A educação superior brasileira atravessa um momento de saturação que os números do Censo de 2024 e os dados de mercado de 2026 tornam impossível ignorar. O país vive uma espécie de hiperinflação de oferta: 2.561 instituições de ensino superior (IES), que disponibilizam 23,6 milhões de vagas. Contudo, o sistema registrou apenas 5 milhões de ingressantes e pouco mais de 1,3 milhão de formandos.
Essa disparidade colossal entre a capacidade instalada e a entrega efetiva de profissionais revela uma ineficiência estrutural profunda. Mais alarmante do que o excesso de vagas é a fragilidade da retenção: a taxa média de evasão do setor atingiu 63% (tendo 2018 como base). Um estudo da Hoper Educação, publicado pela Morgan Stanley Research em fevereiro de 2026, reforça esse diagnóstico ao apontar uma queda de 20% nos volumes totais de captação. O ensino à distância, que durante anos foi visto como motor de expansão, sofreu retração severa de 46%. Nem mesmo o crescimento de 18% na modalidade semipresencial foi capaz de compensar o declínio.
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A raiz do problema
Minha percepção sobre a urgência de alinhar o ensino às demandas reais do mercado não é recente. Em 2009, quando atuava como servidor da Prefeitura de Sorocaba (SP) no Polo de Desenvolvimento e Inovação, participei de uma missão estratégica: integrar as instituições de ensino técnico e superior para formar a mão de obra que atenderia à futura fábrica da Toyota na região.
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A experiência revelou uma lição essencial: a educação só cumpre seu papel transformador quando caminha lado a lado com a realidade produtiva.
O problema atual não é meramente de precificação, já que os ajustes de mensalidades estão abaixo da inflação, mas de percepção de valor. A educação superior está perdendo sua capacidade de sinalizar ao cidadão que o investimento de tempo e recursos resultará em aumento real de renda e produtividade. Em outras palavras, o diploma deixou de ser automaticamente percebido como um passaporte para a ascensão social.
O dever institucional
Para reverter esse quadro, as IES precisam resgatar sua responsabilidade primária. É fundamental compreender que o direito de ofertar ensino superior é fruto de uma concessão do Estado baseada na confiança, a qual deve ser verificada a posteriori por meio de resultados concretos. Portanto, o dever de formar com qualidade é da instituição, e não apenas uma obrigação burocrática a ser cumprida sob pressão regulatória.
Nesse sentido, as IES têm o dever ético de incluir o teste de progresso de forma voluntária e imediata, sem esperar que o Ministério da Educação ou o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) definam essa exigência como norma. Aguardar por marcos regulatórios para avaliar a evolução dos alunos é abdicar da gestão acadêmica. A instituição que não monitora o crescimento do seu estudante ao longo do curso é incapaz de corrigir rumos e garantir a entrega de valor prometida no ato da matrícula
Da mesma forma, sem professores bem remunerados, atualizados e conectados às transformações do mercado, e sem uma integração efetiva com o setor produtivo, o ensino superior continuará operando em um vácuo entre formação acadêmica e realidade econômica.
Avaliação no ensino superior
Minha trajetória como especialista em avaliação, consolidada pela experiência como presidente do Inep, com a gestão de exames nacionais e internacionais, reforça que o que não se mensura com precisão, não se aprimora. A recente polêmica em torno do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica sublinha uma necessidade latente: a avaliação progressiva. Independentemente da área, as IES devem monitorar o desenvolvimento do aluno ao longo de toda a jornada.
Neste ponto, a gestão deve adotar a metodologia nipônica kaizen (Kai = mudança; Zen = bom), que foca na melhoria contínua e na eliminação de desperdícios. Aplicar o kaizen ao ensino superior significa utilizar indicadores de qualidade para monitorar e redirecionar a formação de forma integrativa.
Se a instituição carece de recursos internos para tal, deve buscar parcerias especializadas em avaliação de progresso. O objetivo deve ser um ciclo virtuoso: avaliar para diagnosticar, corrigir para evoluir e ensinar para transformar.
Somente assim o ensino superior brasileiro poderá deixar de operar como uma “fábrica de vagas vazias” e voltar a cumprir seu papel essencial como motor de produtividade, inovação e desenvolvimento econômico.
Leia também: “Universidades do ódio”, reportagem de Branca Nunes e Mateus Conte publicada na Edição 288 da Revista Oeste





































Artigo interessante, mas o autor poderia ter explorado melhor as causas da hiperinflação de oferta. As respostas seriam absolutamente esclarecedoras para as questões e constatações postas.