Alternativa ao gás russo: energia nuclear

A invasão da Ucrânia está obrigando os europeus a repensar suas fontes energéticas
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Foto: reprodução Wikipedia
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Os franceses que compareceram às urnas neste domingo, 24, escolheram mais do o chefe do estado francês. Também optaram por um projeto de energia nuclear. De um lado, a candidata Marie Le Pen defende abertamente maior investimento nessa modalidade. Já Emmanuel Macron faz malabarismo com os ambientalistas a fim de angariar votos do Partido Verde.

Existe um consenso entre os dois: o modelo nuclear deve continuar na França como fonte energética. Macron defende que “nenhum reator nuclear em estado de produção seja encerrado no futuro, a menos que por razões essenciais de segurança”. Por outro ladro, Le Pen também defende a expansão da vida útil das atuais usinas.

A guerra entre Rússia e Ucrânia impôs uma dura realidade ao bloco europeu: é urgente encontrar uma saída para dependência do gás russo – responsável por cerca de 40% do gás da Europa.

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Com a escalada nas tensões, as potências europeias intensificaram seus planos de construção de centrais nucleares. De acordo com relatório publicado no dia 29 de março pela S&P Global Commodity, é previsto um crescimento das construções de usinas na Europa. A iniciativa, no entanto, não é suficiente para evitar a queda gradual da capacidade de energia nuclear, visto que os reatores chegam ao fim da sua vida útil em 2050.

Localização de usinas nucleares na Europa em 2020. (Mapa: reprodução Wikipedia)

França

Em fevereiro, o chefe de Estado francês pediu à Électricité de France (EDF) a construção de seis novos reatores de água pressurizada de terceira geração (EPR) até 2050. A construção da primeira usina deve começar em 2028.

Comentando a situação francesa, o doutor em Ciência Política Elton Gomes afirmou que a realidade está se impondo a Emmanuel Macron: a energia nuclear é um caminho sem volta.

“Macron se identifica como centrista puro, mas eu identifico mais como centro-esquerda. Não chega a ser um social-democrata, mas é uma pessoa defende teses progressistas. Ele flertou muito com essas ideias do ESG. Isso dava para ele um certo prestígio, uma superioridade moral, mas ele foi confrontado com sua excelência, o fato, que diz que: se a França não reativar as usinas atômicas ou permitir que as que estão em operação sejam desativadas, isso levará inevitavelmente ao colapso energético do país. Então ele já foi mudando seu posicionamento. Marie Le Pen, que representa essa força conservadora, de direita, já se mostrou favorável à energia nuclear.”

Elton complementa que o presidente francês deverá ser prudente em relação às declarações ao público. “Macron precisa ser cuidado. Ele nem pode fazer uma declaração efusiva, escancarada em favor da energia atômica, nem pode deixar de considerar essa possibilidade. Hoje a França não tem outras alternativas. Talvez no futuro, com infraestrutura, pode trazer gás da Argélia ou importar mais dos Estados Unidos – que é mais caro.”

Reino Unido

De olho na dependência do gás russo, o Reino Unido também se movimenta para avançar na pauta nuclear. Em 21 de março, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, se reuniu com representantes da indústria e tecnologia nucleares para discutir alternativas. Participaram da reunião as empresas Electricite de France SA, Bechtel Group Inc. e Westinghouse Electric Co., além de bancos e fundos de pensão.

No momento, o Reino Unido produz cerca de 16% da sua energia a partir de centrais nucleares, mas vários reatores estão previstos para o encerramento. O objetivo é fazer com que esse percentual se eleve para 25%. O governo Johson já havia indicado a pretensão de construir uma usina nuclear de grandes proporções até 2024.

Dentre os obstáculos a serem superados, o Reino Unido espera realizar mudanças na regulação do setor. O intuito é dar aos investidores a longo prazo mais certezas sobre os retornos financeiros. A medida também deseja mostrar que governo britânico está mais ambicioso em relação à energia nuclear.

