O endividamento das famílias brasileiras alcançou o patamar mais crítico da última década logo que o volume de CPFs inadimplentes tingiu 81,7 milhões em fevereiro. Esse número representa um salto de quase 40% na comparação com o cenário de dez anos atrás, quando o país contabilizava 59 milhões de pessoas nessa situação. A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, apresentou o diagnóstico durante um balanço sobre os indicadores de inadimplência, ressaltando que o recorde negativo vem sendo superado mês a mês desde o início de 2025.
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A estrutura financeira dos lares brasileiros demonstra sinais claros de exaustão. De acordo com os dados técnicos, o cidadão médio compromete atualmente 70,5% de sua remuneração com dívidas, o que deixa uma margem mínima para o consumo básico. A inflação persistente atua como um agravante nesse quadro, pois reduz o valor real dos salários e castiga principalmente as camadas da população com faturamento reduzido.
Perspectiva sombria para o crédito
O mercado financeiro já recalibrou as expectativas e não projeta uma melhora consistente no curto prazo. As instituições bancárias reduziram a oferta de linhas de financiamento mais baratas, forçando o consumidor a recorrer a modalidades de crédito com taxas proibitivas. Com a mudança de tom do Banco Central em suas comunicações recentes, a previsão para a taxa Selic no encerramento de 2026 subiu para 12,5%, indicando que o custo do dinheiro permanecerá em dois dígitos por um período prolongado.
As projeções de juros de longo prazo, que flutuam entre 13% e 14%, reforçam o ambiente de cautela extrema. Esse cenário restritivo impede que o processo de flexibilização monetária alivie o bolso das famílias de maneira imediata. Mesmo com eventuais reduções pontuais, o patamar dos juros continuará sufocando a capacidade de pagamento de quem já possui débitos em atraso.
A situação pode se agravar ainda mais se as tensões geopolíticas internacionais, como o conflito no Oriente Médio, pressionarem o preço das commodities e da energia. Uma nova disparada inflacionária deterioraria o poder de compra de forma ainda mais agressiva, empurrando uma parcela maior da sociedade para a insolvência. O ciclo de inadimplência recorde, portanto, encontra-se alimentado por uma combinação de juros elevados, falta de acesso a crédito acessível e uma carestia que não dá trégua ao orçamento doméstico.
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