As idas e vindas dos hospitais de campanha em São Paulo

Governo do Estado muda estratégia, abandona tendas montadas no primeiro pico da pandemia e utiliza estrutura dos Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs) para abrir mais leitos de UTI
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Hospital de campanha do Anhembi, usado na primeira fase da epidemia de covid-19, foi desativado; governo de SP mudou estratégia na segunda onda
Hospital de campanha do Anhembi, usado na primeira fase da epidemia de covid-19, foi desativado; governo de SP mudou estratégia na segunda onda | Foto: Edson Lopes Jr./Secom

Em meio ao aumento de internações e mortes causadas pela covid-19 em São Paulo, o governo do Estado anunciou a abertura de 12 novos hospitais de campanha, que devem estar em operação até o dia 31 de março. Se no primeiro pico da pandemia, no ano passado, o governo gastou milhões com tendas improvisadas que ficaram vazias boa parte do tempo e acabaram desmontadas poucos meses depois, a estratégia agora é outra. Desta vez, as instalações serão montadas a partir da infraestrutura de nove Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs), uma unidade da Rede Lucy Montoro e hospitais já existentes. Estruturas portentosas como aquelas levantadas sobre o Estádio do Pacaembu, o Centro de Exposições do Anhembi e o Complexo Esportivo do Ibirapuera foram, pelo menos por enquanto, deixadas de lado. Resta saber se o novo plano vai dar certo.

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Segundo a Secretaria da Saúde do governo paulista, os novos hospitais de campanha terão 193 leitos de UTI e 215 de enfermaria. Somados aos quatro já existentes (com 59 leitos de UTI e 65 de enfermaria), o Estado passará a contar com 16 hospitais de campanha até o dia 31, com 252 leitos de UTI e 280 de enfermaria. Um deles é o Hospital de Campanha Metropolitano, que será ativado em um prédio privado localizado no bairro de Santa Cecília, no centro da capital, com 180 leitos exclusivos para a covid-19 (50 de UTI e 130 de enfermaria). O edifício foi oferecido gratuitamente ao governo, que selecionará nos próximos dias a Organização Social de Saúde (OSS) responsável pela operação da unidade, em parceria com a pasta. Novecentos profissionais atuarão no hospital, entre os quais 150 médicos.

Por que os AMEs

Criados em 2007, os AMEs são unidades de “alta resolutividade”, segundo o próprio governo paulista. Contando com equipamentos de ponta, oferecem consultas, exames e até mesmo cirurgias em um mesmo local, o que dá maior rapidez no diagnóstico e tratamento dos pacientes. “É a lógica de um ambulatório em que a pessoa chega de manhã, faz todos os exames que tem de fazer e vai embora à noite. Há leitos de internação e centros cirúrgicos. Tem alguns leitos de retaguarda que têm toda a estrutura de UTI”, explica a Oeste o médico Wladimir Taborda, consultor em Saúde Pública e especialista em parcerias com organizações sociais.

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Segundo Taborda, a opção por aproveitar a estrutura dos AMEs para montar os novos hospitais de campanha é um acerto. “Já tem médico, tem estrutura, tem enfermeiro. O que eles estão fazendo agora é simplesmente revocacionar unidades que já existem”, afirma. “[O governo do Estado] Selecionou os AMEs e pegou alguns outros hospitais para qualificar para o tratamento do paciente de covid. Esse lugar pode aguentar o paciente mais grave. Agora ninguém está preocupado com o cara que está ‘fungando’ ou perdeu o paladar. Agora a situação é bem diferente. Estamos numa fase nova da pandemia.”

O governo de São Paulo bateu o martelo em relação à mudança de estratégia com os hospitais de campanha justamente em função do novo panorama da pandemia no Estado. Ao contrário da primeira onda, em que foi dada atenção especial a casos de baixa e média complexidade — justamente para que não tivessem o quadro agravado —, desta vez o foco é nos pacientes mais graves, que precisam de leitos de UTI. Com a falta de leitos disponíveis, aproveitar os AMEs foi a solução encontrada.

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“Nós estamos em um momento da pandemia em que os leitos de UTI são a questão central do atendimento hospitalar. As pessoas têm ficado mais tempo em UTI e têm sido mais graves as internações. Ao invés das tendas, que tinham maior número de leitos de enfermaria, nós estamos buscando aparelhos que já tenham estrutura para que possam ser instalados os leitos de UTI”, disse o secretário estadual de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi, em entrevista à CNN Brasil no dia 3 de março.

