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Economia

Fabiano Zettel movimentou R$ 99 milhões em 7 meses, aponta Coaf

Relatório indica transações incompatíveis com renda declarada e repasse a irmão de ex-diretor do BC

Zettel
Fabiano Campos Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro | Foto: Reprodução/fabiano.zettel/Instagram

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou que o empresário Fabiano Zettel movimentou R$ 99,2 milhões em apenas sete meses, valor incompatível com sua capacidade financeira. O montante equivale, em média, a R$ 14,1 milhões em transações a cada 30 dias — cifra mais de 200 vezes superior à renda mensal de R$ 66 mil declarada por ele.

De acordo com um Relatório de Inteligência Financeira, Zettel também realizou transferências que somam R$ 1,5 milhão para o irmão de um servidor do Banco Central (BC) responsável por fiscalizar o Banco Master, instituição pertencente a Daniel Vorcaro, cunhado do empresário. As informações são do o jornal O Globo.

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O documento revela que, entre junho de 2021 e janeiro de 2022, passaram pela conta de Zettel R$ 49,9 milhões em créditos e R$ 49,3 milhões em débitos. Para o Coaf, o padrão das movimentações revela que a conta pode ter sido utilizada para o trânsito de recursos de terceiros, prática que reforça a suspeita de que o empresário atuaria como operador financeiro de Vorcaro.

Fabiano Zettel é pastor da Igreja Lagoinha, em Belo Horizonte (MG)
Fabiano Zettel é pastor da Igreja Lagoinha, em Belo Horizonte | Foto: Reprodução/ Redes sociais

Segundo o Coaf, as movimentações são incompatíveis com a renda declarada e apresentam características incomuns para uma pessoa física, como transferências de mesma titularidade que entram e saem rapidamente da conta e operações com valores elevados sem causa aparente.

O relatório também destaca recebimentos seguidos de repasses imediatos de grandes quantias, o que dificulta identificar a origem e o destino dos recursos. A defesa de Zettel afirmou que não comentará o caso por não ter tido acesso ao relatório.

O documento detalha duas transferências feitas por Zettel ao empresário Luis Roberto Neves que somam R$ 1,5 milhão — uma de R$ 750 mil em 18 de dezembro de 2021 e outra no mesmo valor em 18 de janeiro de 2022.

Polícia Federal exibe itens apreendidos na Operação Compliance Zero | Foto: Montagem sobre reprodução/Divulgação/PF
Polícia Federal exibe itens apreendidos na Operação Compliance Zero | Foto: Montagem sobre reprodução/Divulgação/PF

Luis Roberto Neves é irmão do ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sergio Neves de Souza, alvo de mandados de busca e apreensão na terceira fase da Operação Compliance Zero. A área comandada por ele era responsável por monitorar as atividades do Banco Master. O servidor foi afastado e está proibido de frequentar a sede do BC.

Zettel foi preso junto com Vorcaro

Zettel e Vorcaro estão presos preventivamente desde a semana passada por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.

Na decisão, o magistrado afirma que o empresário atuava na intermediação e na operacionalização de pagamentos da organização criminosa, participando da criação de mecanismos para viabilizar transferências financeiras e estruturar contratos destinados a justificar os repasses.

De acordo com Mendonça, Paulo Sergio Neves de Souza é suspeito de atuar como um interlocutor interno dos interesses do Master dentro do BC, tentando influenciar a análise de processos administrativos. Segundo o despacho, há indícios de que o ex-diretor tenha recebido vantagens indevidas relacionadas à defesa de interesses do banco de Vorcaro.

Ministro Andre Mendonça, em sessão plenária no dia 4/2/2026 | Foto: Gustavo Moreno/STF

No dia da operação, o BC informou que já havia identificado indícios de percepção de vantagens indevidas, o que levou ao afastamento do servidor antes mesmo da decisão judicial. Procurada novamente pelo O Globo, a autoridade monetária não se manifestou. As defesas de Paulo Sergio Neves de Souza e de seu irmão também não comentaram o caso.

Reportagem do jornal Valor Econômico revelou ainda que o ex-diretor do BC vendeu por R$ 3 milhões uma propriedade rural em Minas Gerais à empresa Pipe Participações, da qual Zettel é sócio. A companhia administrada pelo irmão do servidor também participa da sociedade na Pipe.

Compra de resort de Toffoli

As movimentações financeiras também coincidem com o período em que Zettel adquiriu a participação da empresa do ministro do STF Dias Toffoli em um resort no Paraná. O relatório mostra que o empresário transferiu R$ 25,6 milhões, em 11 operações, para o fundo Leal, do qual era cotista e que era administrado pela gestora Reag, também investigada por suspeitas de fraude.

O fundo Leal é o único cotista do fundo Arleen, responsável por comprar a participação de Toffoli no Tayayá Resort, em Ribeirão Claro (PR). Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a transação foi concluída por R$ 20 milhões.

Liquidação extrajudicial da Reag foi anunciada nesta quinta-feira, 15 de janeiro | Foto: Divulgação/Reag
Liquidação extrajudicial da Reag foi anunciada em 15 de janeiro | Foto: Divulgação/Reag

Documentos da Junta Comercial do Paraná revelam que o fundo Arleen se tornou sócio do empreendimento em 27 de setembro de 2021, data próxima a quatro repasses feitos por Zettel ao fundo Leal, registrados em 20 e 29 de julho, 20 de setembro e 3 de novembro de 2021.

Em nota divulgada quando o caso veio a público, Toffoli afirmou que a empresa Maridt, da qual é sócio, vendeu sua participação no grupo Tayayá ao fundo Arleen por valor de mercado. O ministro declarou ainda que jamais recebeu qualquer quantia de Daniel Vorcaro ou de Fabiano Zettel e confirmou que a venda ocorreu em setembro de 2021.

Diante da divulgação de um relatório da Polícia Federal que mencionava mensagens entre Vorcaro e Zettel sobre pagamentos a uma empresa ligada ao ministro, Toffoli deixou a relatoria do caso Master no STF. Em novo sorteio realizado entre os 11 integrantes da Corte, o processo passou a ser conduzido por André Mendonça.

Ministro Dias Toffoli, ex-relator do caso Master no STF | Foto: osé Cruz/Agência Brasil
Ministro Dias Toffoli, ex-relator do caso Master no STF | Foto: osé Cruz/Agência Brasil

Outras movimentações

O relatório do Coaf também menciona outras transferências relevantes feitas por Zettel, como um repasse de R$ 1,5 milhão para a empresa Super Empreendimentos, da qual ele era diretor e que é apontada como peça central no suposto esquema de fraudes financeiras.

Há ainda uma transferência de R$ 1 milhão para um piloto de avião que mantinha contato frequente com Vorcaro e outra de R$ 763 mil para uma joalheria localizada na Rua Oscar Freire, área nobre de São Paulo.

Essas transações foram consideradas suspeitas por atenderem a critérios legais que indicam movimentações financeiras atípicas ou incompatíveis com o perfil do cliente. Nesses casos, o Coaf elabora um Relatório de Inteligência Financeira, documento que não aponta diretamente a existência de crime, mas serve de base para que autoridades iniciem ou aprofundem investigações.

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