A morte de Olavo de Carvalho: meu ódio será a tua herança

A turma que elogiou até Stalin deve aprender a pelo menos tolerar quem pensa diferente
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Filósofo morreu, aos 74 anos | Foto: Divulgação/Mauro Ventura
Filósofo morreu, aos 74 anos | Foto: Divulgação/Mauro Ventura

Em 2001, um dos colunistas da revista Época era Olavo de Carvalho. Escrevia num viés diferente de todos nós, os outros colunistas. Aquela equipe trouxe a tiragem de 200 mil exemplares para 800 mil semanais.

Augusto Nunes era o diretor. Deu capa a Jorge Amado na semana em que as outras, como Veja e Istoé, deram capa ao afogamento da namorada de um dos filhos do empresário Abílio Diniz. Os donos da empresa reclamaram do diretor de redação: as outras vendiam dois ou três exemplares a cada um de Época naquela semana. Augusto Nunes demitiu-se. Jorge Amado morreu. Tiveram de fazer nova reimpressão e Época bateu as concorrentes.

Referência solar do jornalismo brasileiro, como sempre souberam seus leitores e hoje sabem também todos os que o ouvem e o veem, Augusto Nunes estreou na direção da revista contrariando os patrões, que queriam aproveitar a oportunidade para excluir Olavo de Carvalho, mas o diretor de redação manteve o colunista.

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Anos depois, eu coordenava uma mesa de debates em Passo Fundo (RS), diante de cerca de 4 mil pessoas, numa das famosas Jornadas de Literatura, e pedi a Augusto que nos desse o privilégio de ouvir dele aquela história, que tão poucos conheciam e só de bastidores. E ele contou, as pessoas fizeram perguntas, todas respondidas. Sua mulher, a fotógrafa Luzia Lacerda, estava na plateia e fez fotos daquele encontro.

A mudança de rumos em Época foi memorável, por motivos de todos conhecidos, mas para mim acrescidos de um viés particular. Era a semana do dia 6 de agosto de 2001, aniversário de minha mãe. Eu visitava Nydia Guimarães, viúva do escritor Josué Guimarães, que, por motivos espíritas, me chamava de filho (e de neta a minha filha Manuela, do casamento com a professora e poeta Soeli Maria Schreiber da Silva). Eu já morava em São Carlos (SP), mas estava no Sul para visitar minha “mãe” e ouvia uma curiosa história de amor contada por minha “irmã” Adriana Machado Guimarães, a quem conhecera criança em Porto Alegre. Lembro que ela me contava de um amor complicado em andamento. Soube mais tarde que aquela história teve um final feliz. Anos depois, almocei com Adriana em sua casa, no Recreio, no Rio.

Naquele dia frio, porém, eu estava em Canela (RS) e escrevi a coluna no escritório onde Josué Guimarães escrevia, enquanto Nydia bebia uísque Natu Nobilis na sala. A internet era de linha telefônica e demorei a obter confirmação de que chegara direitinho à redação. Quando desci para a sala, Nydia disse à empregada: “Pode servir, o Deonísio terminou”. Tempo de muitas delicadezas. Na vida literária e na mídia também.

Mas 21 anos depois, o Brasil está rachado. Ignoram que temos amores, cônjuges, filhos, amigos, que todos temos valores sagrados, como o amor, a amizade, a solidariedade na hora da dor etc. Vejam: morreu um daqueles colunistas, aos 74 anos, idade precoce nessa outra época. Mas como ele não integrava a horda dos imbecis coletivos contra os quais tanto se insurgiu, leio notas medonhas sobre sua morte, escritas por impiedosos que batem num intelectual que a morte, só a morte calou.

A turma que elogiou até Stalin antes de Kruschev estarrecer a esquerda com a revelação de seus crimes deve aprender a pelo menos tolerar quem pensa diferente. Tolerar é só um começo, mas é indispensável. O passo adiante é examinar as razões de quem pensa diferente de nós.

Os livros de Olavo de Carvalho são muito lidos, milhões de brasileiros pensavam como ele e, em 2018, diante de várias opções, elegeram Jair Bolsonaro presidente da República. E, depois de um segundo turno, espécie de prova dos noves, pois as urnas perguntaram: é este mesmo que vocês querem? E a maioria respondeu que sim, que era ele.

Milhares de leitores ou alunos pagavam para ouvir e ler Olavo de Carvalho, sabendo que ele apoiara Jair Bolsonaro, apesar disso ou por causa disso. E souberam também de seu rompimento. E continuaram seus leitores ou alunos. Respeitemos todos eles, não é nenhum favor que lhes fazemos. E este respeito deve ser mútuo, é claro.

Quem insulta Olavo de Carvalho, agora morto, negando-lhe a inegável grandeza que teve, fala de sua pequenez, também inegável, por, ainda vivo, bater num morto. De mortuis nihil nisi bene (dos mortos, só o que foi bom), diziam os sábios romanos. Mortuus res sacra est, reus sacra est (o morto é sagrado, o réu é sagrado).

O poderoso Império Romano levou três séculos para aceitar a mensagem cristã do maior dos mandamentos: “Amai-vos uns aos outros”. Enfrentava e vencia seus inimigos pela espada. E não entendia aquela seita que vinha com mensagens de rendição, tal como pareciam a seus cidadãos e sobretudo a seus soldados. Mas, se os cristãos não tivessem vencido, não teríamos tido a civilização ocidental cristã.

Sim, nossa civilização tem estes dois adjetivos: ocidental e cristã. É conhecida por isso. Por isso, há festas de batismo, de casamento e ritos à hora de nossa morte. Como dizia Charles Chaplin, “não sois máquinas, homens é que sois”.

A morte de um dos grandes da direita, como foi Olavo de Carvalho, pode servir para que intelectuais não alinhados a ideologias totalitárias de uma banda ou de outra renovem sua esperança de convívio entre diferentes e, assim procedendo, convidem e comovam outros a fazer o mesmo. Ainda que não sejam cristãos, pois este também deve ser um direito e não uma obrigação, uma vez que a fé é escolha, não é e não pode ser imposição. Sem contar que não se pode discriminar ninguém, pois nossa Constituição garante a liberdade religiosa e nessas horas também é dela o limite do que pode e do que não pode ao prescrever que todos são iguais perante a lei. Se somos iguais, nos tratemos como iguais.

Provavelmente a repercussão da morte de Olavo de Carvalho vai evidenciar uma vez mais o atraso do pensamento brasileiro, que não é só brasileiro, evidentemente, pois afeta outras nações. O Brasil vive menos a era dos antigos ideais de paz e mais a era do filme Meu Ódio Será Tua Herança, título adaptado de The Wild Bunch (“O Bando Selvagem”), o celebérrimo longa-metragem do cineasta americano Sam Peckinpah. É um dos melhores filmes do século passado e foi indicado ao Oscar justamente pelo roteiro.

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