O caso do cão Orelha causou revolta em todo o país. Em 4 de janeiro, o animal foi encontrado com várias fraturas debaixo de um carro na Praia Brava, em Florianópolis. Orelha, que havia sido adotado pela comunidade, estava a cerca de 200 metros do local onde teria sido agredido.
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Ao menos quatro adolescentes que andavam pelas ruas do bairro naquela noite foram acusados de espancar o cão. A denúncia surgiu depois de boatos de que os menores teriam vandalizado objetos perto do Condomínio Água Marinha.
Mensagens de WhatsApp divulgadas no programa Fantástico, da TV Globo, mostram quando o porteiro do condomínio sugere que os garotos maltrataram o animal. “Na mesma noite que arranjaram confusão comigo, parece que deram umas ‘pauladas’ em um cachorro”, disse no áudio.
Repercussão do caso
Depois de dez dias, nomes, imagens e endereços dos adolescentes foram postados por usuários das redes sociais como autores das agressões. O caso foi amplamente noticiado e gerou revolta. Manifestações realizadas em diversas cidades pediam a punição dos menores supostamente envolvidos na agressão.
A repercussão do caso também levou a Polícia Civil a reforçar as investigações, que resultaram na acusação contra um adolescente de 15 anos. Em 29 de janeiro, os agentes apreenderam celulares e roupas do menor no Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, quando voltava da Disney, nos Estados Unidos.
A Polícia Civil não apresentou provas que incriminassem este ou os demais adolescentes. Em seu relatório, que se encontra sob sigilo e ao qual Oeste teve acesso, os investigadores afirmam que analisaram mais de mil horas de gravação. Contudo, nenhuma das imagens mostra quando os adolescentes espancam o cachorro.
Delegada reconheceu a falta de provas
Mardjoli Valcareggi, delegada de Proteção Animal, reconheceu em entrevista ao Fantástico, que não há provas. O que há, segundo a agente, é um “feixo de indícios convergentes que levaram à suspeita de envolvimento dos adolescentes”.

Os indícios a que a delegada se refere estão relacionados aos horários em que os jovens e o cachorro foram vistos nas câmeras de segurança. As imagens mostram quando Orelha sai de sua casinha, às 5h18. Segundo o relatório, o cachorro passou pela praia no mesmo intervalo de tempo em que os adolescentes foram vistos indo em direção ao mar, entre 5h25 e 5h58, antes de chegar em frente ao Condomínio Águas da Brava, onde parou para descansar por cerca de uma hora, segundo a polícia, “possivelmente” já machucado.
De acordo com o relatório da Polícia Civil, o cão “caminhava lentamente”, às 6h35. Às 7h39, saiu em direção à casinha novamente. Essa coincidência levou os investigadores a acreditarem que os adolescentes espancaram o animal.
Um vídeo divulgado pela defesa do menor, liderada pelo advogado Rodrigo Duarte da Silva, contesta a acusação. A imagem mostra quando um cão parecido com Orelha caminha normalmente na região às 7h, depois do horário em que, de acordo com a polícia, o cão foi espancado.
As acusações perderam mais força nesta semana. Uma moradora assumiu à Polícia Civil que mentiu quando disse nas redes sociais que possuía um vídeo do espancamento do cão Orelha. Na postagem, a mulher afirmou que um porteiro registrou a agressão. Ela também disse que o trabalhador teria sido coagido por parentes de adolescentes.
Conduta do delegado-geral será apurada
Os desdobramentos do caso ganharam outro contorno depois de o delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina assumir o caso. Ulisses Gabriel é acusado de utilizar o cargo em prol da possível candidatura a deputado estadual.
O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) identificou lacunas na apuração sobre a suposta participação dos adolescentes na morte de Orelha. Ulisses é investigado por quebra de sigilo funcional ao “usar ou divulgar informação sigilosa à qual só teve acesso por causa do cargo ou função”. O MPSC concluiu que há necessidade de mais esclarecimentos e maior precisão na reconstrução dos fatos.
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O órgão também vai apurar se houve abuso de autoridade, violação de sigilo funcional e ato de improbidade administrativa. Na segunda-feira 9, o MPSC deu 20 dias à Polícia Civil para refazer os depoimentos.
O MP também pediu a exumação do corpo do cachorro. O objetivo é realizar uma perícia direta que comprove as agressões sofridas pelo animal. No inquérito anterior, a violência havia sido constatada apenas pelo veterinário que realizou o atendimento inicial. O médico não teve suporte de exames laboratoriais nem perícias complementares.
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