ômicron? O desabafo sugere que a militante em quarentena ignora que também os totalmente vacinados podem transmitir a doença e ser infectados. Assim, não deveria descartar a hipótese de ter sido contaminada num encontro de adoradores de vacinas, todos providos de passaportes sanitários, usando máscaras e atentos a medidas de distanciamento social. Além de entusiasmados com a epidemia de autoritarismo gerada pelo Supremo Tribunal Federal na sessão que entregou o comando do combate à pandemia a governadores e prefeitos. As táticas de guerra ficaram mais confusas com a permanência no front dos ministros do STF, e desandaram de vez com a entrada em cena de promotores de Justiça e juízes de primeira instância. Só ficou fora o presidente Jair Bolsonaro, a quem coube apenas arranjar a dinheirama que financiou também as bandalheiras do Covidão.

Lula jura que, se estivesse na Presidência da República, salvaria o país com a reprise do medonho modelo concebido pela tirania que tanto admira. “A China só conseguiu combater o coronavírus com a rapidez que ela combateu porque tem um partido forte, porque tem um Estado forte, tem pulso, voz de comando”, desmanchou-se em afagos o ex-presidente num vídeo divulgado em junho de 2021. “Eles tomam decisões que as pessoas cumprem, coisa que nós não temos aqui.” Com o ex-presidiário no Palácio do Planalto, a direção da guerra provavelmente seria entregue ao ex-ministro Carlos Gabas, maior autoridade do PT no campo da saúde. No posto de secretário-geral do Consórcio do Nordeste, ele administra o combate à pandemia naquela região. Investigações de uma CPI instaurada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte confirmaram que Gabas é um incapaz capaz de tudo.

Quem acredita nesse monumento ao negacionismo está obrigado a crer que Lula foi a única vestal incorruptível no mais populoso bordel da história

Governar é escolher, e Lula escolhe sozinho. Presidente por oito anos, não recorreu a conselheiros para escalar ministros, presidentes das estatais mais lucrativas, parceiros no Congresso, empreiteiros felizes com obras federais e, no Exterior, ricaços generosos e um punhado de amigos bem mais rentáveis que o milhão sonhado por Roberto Carlos. Antes e depois da temporada no poder, escolheu dirigentes do PT, candidatos do partido a governos estaduais, prefeituras ou Câmaras Municipais, patrocinadores de palestras. Ficou rico sem manchar a imagem de alma viva mais pura do Brasil, talvez do mundo, venerada pela esquerda negacionista, convencida desde sempre de que Lula é o mais injustiçado dos inocentes. Bandidos são o ex-juiz Sergio Moro e os integrantes da Operação Lava Jato.

Para sustentar esse monumento ao negacionismo, costurou-se o enredo que mataria de inveja um Gabriel García Márquez. Em 2014, o juiz Sergio Moro descobriu que, se impedisse a volta de Lula ao poder, um deputado federal que ninguém conhecia seria eleito presidente da República e o transformaria em ministro da Justiça. Ambicioso, o magistrado matriculou-se num curso da CIA que ensina a montar conspirações envolvendo o Ministério Público e a Polícia Federal. Voltou dos Estados Unidos pronto para liderar uma operação que, fingindo investigar doleiros, devassou bandalheiras consumadas por empreiteiros que prestavam serviços à Petrobras e diretores da estatal. A evolução da trama incorporou delações premiadas, bilhões de dólares devolvidos à empresa saqueada, quadrilheiros de altíssima linhagem acordados às 6 da manhã e transferidos para a gaiola antes que Lula fosse instalado na cadeia em Curitiba. O Petrolão foi uma farsa, recitam os negacionistas do PT. O tríplex no Guarujá nunca foi dele, os 111 fins de semana no sítio em Atibaia só atestam a beleza da amizade verdadeira, acrescentam os devotos mais fervorosos. E o Mensalão? Nunca existiu.

Quem acredita nesse monumento ao negacionismo de esquerda está obrigado a crer que Lula foi a única vestal incorruptível no mais populoso e diversificado bordel da história. Entre os figurões da Era Lula-Dilma que amargaram temporadas na cadeia estão um presidente do Banco do Brasil, um ex-presidente e três diretores da Petrobras, um ex-presidente dos Correios, um ex-presidente da Eletronuclear, um ex-presidente da Valec, um ex-presidente e um ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal, três ex-presidentes do PT, três tesoureiros do PT, um ex-líder da bancada do partido no Senado e um ex-líder da bancada na Câmara dos Deputados. A fila de petistas lembrados com orgulho pela população carcerária é enriquecida pelos ex-ministros Antonio Palocci e José Dirceu, além de parceiros como os ex-governadores Sérgio Cabral e Pezão. E é, merecidamente, puxada por Lula.

