Zeballos: ‘Toda epidemia tem começo, meio e fim’

Em entrevista a Oeste, o médico doutor em imunologia ressalta que ainda é cedo para avaliar a eficácia das vacinas contra a covid-19
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O médico Roberto Zeballos é clínico geral e doutor em imunologia
O médico Roberto Zeballos é clínico geral e doutor em imunologia | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

O médico clínico geral e doutor em imunologia Roberto Zeballos conversou com Oeste sobre a cepa Delta do coronavírus, a vacinação contra a covid-19 e seus efeitos sobre os números de casos e mortes no Brasil. O médico alerta que os imunizantes disponíveis no mercado não impedem a contaminação pela variante Delta, mas ressalta que os pacientes infectados pela nova cepa apresentam quadros mais moderados e respondem bem ao tratamento.

Desde o começo da pandemia, Zeballos e sua equipe já trataram cerca de 3,5 mil doentes. “O protocolo domiciliar que usamos se disseminou no mundo todo por boca a boca,” disse. “E isso só aconteceu porque quem usou esse método viu bons resultados.” O médico afirma ainda que, embora seja favorável à imunização contra a covid-19, tem atendido pacientes contaminados pela doença tanto vacinados quanto não vacinados. “Sou a favor da vacinação, mas preciso ver as vacinas funcionando, assim como ter dados mais concretos de sua segurança.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

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Em comparação com as demais mutações do coronavírus, qual a principal característica da variante Delta ?

A cepa Delta é de alta transmissão, mas tem baixa letalidade, e isso independente de vacinação. Na Inglaterra e em Israel houve uma explosão de casos com poucas fatalidades. Aqui no Brasil, já tenho uma procura alta, entre 34 e 60 casos por dia, porém a doença está mais leve. Os pacientes estão respondendo bem ao tratamento em casa, com o mesmo protocolo que implantamos em Belém, no Estado do Pará. Ainda tenho um rapaz de 33 anos com a variante P1 que estou tratando, aquela cepa mais agressiva de Manaus — hoje chamada de Gama. Ele está evoluindo bem.

O senhor foi pioneiro no uso de corticoides para tratar a covid-19. Qual a taxa de sucesso do seu tratamento e por que ainda não existe um consenso sobre como tratar a doença?

Perdi um, ou no máximo dois pacientes que começaram a tratar desde o começo da doença comigo. Minha equipe e eu já tratamos aproximadamente 3,5 mil pessoas. De modo geral, incluindo aqueles que chegaram mais tarde, perdi 15 pacientes. O mais novo deles tinha 67 anos e 12 tiveram outras complicações como infarto e hemorragia, portanto eu diria que morreram com covid, mas não de covid. Apesar da doença ter iniciado a gravidade do caso, eles eram idosos e tinham comorbidades. Mas a maioria foi salva. Diria que a proporção de curados é superior a 98%. O consenso sobre o tratamento não existe porque o ser humano é complicado e esquecem de colocar o paciente em primeiro lugar. Tem muita vaidade e política. O protocolo domiciliar que usamos se disseminou no mundo todo por boca a boca. Colegas americanos, australianos e sul-africanos chegaram às mesmas conclusões. Já existe uma coligação no mundo inteiro onde fazemos o tratamento desde o início com corticoides e outros medicamentos. E isso só aconteceu porque quem usou esse método viu bons resultados. Porém, não é unanimidade com os colegas que são mais restritos. Com aqueles que querem evidências acadêmicas, isto demora um pouco para ocorrer. Sempre usamos o critério malefício zero. E bons resultados enquanto os estudos ouro não estão disponíveis.

Como o senhor chegou à hipótese diagnóstica de que a covid-19 seria uma vasculite sistêmica? Existe alguma pré-disposição genética para desenvolver a síndrome pós-covid?

A hipótese das vasculites veio através da observação, que é uma forma de ciência. O médico imaginologista Renato Moron e eu conversamos sobre os problemas causados quando o vírus se divide em partículas e causa inflamações com lesão nos capilares [pequenos vasos]. Percebemos que a base do pulmão, onde estão existe uma maior concentração de vasos, é a primeira a ser afetada. Daí deduzi que o problema se espalha pelo sangue e concluímos que se trata de vasculite sistêmica porque ela se dissemina. Em resumo, a proteína Spike do vírus gruda nos vasos e inflama. Entre quem já teve a doença existem reclamações de vários sintomas como dores de cabeça, esquecimento, alterações nos nervos, cefaleia, hemorragia e pré-disposição à trombose. Mas se você trata no começo, as queixas diminuem e a tendência é que acabe tendo muito pouco pós-covid. Existe uma pré-disposição individual, mas eu não diria que ela é genética. Na verdade, em minha experiência, observei que a disseminação das partículas mortas do vírus tem um peso muito maior.