Alemanha

Indo na contramão dos principais países da região europeia, a Alemanha se encontra em um impasse sobre a permanência de usinas em seu território. O país possui uma profunda dependência do combustível russo.

De acordo com dados da AG Energiebilanzen e.V. – principal grupo de pesquisa do setor energético – o gás natural representa 26,7% da matriz energética alemã. Mas, segundo o Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), o gás russo representava 66% desse percentual.

No último dia 5 de abril, o ministro da Energia da Alemanha, Robert Habeck, afirmou que o governo já reduziu para 40% a participação russa no gás nos primeiros meses do ano. Nesta quarta-feira, 20, o chanceler alemão, Olaf Scholz, anunciou querer zerar importação de petróleo russo até o fim do ano. A commodity é responsável por 32% da energia da Alemanha, sendo a maior parte provinda da Rússia.

Apesar da drástica dependência energética e da posição da Rússia no cenário internacional, o governo do chanceler Scholz insiste em eliminar a energia nuclear de seu país. Em 6 de abril, ele reiterou sua posição contrária à energia nuclear e defendeu o fechamento das usinas. As três últimas unidades estão previstas para serem encerradas até o final deste ano. A mudança de posicionamento se iniciou em 2011, na gestão de Angela Merkel, após a catástrofe de em Fukushima, Japão.

“Decidimos, por razões que considero muito boas e corretas, que as queremos desativar gradualmente”, declarou Scholz, na Câmara Baixa do Parlamento em Berlim. Ao responder o apelo de um parlamentar para que o governo mantivesse a energia nuclear, Olaf afirmou que a proposta “não seria um bom plano”. Para escapar da dependência russa, o gabinete de Scholz aprovou um pacote de medidas destinadas a tonar a Alemanha independente dos combustíveis fósseis até 2035. O objetivo é cortar as emissões de poluentes e aumentar a quota de energia renováveis para 80% até 2030.

Ainda em abril, uma pesquisa realizada pelo instituto Deutschlandtrend no mostrou que 53% dos alemães são a favor que as centrais nucleares já existentes permaneçam abertas. A mudança de opinião é drástica em comparação ao início do ano, quando a maioria era a favor do fechamento das plantas nucleares.

Protesto antinuclear um dia antes do fechamento da usina de Grohnde, na Alemanha em 2021. Foto: Michael Löwa / divulgação Greenpeace.

Parte das medidas tomadas pelo novo governo alemão ecoam na disputa de poder político dentro do próprio parlamento, o Bundestag. Para Elton Gomes, Olaf precisou adotar o discurso ecológico para manter sua base de sustentação no legislativo.

“A situação da Alemanha é muito complexa, de longe é a mais complicada desses três grandes da Europa [França, Inglaterra e Alemanha]. A Alemanha viu crescer nos últimos 20 anos o Partido Verde. Esse partido passou a ser instrumental para as coalizões governativas. Ninguém consegue efetivamente conquistar e manter maioria no parlamento sem o apoio do Partido Verde”, afirmou Elton.

Ele também destacou que o lobby ambientalista foi responsável direto pela mudança de mentalidade da população alemã.

“Então, se formou um estado de coisas na política doméstica alemã que fez com que o lobby para a chamada energia ESG ganhassem muito poder. Eles fizeram a cabeça da opinião pública alemã. Parte do argumento deles é verdadeiro, de adoção de energias limpas e renováveis, mas o resto é ideológico”, disse.

O lobby contra a energia nuclear permeou a política. Em 2022, Alemanha e Rússia finalizaram a construção do gasoduto Nord Stream 2. A obra, iniciada em 2018, foi alvo de controvérsias desde o início deste século. Uma delas foi ter o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder como um de seus principais apoiadores.

“Efetivamente, a situação da Alemanha também se complicou muito porque, como esse lobby se fortaleceu bastante, figuras da política alemã, como Gerhard Schröder, se tornaram eles mesmos pessoas muito próximas da indústria de gás e com muitas conexões com o mercado e a política russa”, complementou Gomes.