Aos negacionistas vocacionais somam-se os estrábicos por opção. É o caso do ex-governador Geraldo Alckmin. Na campanha presidencial de 2006, ele viu em Lula um corrupto. Em 2018, viu um delinquente ansioso por voltar ao local do crime. Só agora apareceu-lhe o estadista de quem queria ser vice desde criancinha. Sujeito a surtos de vigarice amnésica, o dono do PT esqueceu que achava o antigo adversário “um político fraco demais para governar qualquer coisa” e descobriu “um governante que sempre mereceu respeito”. O que milhões de brasileiros precisam enxergar é o perigo estacionado a um palmo do nariz: um Lula candidato a presidente, na imagem perfeita de Millôr Fernandes, é o túnel no fim da luz.

Leia também “O confisco da liberdade”

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57 comentários Ver comentários

  1. Caro Augusto

    Brilhante sua interpretação dos fatos. Em épocas de “realidades virtuais”, uma boa dose de lucidez é como um bálsamo à nossa alma.

    Forte abraço

  2. A esquerda ama odiar, simplesmente isso. Completamente fechados ao debate saudável, tenho passado muito por esse tipo de situação.

  3. Pobre país, quiçá; um dia rumaremos à terra prometida, falta-nos a “mãe mágica de Jung” mesmo que seja, um pulso, e alçaremos voo para a liberdade de consciência, onde mantos pretos da urucubaca não atingem-nos com suas construções sócio-democráticas concebidas no ventre luciferino do bem-estar-social.

  4. Difícil imaginar um candidato que não pode sair sozinho na rua, aparecer como o queridinho das pesquisas. Já o Bolsonaro é aplaudido onde vai

  5. Eu não tenho pretensão de ser o dono das verdades: Lula não será candidato!. Vamos aguardar, isso logo será resolvido com aproximação da campanha Presidencial e seus limites para se ter um Candidato real e não um LADRÃO.

  6. Perfeito o artigo do jornalista Augusto Nunes: “A esquerda ama odiar”. Disse tudo sobre o ódio do PT para quem discorda dos dogmas do “deus de arque”, o ex-presidiário Lula.

  7. Depois da invasão da Igreja. Vc que tem influência e é respeitado deveria chamar a atenção para políticos que defendem os cristãos e o governo federal para solicitarem audiência na Câmara ou no SEnado e também por escrito, aos dirigentes do PT, pressionando para que em caso de vitória do Lula assumam o compromisso de não perseguir cristãos e nem fazer protestos em templos e igrejas. E solicitar providências ao TSE para questionar as atitudes de esquerdistas sobre o ódio que eles tem contra nós que não somos ateus e respeitamos os templos sagrados.

  8. Fantástico resumo dos últimos tempos. Aliviado com a oportunidade de leitura inteligente e esclarecida, muito bem escrita. O artigo realmente reflete a realidade.

  9. O problema não é termos um partido esquerdista no Brasil, mas sim termos uns partidos de esquerda, totalmente BURROS, ESTÚPIDOS E IGNORANTES, que nem sabe o que falam, mentem o tempo todo e idolátram os verdadeiros genocídas mundiais!!!!

  10. Augusto Nunes, um ícone da imprensa verdadeira…Jovem Pan solitária entre o consórcio em que se transformou
    a imprensa brasileira A única que tem credibilidade mundial…

  11. Como sempre, o mestre Augusto coloca em seu devido lugar as verdades que alguns esquerdistas míopes não querem enxergar…

  12. Augusto Nunes como sempre fazendo uma análise realística e sempre atualizada.Parabéns este sim é um Jornalista com “J” maiúsculo.

  13. Parabéns SENHOR JORNALISTA AUGUSTO NUNES!!!! O senhor é a nossa voz e nos representa muito bem!! Assim como outros excelentes jornalistas e comentaristas nos Pingos nos Iis! Votei no Presidente Bolsonaro e hoje o admiro muito mais!!

  14. Perfeita essa lembrança do impagável Milllôr Fernandes: “Lulla é o túnel no fim da luz”!!!
    Felicitações ao mestre Augusto Nunes.

  15. É tão decepcionante a desfaçatez de Lula e seus asseclas que dá nojo. Não consigo entender como alguns amigos acreditam na fala desse líder da corrupção que foi instalada no Brasil. É fato histórico que desde o império a corrupção esteve presente no governo mas a dimensão que assumiu nos anos de governo pt sem dúvida foi o maior do mundo. Nossa constituição está desmoralizada pelo próprio STF, o Congresso está povoado de hipócritas corruptos; o povo continua analfabeto sem saber como escolher os seus representantes fato que torna-se num círculo pernicioso. Como então mudar essa realidade a curto/médio prazo . Só temos uma saída no meu entendimento: uma assembleia constituinte composta por cidadãos de notório saber e reputação ilibara convocada e garantida pélas forças armadas: exército marinha e aeronáutica. É o meu pensar com cuidadão brasileiro preocupado com meus netos e o legado que minha geração deixará .

