Por Nicole Alvim*
Os cortes na taxa de juros Selic, definidos pelo Copom ao final do mês de abril, não ocorreram sem a perpetuação de um forte e já conhecido debate. As vozes divergentes possuem, ambas, a sua dose de razão. Isso porque a taxa de juros elevada é acompanhada por um custoso trade-off: ela controla a inflação, mas faz isso ao custo de estagnar a economia e pode, inclusive, contribuir para uma piora da inflação no longo prazo.
Para entender como a taxa de juros pode, na verdade, prejudicar a inflação, é conveniente compreender o funcionamento do sistema econômico. A economia capitalista se construiu sobre uma dinâmica base: empréstimo e investimento. Com o nascimento dos bancos e a adoção do sistema capitalista de produção, tornou-se possível transformar capital em mais capital, quando indivíduos dotados de ideias possivelmente brilhantes tomavam dinheiro emprestado, por intermédio dos bancos, de pessoas que mantinham dinheiro parado na poupança.
Receba nossas atualizações
Hoje em dia, esse processo leva a um cenário de ganha-ganha universal, quando ideias produtivas de fato levaram à criação de produtos que melhoram o bem estar da população, ao mesmo tempo em que levam lucro para o empreendedor e, por fim, para o banco e àqueles que emprestaram dinheiro, ambos na forma de juros. Essa relação de ganha-ganha é abalada quando o custo desse empréstimo é potencializado, seja pelos altos impostos que limitam a capacidade produtiva do capital ou pela alta taxa de juros que elevam a dificuldade para o empreendedor de obter lucro.
+ Leia mais notícias de Economia em Oeste
No Brasil, ao longo das últimas décadas, a questão dos altos impostos tem sido crítica para o crescimento produtivo do país, prejudicando a oferta de bens e contribuindo para o atual desequilíbrio entre oferta e demanda que alimentam a inflação. Apesar disso, o governo não tomou as medidas necessárias para melhorar o ambiente de negócios, forçando o Banco Central a responder com a única ferramenta que lhe cabe: a taxa básica de juros do país, a Selic.
Um país que “mata” empresas
O aumento da taxa Selic não apenas pressiona ainda mais os cofres públicos já deficitários ao elevar o custo da dívida nacional como também torna o custo do crédito para o empreendedor ainda mais extorsivo. A taxa de sobrevivência da Datlo (2025), elaborada a partir de dados da Receita Federal, demonstra que apenas 44% das indústrias e 43% dos comércios sobreviveram aos últimos dez anos. A maior mortalidade demonstrada no ano de 2018 reflete, provavelmente, os efeitos tardios da crise de 2015, uma vez que a Receita começa a considerar o CNPJ inapto quando a empresa deixa de entregar declarações e obrigações acessórias por dois anos consecutivos.

Uma boa forma de explicar o mau uso da taxa de juros para um leigo é por meio de uma analogia simples. Imagine que a economia representa as leis da física — a “mão invisível” que atua sobre o sistema econômico. Nesse contexto, o Estado representa o carro — o equipamento que utilizamos para direcionar os efeitos da economia dentro de um determinado território.
Não podemos controlar as leis da física, ou a economia, mas podemos utilizá-las a nosso favor — claro, se formos capacitados para utilizarmos o equipamento que temos da forma adequada. Dentro dessa analogia, a taxa de juros funciona como um freio de mão: quando “solta”, baixa, a economia fica à mercê do ambiente externo, e é necessário que o “motorista” ou administrador controle o Estado para evitar que ele se torne, com o perdão do trocadilho, desgovernado.
A política fiscal contracionista e expansionista são, respectivamente, o freio e o acelerador. Para qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento a respeito de carros, é evidente que não podemos utilizar o freio de mão para dirigir o carro, e sim para estagná-lo quando não é possível dirigi-lo, impedindo-se a ocorrência de um desastre maior.
Se, em um contexto externo conturbado, uma “rampa íngreme”, você solta o freio de mão para acelerar e volta a segurá-lo quando ele parece que vai sair do controle, é evidente que você não apenas ficará preso praticamente no mesmo lugar como também vai, no longo prazo, simplesmente destruir o seu veículo.
“Com a curva de Laffer em seu ápice, a elevação da carga tributária é tão ineficiente quanto danosa”
Como abordamos anteriormente, uma taxa de juros elevada no longo prazo pode contribuir para o aumento da inflação. Além de promover dominância fiscal — quando o endividamento público é tão elevado que não consegue sustentar o aumento da taxa de juros, potencializando ainda mais a inflação a partir da consequente fuga de capitais e desvalorização da moeda — podemos também rastrear uma “dominância produtiva”, quando o mercado produtivo está tão estagnado que o aumento da taxa de juros pode levar à desindustrialização, reduzindo significativamente a oferta nacional e, mais uma vez, intensificando o efeito inflacionário ao forçar o cidadão a sustentar os elevados custos de importação. Sem crescimento e com inflação elevada, o Estado irá construir a tenebrosa estagnação que arruinou o sonho keynesiano na década de 70.
Pressão inflacionária
Isso não significa, contudo, que reduzir a taxa de juros vá salvar a economia nacional. Enquanto a guerra no Oriente Médio eleva a pressão inflacionária no mundo inteiro, a política fiscal brasileira não está respondendo da maneira adequada. Enquanto a taxação obsessiva do governo pode ser considerada uma política fiscal contracionista, ou “freio”, no contexto atual de rompimento da curva de Laffer, ela não atua como freio funcional, mas como freio quebrado depois de ser pressionado até o ponto de ruptura. Sem produção, a inflação cresce pelo lado da oferta. Com a curva de Laffer em seu ápice, a elevação da carga tributária é tão ineficiente quanto danosa.
É necessário que o Estado corte gastos, controle o endividamento, crie um ambiente amigável ao empreendedorismo e à industrialização, e até que reduza a carga tributária, especialmente sobre o setor produtivo. Sem essas ações, sem que o “freio” esteja devidamente controlado, soltar o “freio de mão” apenas tornará o país desgovernado e a inflação descontrolada.
Não é necessário que o administrador do país seja um economista. Porém, não seria de se exagerar exigir que ele possuísse, ao menos, uma adequada carteira de motorista.
*Nicole Alvim é estudante de graduação em gestão pública na Fundação João Pinheiro, membro do Grupo de Estudos Estado e Liberdade da instituição. Também integra o projeto Jovens Talentos pela Liberdade, do Instituto Millenium.






































Entre ou assine para enviar um comentário.
Você precisa de uma assinatura válida para enviar um comentário, faça um upgrade aqui.