Metaverso x mundo real

O abismo social existente em todas as vertentes da nossa sociedade, inegavelmente, também está presente na tecnologia
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Foto: Divulgação
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Filipe Sabará*

Metaverso é a palavra do momento para quem se interessa pelo universo da tecnologia. Ele promete revolucionar nossas relações virtuais e, consequentemente, todas as relações de trabalho à distância, e-commerce, entretenimento e por aí vai.

O conceito de metaverso pressupõe a criação de uma internet em 3-D, que se conecta ao mundo físico de forma natural. Nessa nova web, é possível interagir com entidades virtuais “trazidas” para o mundo real, da mesma forma que nos leva para o mundo virtual. O usuário, em vez de consumir texto, vídeo e áudio por uma tela, pode “entrar” num mundo virtual, com a possibilidade de sentir, fisicamente, sensações vividas pelo seu avatar (representação do ser humano no metaverso).

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O pensamento corrente é que o metaverso é importante porque vai inspirar uma nova economia movimentada em todos os níveis. Esse pensamento me parece muito pequeno e até mesquinho diante dos desafios do mundo real, com uma imensa desigualdade e desafios sociais e econômicos a serem vencidos. Faltam vínculos dessas novas ideias com uma realidade inclusiva que contemple os ditames da sustentabilidade, os quais regem os princípios ambientais, sociais e de governança das empresas.

Assim como ocorrem com outras possibilidades tecnológicas, cuja necessidade e realidade são discutíveis, o fato de o metaverso estar se tornando algo possível não quer dizer que seja prioridade para a sociedade nesse momento.

É preciso inclusive colocar o pé no chão e considerar a realidade do nosso país em relação a esse universo que engloba a internet 3.0. A pandemia da covid-19 demonstrou quanto ainda o Brasil necessita de investimento na sua digitalização. Ainda que pesquisas demonstrem que 81% da população já tenha acesso à internet, a qualidade dessa conexão nem sempre é o suficiente para tarefas básicas, como a educação à distância, por exemplo.

A maioria das pessoas tem planos por franquia, isso é, o consumidor tem uma determinada quantidade mensal de dados para trafegar durante o mês, e, a partir do momento em que aquela quantidade se esgota, só é possível acessar Facebook e WhatsApp. A média de dados dessas franquias é de até 2 GB por mês, o que não é o suficiente nem para assistir a uma aula de duas horas. E, como sabemos, a falta de educação de qualidade é o principal fator que segrega ainda mais os pobres dos ricos.

A situação tende a ficar ainda mais evidente quando as tecnologias disponíveis para a imersão no chamado metaverso estiverem efetivamente disponíveis. Esse novo espaço virtual coletivo só poderá ser acessado por meio de uma fusão entre a internet e a realidade aumentada, cuja conexão se dará mediante o uso de óculos inteligentes. Atualmente esses óculos podem custar em torno de mais de R$ 8 mil, dependendo do modelo e da qualidade. Se a grande maioria da população não tem dinheiro nem para comprar um celular 5G, que dirá óculos inteligentes ou qualquer outro objeto do gênero.

Isso mostra que o abismo social existente em todas as vertentes da nossa sociedade, inegavelmente, também está presente na tecnologia, pois, mesmo com o seu avanço, apenas uma parcela da população poderá ter acesso a essas novidades.

Está aí uma das grandes questões políticas do nosso tempo: como garantir redução das assimetrias de poder, estimular a cidadania e tirar o melhor proveito possível das expansões da internet do futuro? A pergunta é clássica e nos acompanha desde a década de 1970. Há inúmeras alternativas na mesa, que passam por uma multiplicidade de ações por grandes corporações, investimento em processos de escuta ativa da sociedade civil, incentivos e prêmios para projetos de interesse coletivo (museus interativos, projetos de conscientização ambiental, bibliotecas do bem comum) e muitas outras ideias. O problema não é falta de ideias, que borbulham em centenas de entidades civis e centros de pesquisa. O problema é a falta de vontade política para executá-las, seja no plano privado seja no público.