Em 2005, Schröder assinou um acordo com a Rússia para a construção do Nord Stream 1. Após perder o cargo de chanceler para Merkel, ele foi nomeado por Purin como chefe do comitê de acionistas da Nord Stream AG, empresa responsável pela construção do gasoduto. O equipamento custou 8,8 bilhões de euros e atravessa o Mar Báltico, partindo de Vyborg, na Rússia, até Lubmin, na Alemanha.

Na construção da Nord Stream 2, Schröder também foi nomeado por Putin para a comandar a nova empreitada, sendo alçado à presidência do conselho de administração da Nord Stream II AG e ao conselho de administração da Gazprom – empresa estatal russa de gás.

Propaganda do NordStream (Foto: reprodução Wikipedia)

O presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, admitiu que ter levado adiante a construção do gasoduto foi um erro. Ele foi ministro das Relações Exteriores na gestão Angela Merkel. Sendo um defensor de longa data sobre a reaproximação do ocidente com a Rússia, Steinmeier reconheceu que a conflito na Ucrânia afastou a possibilidade de diálogo.

“Meu apoio ao Nord Stream 2 foi claramente um erro”, disse ele. “Estávamos aderindo a uma ponte na qual a Rússia não acreditava mais e contra a qual outros parceiros nos alertaram.” E acrescentou: “Nós falhamos em construir uma casa europeia comum. Eu não acreditava que Vladimir Putin abraçaria a completa ruína econômica, política e moral de seu país por causa de sua loucura imperial. Nisto, eu, como outros, estava enganado.”

Outros países da Europa

Além de França, Alemanha e Reino Unido, outros países da Europa também correm para aumentar o desempenho de suas usinas atômicas. A guerra entre Rússia e Ucrânia acabou invertendo suas prioridades em relação ao desenvolvimento energético.

Bélgica, República Checa, Polônia e Romênia procuram manter suas plantas nucleares ou estender seu tempo de vida. Em entrevista ao jornal Washington Post, o presidente da Westinghouse – empresa especializada em soluções energéticas – David Durham confirmou a movimentação do bloco europeu.

“Todos estão fazendo pelas mesmas razões: descarbonização, segurança energética e segurança nacional”, disse Durham. Ele confirmou que a empresa assinou contratos com 19 entidades governamentais de diversos países europeus para o desenvolvimento de estratégias para o setor.

Cazaquistão

As empresas responsáveis pela produção de energia no bloco europeu também correm para encontrar soluções frente ao impasse russo. Forçados a cortarem a compra de combustível nuclear do país de Putin, os produtores enxergam no Cazaquistão uma alternativa para a questão. O país é o terceiro maior fornecedor de urânio à Europa, fornecendo 19,2% em 2020, depois do Níger (20,3%) e da Rússia (20,2%).

Em comunicado, a empresa estatal Kazatomprom, a empresa atómica do Cazaquistão, anunciou estar aumentando sua produção de derivados do urânio, octoxido de triurânio (tU) . “O volume de produção em 2022 deverá situar-se entre 21.000 tU e 22.000 tU”, explicou a empresa. Entretanto, a estatal observou que o quadro de demanda no período pós pandemia de covid-19 afetou a cadeia de abastecimento, limitando o acesso a materiais importantes para a produção de combustível nuclear.

Foto: Pixabay
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4 comentários Ver comentários

  1. Putin deu um tiro no próprio pé. Está perdendo seus grandes clientes, portanto receitas, seu exército é mal treinado, mal equipado, sem manutenção adequada, e mal comandado.
    Seu exército é o fruto de administração corrupta sistêmica ( incluindo os comandantes), aliás como toda a Rússia.

    1. E você acha que esses europeus irão levantar essas usinas nucleares como quem vai ao supermercado e escolhe uma delas na prateleira? Tá de brincadeira?
      Se você não sabe e parece que não, uma usina dessas leva no mínimo uns oito anos para ser montada e também tem outra coisa, meu filho, tem que produzir o combustível nuclear, e isso eles não tem em seu território, as minas de urânio mais próximas estão na Africa.

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