Taborda, um dos críticos da estratégia do governo na primeira fase da pandemia, avalia que “lá atrás, deveriam ter investido esse dinheiro para fazer isso que estão fazendo agora ou para reativar hospitais que já existiam”. “Aquilo não fez muito sentido porque o hospital de campanha é o último recurso. Para ele funcionar numa pandemia, o governo tem que se antecipar, deve montar os hospitais antes do pico”, diz. “A gente não tinha usuários, a ocupação era baixa. Tanto que muitos deles foram desativados e se gastou muito dinheiro. Para abrir, tem que planejar antes.”

Além do governo não ter feito a lição de casa no ano passado, especialistas defendem a ideia de que o fechamento das tendas provisórias foi precipitado. “Sem dúvida, hospitais de campanha foram desmontados de forma precoce, sem esperar a segunda onda. Deveriam ser mantidos por mais tempo, pois aí não estaríamos no estrangulamento que estamos agora”, diz o médico imunologista e professor titular de medicina da USP, Jorge Kalil, a Oeste.

Destino dos equipamentos

O único hospital estadual de campanha, o do Ibirapuera, encerrou suas atividades em setembro passado. As unidades do Pacaembu e do Anhembi foram construídas em parceria com a prefeitura de São Paulo. Segundo o governo do Estado, “os equipamentos instalados na unidade foram doados pelas empresas MChacon e Deca, parceiros do hospital, para entidades assistenciais e outras unidades de saúde, totalizando 268 colchões, 100 camas, 12 televisões, 74 vasos sanitários, 118 torneiras, 14 chuveiros, 62 cubas de porcelana, 53 pias e quatro tanques de aço inox”.

Provisório ou permanente?

A reabertura de hospitais de campanha junto às estruturas dos AMEs também gera dúvidas em relação ao que acontecerá depois. Na primeira onda da covid-19 em São Paulo, o governo paulista gastou mais de R$ 130 milhões e, alguns meses depois, se viu obrigado a fechar essas unidades por falta de ocupação. Agora, não se sabe ao certo se haverá utilização permanente das instalações após o fim da pandemia. “A ideia é que todo o investimento novo de recursos e mais leitos seja feito em instalações definitivas em hospitais que já existem. Isso garante a permanência e manutenção para que no futuro as pessoas possam utilizar esses investimentos”, garantiu o coordenador do Centro de Contingência da covid-19 em São Paulo, João Gabbardo, em entrevista ao UOL em 4 de março. “As instalações que devem ser feitas a partir de agora poderão depois ser utilizadas pela população de uma forma mais definitiva.”

Questionado sobre a efetividade dos hospitais de campanha atrelados aos AMEs, Taborda prefere não arriscar prognósticos: “Eu não sei dizer o resultado final, se vai resolver o problema ou não. Mas, sem querer julgar o governo A ou B, só olhando para as medidas, é o que temos para hoje. Neste momento, é o que tem de ser feito. Já tem uma estrutura, você tem uma resposta muito mais rápida”.

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Segundo o boletim mais recente divulgado pelo governo paulista, o Estado registra hoje 89,9% de ocupação dos leitos de UTI (são 10.756 pacientes internados). Na Grande São Paulo, o índice chega aos 90,6%. Há apenas três semanas, no dia 22 de fevereiro, a ocupação era de 66% no Estado (6.410 internados) e 68,8% na Grande São Paulo — o que significa um incremento de 4.346 pacientes no período.

Custos e (falta de) transparência

Desde quinta-feira 11, a reportagem de Oeste vem procurando a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo para saber qual é o custo total estimado dos 12 novos hospitais de campanha que serão abertos até o fim do mês. Após cinco dias sem nenhuma resposta, a pasta limitou-se a dizer que essas informações “ainda estão sendo finalizadas em audiências técnicas”. Apenas no novo hospital de campanha no centro da capital, por exemplo, o investimento anunciado pelo governo será de R$ 12 milhões por mês.

Como registramos, a falta de transparência parece ser a tônica do governo de São Paulo na pandemia. O DataSUS informa que existem 17,7 mil leitos de UTI nos hospitais paulistas. Deste total, quase 10,9 mil estão destinados a pacientes com covid-19. Até sexta-feira 12, a taxa de ocupação estava em 86,7%, de acordo com os números oficiais. Ou seja, 9,4 mil estavam ocupados, e outros 1,4 mil, livres. Há mais de dez dias, a Oeste tenta obter informações sobre a ocupação das quase 7 mil vagas restantes de UTI no Estado. Até o momento, não houve resposta. A informação não é divulgada por boa parte das secretarias de Saúde do país e poderia fazer cair o percentual de ocupação dos leitos de UTI.

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