Cabe a nós, como sociedade civil organizada, atentarmos para esse futuro. Como no filme Matrix, em que o personagem Morpheus oferece para o protagonista, Neo, a possibilidade de o herói tomar uma pílula da ilusão e outra que lhe mostra a verdade, nós temos que nos perguntar todos os dias se estamos questionando a Matrix ou apenas retroalimentando a sua existência.

Leia também: “Metaverso: muito além do Facebook”, reportagem de Cristyan Costa publicada na Edição 94 da Revista Oeste


*Filipe Sabará é empresário, filantropo, palestrante e gestor do braço social do Fundo ARCAH Multimercado. É fundador da ARCAH, Associação de Resgate à Cidadania por Amor à Humanidade, uma instituição sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento social de pessoas em situação de vulnerabilidade por meio de diferentes ações e projetos, com o intuito de ressignificar a vida de pessoas

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4 comentários Ver comentários

  1. Não se discute o Metaverso e alguma utilidade prática em relação as mazelas do mundo real. Metaverso continua sendo uma mistura da metafísica, com minha alucinação/alienação, com parte dos efeitos do velho e básico LSD, juntos as fantasias de cada um dos usuários.
    É por óbvio que terá um mercado específico, podendo, de fato, alavancar muito dinheiro.
    No entanto, não vai além de uma nova tecnologia que nos permite sonhar, ir além e que certamente impulsionará muito de nosso dia a dia, favorecendo à todos, inclusive aos pobres, como sempre assim foi quando se inventa algo de utilização universal.
    Procurar adequar o Metaverso à realidade, às nossas mazelas, é, por evidente, abandonar o próprio Metaverso e/ou é não reconhecer as limitações do mundo imaginativo do mundo real, ambos inerentes ao ser humano, mas nem sempre convergentes para com as nossas necessidades básicas que se arrastam desde que o homem é homem.
    Muita utopia fazer qualquer associação desse tipo, o mundo virtual com com as mazelas do mundo real!

    1. Alô, Marco Polo

      Artigo sensível esse do Filipe. Quando li, tive uma impressão parecida com a sua. Algo do tipo: “Ah, agora o mundo deve parar até que todos os miseráveis sejam incluídos!”
      Depois de uma segunda leitura dá pra perceber que, na realidade, o Felipe faz um alerta sobre as nossas prioridades. Zuckerberg faz hoje o que Jobs fazia – criação de uma necessidade. Ninguém precisa do Metaverso hoje, ninguém sente necessidade de ter o Metaverso, ninguém sabe como será o Metaverso, mas quando ele surgir será como o Whatsapp, ninguém mais saberá viver sem.
      Por esse lado, o alerta que o artigo nos trás é pertinente. “Cuidado com a armadilha, organize suas prioridades, evite gastar uma fortuna com coisas que não contribuem para o seu propósito, lembre-se de quem precisa mais do que você.”
      A palavra chave está no nome da instituição que Filipe criou. RESGATE. Pode vir o Metaverso, pode vir qualquer inovação, o que não pode haver é uma escravidão voluntária, pessoas abrindo mão de suas vidas por algo que proporciona prazer ou deslumbramento de algo custo.

      1. Entendo o que você falou, mas minha ênfase foi na comparação de algo que não tenha qualquer relação com as necessidades reais, tais como ele aduz : =>”Está aí uma das grandes questões políticas do nosso tempo: como garantir redução das assimetrias de poder, estimular a cidadania e tirar o melhor proveito possível das expansões da internet do futuro?”<=, numa clara tentativa de imaginar que um dia, uma solução humana irá resolver um problema crasso e inerente à essa vida no planeta.
        Esse ponto por mim levantado é fundamental para a divisão do mundo real (sé conseguimos fazer o possível), do mundo ideal, utópico (redução da cidadania, assimetrias de poder, …) o Autor filosofa, tal qual como se estivesse no Metaverso tentando adequar ele a nossa realidade.
        Posso ter embolado minhas ideias e não me expressado bem, como agora, também!

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