Existe um livro, obviamente esquecido pelo mainstream cultural brasileiro, já sem reimpressão pela editora que o relançou no Brasil em 2009, que nos conta a vida e experiência do poeta cubano Reinaldo Arenas no pós-revolução de Fidel Castro. Antes que Anoiteça (Record, 2001, 3ª edição) é um relato poderoso, um dos livros que me marcaram profundamente durante os meus anos universitários e, com certeza, me impediram de cair nas seduções propagandistas da esquerda naquele tempo. A ironia, por sua via, é que Reinaldo Arenas era um socialista — em crise de consciência profunda com sua ideologia, mas ainda um socialista.
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Essa é — sem desperdício de retórica — uma daquelas obras que destroem qualquer nível de utopismo sobre a falsa ideia de paraíso caribenho. Reinaldo Arenas era socialista, homossexual assumido e um verdadeiro escritor de alto nível. Ele demonstra, por meio de sua autobiografia como uma ideia de liberdade, via revolução socialista, se tornou na prática uma das ditaduras mais abusivas e desumanas do século 20.
A obra rememora sua infância até seus últimos instantes, passando pela euforia inicial impulsionado pelas promessas e propagandas dos comunistas, até seu desencanto crescente com a realidade do comunismo prático. Depois de finalizar o livro com ajuda de amigos, já muito debilitado pela Aids, ele comete suicídio em Nova York em 7 de dezembro de 1990. Sua ideia era deixar o referido livro como uma espécie de testamento e purgação. Em sua carta de despedida, encontrada junto ao seu corpo, ele escreveu:
Carta de despedida
Queridos amigos: devido ao meu estado de saúde precário e à terrível depressão que sinto por não poder continuar escrevendo e lutando pela liberdade de Cuba, decidi pôr fim à minha vida. Nos últimos anos, apesar de me sentir muito doente, consegui terminar minha obra literária, na qual trabalhei por quase trinta anos. Deixo-lhes, portanto, como legado todos os meus terrores, mas também a esperança de que em breve Cuba será livre. Sinto-me satisfeito por ter podido contribuir, ainda que modestamente, para o triunfo dessa liberdade. Coloco fim à minha vida voluntariamente porque não posso continuar trabalhando. Nenhuma das pessoas ao meu redor está envolvida nessa decisão. Há apenas um responsável: Fidel Castro. Os sofrimentos do exílio, as penas do desterro, a solidão e as doenças que pude contrair no exílio certamente não teria sofrido se tivesse vivido livre no meu país.
Exorto o povo cubano, tanto no exílio como na ilha, a continuar lutando pela liberdade. A minha mensagem não é uma mensagem de derrota, mas de luta e esperança. Cuba será livre. Eu já sou.
Renato Arenas
De Cuba de 1959 ao Brasil de 2025

Mas, para além de recomendar o livro — o que realmente faço com muita força —, um dos pontos tratados na obra é de extrema importância para nós brasileiros de 2025. Logo depois da entrada triunfal de Fidel em Havana, em 8 de janeiro de 1959, antecipado pela fuga de Fulgêncio Batista no dia 1º daquele mesmo mês, Fidel montou muitos tribunais da revolução para dar cabo de matar opositores e estrangular qualquer anseio de contrarrevolução. Para isso, encenavam julgamentos supostamente imparciais.
Nas palavras de Arenas: “Os julgamentos eram verdadeiros espetáculos teatrais onde o público se divertia” (p. 70). Ele continua: “Eram julgamentos apenas falados, espetaculares e fulminantes, muitas vezes transmitidos pela televisão” (p. 71). Noutro capítulo adiante, o escritor cita um caso específico muito ilustrativo: “Um dos acontecimentos mais monstruosos que ocorreu naquela época foi o famoso processo contra Marcos Rodríguez (…). O que ficou claro foi a grandiloquência e a teatralidade, características de Fidel Castro, durante todo o julgamento. Os julgamentos onde se condenava uma pessoa à morte eram realmente espetáculos teatrais” (p. 88).
Arenas chega à conclusão de que, na prática, o comunismo era irmão gêmeo do fascismo, o mesmo fascismo que, desde a juventude, buscava combater
Pedro Henrique Alves
Segundo as descrições do autor cubano, montava-se um júri feito de revolucionários eminentes — geralmente os mais fieis e sanguinários —, cuja função era simular uma espécie de tratamento jurídico isento, sendo que na realidade a condenação já era reconhecida por todos antes de qualquer coisa. O julgamento pré-acordado, a tirania dos julgadores que estabelecem, antes de qualquer apreciação ética, a sorte do “já condenado”, tudo isso, para Arenas, soava claramente como um indicativo imediato de ditadura, a práxis universal de tirania.
Um relato assombroso

Este é um dos primeiros e mais decisivos relatos de assombro e desencanto de Arenas com a revolução. Com isso, tornava-se cada vez mais notório para o escritor que a justiça, a tolerância e a igualdade — parâmetros basais defendidos pelos discursos comunistas em revistas, livros e palanques — não eram de fato praticados, apenas propagandeados. Com o tempo, Arenas chega à conclusão de que, na prática, o comunismo era irmão gêmeo do fascismo, o mesmo fascismo que, desde a juventude, buscava combater.
Não relacionar isso ao patético julgamento do ex-presidente Bolsonaro se torna muito difícil para aqueles que, como eu, entronizaram o livro do cubano. O julgamento que assistimos desde a última terça-feira, 2, não é imparcial, é antes teatral, foi premeditado com uma atuação tripla de um ministro, que foi investigador, acusador, vítima e, agora, um “juiz isento”. Não me parece mais absurdo o paralelo de um típico tribunal revolucionário, com o que vemos no julgamento do ex-presidente.
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A condenação de Bolsonaro já foi estabelecida há muito tempo, e para isso erigiu-se o juiz raivoso (militante), a narrativa oficial a ser seguida pelos sicários (propaganda espetaculosa) e o resultado final que se espera pelo bem da agenda (a inexistência da oposição). Os elementos estão aí, sob uma maquiagem verdadeiramente pesada, pois para dar vida artificial a um defunto, como é o caso de nossa democracia, é necessário pesar no marketing corporativo e nos ângulos de enfoque. Deve-se parecer, o máximo possível, que se trata de um julgamento imparcial, ainda que todos saibam que não é.
Se assustaria Arenas, caso vivesse no Brasil atual, como aquela exigência de desfaçatez e submissão da coerência, que outrora atingiu sua ilha por meio da revolução comunista, se estabeleceu de forma tão plena em solo brasileiro também. Esperava-se dos militantes e dos acovardados, sempre que o tribunal revolucionário armava seus circos, que todos fingissem que ali estava um processo desembrulhado em lisura inconteste, hoje no Brasil todos fingem o mesmo, sob o medo de que, caso não o façam, a mão da “democracia togada” venha nos calar e prender em nome da “liberdade”.
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