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Economia

China captura a OMC

'Ao permitir que um país manipule designações para satisfazer credores, a organização deixa de ser regida por regras'

OMC china
Sede da OMC, em Genebra, Suíça | Foto: Reprodução/Redes sociais

A diplomacia, em sua essência, sempre foi o terreno da palavra empenhada e do reconhecimento mútuo como bases para a prosperidade. Contudo, o que testemunhamos na 14ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), sediada em Yaoundé, Camarões, sugere uma era sombria onde a hospitalidade multilateral deu lugar à “geopolítica de guichê”. A retirada da delegação de Taiwan, depois da tentativa deliberada do país-sede de designar a ilha como uma “província da China”, não é um erro burocrático, é o sintoma da erosão institucional frente à pressão do capital autocrático.

Como alguém que liderou diretrizes estratégicas no comando da Apex-Brasil, vejo este episódio com gravidade. Taiwan não é um ator periférico que pode ser apagado por conveniência de uma potência autoritária. Membro da OMC desde 2002, o país consolidou-se como um “membro modelo”, adotando padrões de transparência e propriedade intelectual que muitos de seus detratores ainda relutam em seguir. Tentar silenciá-lo é agredir o próprio mérito comercial que a organização deveria proteger.

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A hostilidade de Camarões explica-se pelos balanços financeiros de Yaoundé. Trata-se de uma “captura de Estado” via endividamento. Em 2025, os investimentos chineses na África atingiram US$ 61 bilhões — do Porto de Kribi à infraestrutura digital, a soberania camaronesa foi dada como garantia. Em Yaoundé, Camarões não exerceu soberania, mas pagou um “juro político” a Pequim, oferecendo a cabeça de um ator legítimo no xadrez global em troca da rolagem de sua dívida externa. Tem método.

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Esta manobra ignora a realidade incontestável de 2026: os semicondutores são o motor do mundo. Com exportações superiores a US$ 640 bilhões e o domínio de 90% da produção de chips de última geração (2nm e 3nm), Taipei detém a “soberania do silício”. Discutir cadeias de suprimentos ou inteligência artificial em uma mesa onde o principal produtor é impedido de negociar é uma encenação de absoluta irrelevância técnica. Sem Taiwan, os debates da OMC tornam-se conversas irrelevantes.

O prejuízo é sistêmico. Ao permitir que um país-sede manipule designações para satisfazer credores, a OMC deixa de ser regida por regras e torna-se um feudo de influência. Esse “gaslighting institucional” acelera a fragmentação do comércio global, empurrando as democracias liberais para fóruns paralelos e esvaziando a utilidade das organizações multilaterais.

OMC, China, Camarões e a soberania de Taiwan

É imperativo que lideranças, especialmente no Brasil, reconheçam Taiwan e casos como o de Kosovo pelo que são: nações soberanas na prática e parceiras indispensáveis na teoria. A soberania moderna mensura-se pela essencialidade na estrutura produtiva. Enquanto Taipei é soberana porque o mundo não funciona sem sua inovação e tecnologia, Camarões mostrou que sua política externa está à venda.

Exclusões diplomáticas são o maior erro estratégico da atualidade. Ao tentar apagar a ilha do mapa institucional, Pequim e seus prepostos não unificam territórios, apenas submetem fóruns internacionais aos desejos de autocracias em detrimento de democracias prósperas. O comércio exige pragmatismo e clareza. Sob o sol de 2026, a independência de democracias robustas brilha com uma intensidade que nenhuma burocracia financiada por bancos chineses será capaz de obscurecer.

Leia também: “‘Preservar a paz em Taiwan é crucial para a economia global”

E mais: “A esfinge chinesa”, artigo de Adalberto Piotto publicado na Edição 285 da Revista Oeste

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1 comentário
  1. FLAVIO AUGUSTO ROSSI
    FLAVIO AUGUSTO ROSSI

    COMO A ONU É UMA ESTIDADE POLÍTICA HOJE , QUE NÃO SERVE MAIS PRA NADA !

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