  16. Calma Augusto. Vou te dar um palpite mais otimista. O Lula até agora surgou em ondas agradáveis e patrocinadas pelo consórcio, como diz o Fiúza. Só que em 2022 ele vai enfrentar um tsumani de verdades que estão em vídeos, reportagens e confissões insofismáveis sobre a roubalheira. Ele não vai aguentar o temporal que cairá sobre ele que não terá oportunidade, nem em debates, para responder a centenas de perguntas chatas de responder. A esquerda pensa que será fácil. Mas quem não deseja o Lula está se articulando, vendo, observando e montando peças que serão mostradas ao público que ainda não viu ou esqueceu. Lula ainda ficará em terceiro ou quarto lugar. Quem votou no Bolsonaro não votará de jeito nenhum em Lula.

    1. É isso aí Luiz antonio; faço de suas palavras às minhas; a esquerda “pensa” que já ganhou…. mas esperem para ver, estamos começando o jogo agora… !! O céu ainda está bem claro…. a tempestade ainda nem começou a se formar. Quem votou no Bolsonaro, jamais votará em Lula..!! A briga irá ficar entre bolsonaro e Moro, e quem vencer, será o Presidente..!! O Lula poderá até ir para o 2 turno… mas o presidente mesmo será….Moro ou Bolsonaro !!

  17. Simplesmente formidável. Mostra o perfil da alma mais honesta deste mundo. Vocês podem imaginar o que teríamos passado se ele fosse desonesto, corrupto, venal, malversador de recursos públicos e desatento aos interesses dos menos favorecidos.

  18. Alckmin, faça um pronunciamento, seu cafajeste! Olhe nos olhos de quem te elegeu no passado e explique o que te faz se associar a um criminoso. O Geraldo Alckmin de 2006 e de 2018 merece essa satisfação do traidor de 2022 que vai encerrar sua carreira política com “chave de ouro” perdendo uma eleição ao lado de um bandido?

    1. Sempre votei no PSDB e no Alckmin. Jamais repetirei esse erro grosseiro. Todos os seus membros traíam acintosamente os seus eleitores, por conta da defesa da causa socialista. Entregaram o país ao PT;

    2. Votei no Alckmin no primeiro turno em 2018. Nunca mais! Vergonhoso! Jamais voltarei a votar no PSDB, revelado como mais um puxadinho do PT fazendo uma oposição pusilânime durante anos. Fui enganado.

  19. Como sempre, Augusto você tem a precisão de um cirurgião, na análise da conduta dos esquerdopatas, principalmente, os cegos seguidores do Luladrão e do PT. Para eles é mais fácil ver um túnel no fim da luz, que admitir seus erros e fracassos. Fora PT.!

  20. Comecei a leitura e de uma vez só devorei o texto. Parabéns Augusto Nunes. Em algumas nações, as pessoas estão fazendo sua quarta injeção de mRNA no período de um único ano. O que quer que estejam tomando, não é uma vacina. As vacinas não são algo que as pessoas injetam trimestralmente. Tampouco é normal que indivíduos saudáveis se testem constantemente em busca de doenças. Ciência que não se pode questionar é propaganda.

  21. Caro Augusto Nunes, para mim e muitas e muitas outras pessoas você é “O” jornalista brasileiro. Só tenho, hoje, um senão: 9Fingers está radiante por você lhe ter concedido tantas linhas. O Brasil dos contra e a favor (no campo das ideias políticas em pauta) já sabe de tudo. Próximo passo, porque precisamos dar 2 passos à frente, nem um passo atrás.

  22. Quero cancelar minha assinatura e vcs não me respondem!!!! Este mês vcs já renovaram pelo meu cartão de crédito minha assinatura, porém não tenho mais interesse
    O q mais preciso fazer? Nos canais q vcs disponibilizam ninguém me responde e quero a minha LIBERDADE de DECIDIR CANCELAR RESPEITADA!!! Aliás todos na revista oeste valorizam tanto a liberdade de expressão e escolha, quero a minha também respeitada
    Aguardo resposta!!!
    Alessandra

    1. Alessandra, boa tarde.
      Providenciamos o cancelamento da assinatura e o estorno do valor correspondente conforme solicitado. Ele aparecerá em sua fatura de cartão de crédito em até 5 dias úteis.
      Encaminhamos a confirmação por e-mail também.
      Atenciosamente
      Revista Oeste

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