“Me preocupa utilizar o critério vacinação como passaporte com a intenção de conter a doença”

Qual sua avaliação sobre a efetividade da vacinação em seus pacientes? 

Ainda não temos tantos dados para avaliar as vacinas. No presente momento, observo que a grande maioria dos pacientes que estou atendendo são vacinados. A cepa Delta, que tem o quadro mais leve, está respondendo bem ao tratamento domiciliar. O que está claro para mim, e eu não estou sozinho neste pensamento, é que as vacinas atuais não protegem contra a infecção e a disseminação do vírus dessa variante Delta. Elas não impedem a infecção e muito menos evitam a disseminação. Por isso, me preocupa utilizar o critério vacinação como passaporte com a intenção de conter a doença. Está havendo uma desatualização do que está acontecendo para tomar uma decisão dessas. Existe o caso do navio que saiu do Texas para o Caribe com quase todos os passageiros vacinados, e ainda assim teve um surto de cepa Delta a bordo. Em Israel, por exemplo, entre os internados, metade são vacinados e metade não são. Aquele país vacinou 80% da população.

Em sua prática clínica, o senhor observa muitos casos de reinfecção pelo coronavírus?

Praticamente, por um ano e meio, não peguei um caso de reinfecção comprovado. Houve dois casos suspeitos apenas com sintomas muito leves. O que está bem demonstrado por vários estudos é que quem pegou a doença tem imunidade sobre todas as variantes. A reinfecção até existe, mas ela é raríssima. Muitos casos que foram considerados reinfecção, depois de passarem por uma análise mais rigorosa, mostraram-se como a primeira infecção. Comprovou-se que os diagnósticos do passado eram falsos positivos. Reinfecção é a raridade da raridade.

Quem já foi contaminado pelo vírus deve esperar quanto tempo para se vacinar?

Prefiro que o paciente espere 6 meses. Primeiro, porque ele já está imunizado naturalmente por pelo menos um ano. Segundo, como o mecanismo que causa a covid é a inflamação, fico com receio de estimular uma nova inflamação grave em quem acabou de se curar. Existem relatos de que os imunizantes possam estar associados a esses efeitos posteriores à covid, mas ainda não é oficial. Na Itália e na Alemanha existe esse período de seis meses para uma dose de reforço.

O senhor é favorável à vacinação contra a covid-19 em menores de 18 anos?

De 30 anos para baixo, não indico vacina porque o risco de fatalidade é muito baixo, e não vale os riscos das complicações. O risco de um efeito colateral grave ocorre para todo mundo que tomou a vacina, independente da faixa etária. A pessoa pode ter um derrame, um infarto, miocardite e desenvolver a síndrome de Guillain-Barré. O ponto é que a letalidade da covid-19 já é baixíssima em pessoas com menos de 50 anos. Para quem é menor de 18 anos, então, são tão poucas as mortes que não vale a pena correr o risco de tomar a vacina e ter um efeito adverso grave. A questão é matemática, custo-benefício. Um estudo apontou que os casos de pacientes mais jovens que não evoluíram bem com a covid tinham diversas comorbidades, como leucemia e outras doenças autoimunes. Elas tiveram uma fatalidade não pela covid, mas com a covid. As duas coisas são muito diferentes.

Por volta de outubro do ano passado, a curva de mortes e casos achatou. Com as festas de fim de ano e chegada de novas cepas, os números da pandemia em 2021 foram ainda piores no Brasil e outros países. Agora, o número de óbitos está novamente caindo no país. Qual o papel da vacinação na queda de mortes?

É difícil saber o quanto a vacina ajudou. Toda epidemia tem começo, meio e fim. Lá atrás, houve aumento de mortes, ele caiu porque os pacientes que se curam acabam se imunizando. Depois, pessoas que não haviam sido expostas entraram em contato com o vírus nas baladas, e aí existiu uma nova elevação. Ainda tivemos o azar da cepa Gama no Amazonas, e essa foi extremamente agressiva. E mesmo assim foi com começo, meio e fim, em igual intervalo de tempo. Então não sei se é o comportamento natural da doença ou se as vacinas tiveram um peso nisso. Contudo, me chamou a atenção que em uma época, por três semanas consecutivas, não tive procura de idosos. Esse dado indica que talvez as vacinas tenham causado alguma proteção nessa faixa etária. Nas últimas duas semanas, tenho atendido tanto vacinados quanto não vacinados. Sou a favor da vacinação, mas preciso ver as vacinas funcionando, assim como ter dados mais concretos de sua segurança.

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