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Economia

Mito da gorjeta cai por terra

Estudo da Universidade de Tel Aviv revela que prática ocorre muito mais em função de uma convenção social

Restaurante gorjeta estudo Tel Aviv
Questão de comportamento social prevalece, segundo estudo Foto: Janay Peters/Unplash

Um novo estudo da Universidade de Tel Aviv revela que a gorjeta depende muito mais da necessidade de aceitação social do que de satisfação e desejo de estímulo para o garçom. Tal comportamento coletivo sustenta um sistema que, conforme informou o USA Today, movimenta cerca de US$ 30 bilhões por ano nos Estados Unidos (EUA).

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A pesquisa, denominada A Dinâmica Social da Gorjeta: Entre Gratidão e Conformismo, apresenta um modelo teórico que descreve como a pressão para seguir normas sociais faz o valor da gorjeta aumentar progressivamente. O mecanismo contraria pressupostos clássicos da economia. Como resume o doutor Ran Snitkovsky, um dos autores do trabalho: “A gorjeta é um fenômeno difícil de explicar usando ferramentas econômicas clássicas.”

Segundo o estudo, à medida que a gorjeta se consolida como norma social, o preço cobrado pela empresa tende a cair enquanto a gorjeta média paga pelos clientes aumenta. Em termos práticos, um serviço que inicialmente custa R$ 100 com uma gorjeta média de R$ 10 pode passar a ser vendido por R$ 90, com uma gorjeta média de R$ 18.

O gasto total do consumidor permanece semelhante, mas a composição muda: a gorjeta, que antes representava 10% do preço, passa a representar 20%. A conclusão é clara: com o tempo, a gorjeta deixa de ser um extra voluntário e passa a funcionar como parte estrutural do custo do serviço.

Além de Snitkovsky, da Coller School of Management da Universidade de Tel Aviv, o professor Laurens Debo, da Tuck School of Business do Dartmouth College, assina o estudo. O trabalho foi publicado na revista Management Science.

São identificados dois grupos que moldam a evolução da prática: aqueles que deixam gorjeta por gratidão e os que apenas seguem o comportamento dominante para não destoar. Os primeiros puxam a média para cima; os segundos imitam o padrão vigente.

“O processo é impulsionado, de forma inerente, pelos apreciadores, que puxam os conformistas para cima, mas não o contrário”, explica Snitkovsky. Isso ajuda a entender por que o percentual, que girava em torno de 10% algumas décadas atrás, hoje se aproxima de 20% em muitas regiões americanas.

Os autores lembram que interpretações tradicionais, como a ideia de que a gorjeta existiria para garantir melhor atendimento no futuro, não conseguem explicar o hábito em interações únicas, quando não há chance de reencontro. Snitkovsky reforça:

“No passado, pesquisadores sugeriram que a gorjeta garante um melhor serviço no futuro, mas isso não explica por que damos gorjeta mesmo quando temos quase certeza de que nunca encontraremos aquele prestador novamente.”

A dimensão econômica do fenômeno impressiona. Dados recentes mostram que o sistema de gorjetas nos EUA movimenta aproximadamente US$ 30 bilhões por ano e representa uma das principais fontes de renda para milhões de trabalhadores. O norte-americano médio desembolsa cerca de US$ 500 anuais apenas em gorjetas de bares e restaurantes.

Segundo outra hipótese discutida pelos autores, proposta pelo professor Yoram Margalioth, da Universidade de Tel Aviv, o aumento do valor das gorjetas pode refletir desigualdades econômicas em expansão, interpretação compatível com o modelo desenvolvido no estudo.

A pesquisa também dedica atenção ao tip credit, regra aplicada na maioria dos Estados norte-americanos que permite às empresas pagarem menos que o salário mínimo a trabalhadores que recebem gorjeta, deixando ao consumidor a responsabilidade de complementar a diferença.

Se o piso é de US$ 8 e o valor submínimo autorizado é de US$ 3, o empregador repassa apenas esses US$ 3; os outros US$ 5 devem vir da gorjeta. Segundo Snitkovsky, “vemos que um tip credit mais alto permite que as empresas reduzam os preços — porque dependem mais das gorjetas para financiar o trabalho. Consequentemente, podem aumentar a oferta e atender mais clientes.”

O custo da gorjeta

O ganho de eficiência, porém, tem um custo evidente: a renda direta do garçom encolhe. Para Snitkovsky, trata-se basicamente de um mecanismo pelo qual parte da gorjeta, que deveria pertencer ao funcionário, é usada para compor o salário. “A eficiência, nesse caso, ocorre às custas do ganho individual do trabalhador.”

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Outro ponto do estudo desmonta a ideia de que a gorjeta serve como incentivo decisivo para melhorar o atendimento. Como muitos consumidores apenas replicam o comportamento dos demais, o esforço extra não se traduz necessariamente em ganho adicional.

Snitkovsky afirma: “Se um atendente sabe que a maioria dos clientes são conformistas, há pouca razão para fazer esforço extra, já que eles darão o valor habitual de qualquer forma.”

O pesquisador admite que iniciou o estudo já crítico ao sistema. “Eu vim para este estudo com um viés. Pessoalmente, eu não gosto dessa prática, e eu queria entender o que a sustenta.”

Além disso, ele lembra efeitos colaterais documentados em outras pesquisas: a dependência da gorjeta pode estimular situações de abuso, especialmente entre mulheres, que evitam impor limites para não perder parte significativa do rendimento.

Há ainda evidências de que clientes dão gorjetas maiores a atendentes da mesma etnia, introduzindo vieses raciais no processo. No século 21, ele argumenta, existem instrumentos melhores para avaliar desempenho, como “avaliações online e até câmeras internas.”

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1 comentário
  1. Célio Antônio Carvalho
    Célio Antônio Carvalho

    Ou seja: mais um tributo, mais uma extorsão em cima do cliente! Quem tem de pagar os salários é o contrante! Por isso evito as saídas, assim não sou obrigado a pagar, “dar esmola”, que aliás, convenhamos, é muito alta!

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