Estônia alerta: cuidado com a China

O aviso vem do Báltico: o regime chinês está mesmo espionando o Ocidente e busca aumentar sua influência na Europa
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A China tem utilizado sua influência econômica, o monitoramento de cidadãos chineses no exterior e a aproximação com elites locais como instrumentos de pressão em favor de seus interesses
A China tem utilizado sua influência econômica, o monitoramento de cidadãos chineses no exterior e a aproximação com elites locais como instrumentos de pressão em favor de seus interesses | Foto: Divulgação/Flickr

*Por Márcio Coimbra

Os países do Báltico têm uma tradição enorme em busca de liberdade e democracia. O mundo conheceu esse ímpeto durante a queda da Cortina de Ferro. Em agosto de 1989, um cordão humano de 650 quilômetros atravessou Lituânia, Letônia e Estônia em um protesto pacífico. Pouco tempo depois as antigas três repúblicas socialistas da União Soviética conseguiram se libertar da opressão de Moscou e tornaram-se países livres.

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O fato é que essas pequenas nações se tornaram símbolo contra a resistência comunista e inspiraram diversos outros países a se rebelar contra o regime comandado por Moscou. A coragem mostrada pelos países do Báltico mostrou que independência e autodeterminação são essenciais para garantir a democracia.

Estônia, um país na vanguarda

Décadas depois, as nações do Báltico continuam a inspirar outros países em temas considerados essenciais, posicionando-se como referência e também inspiração. O crescimento da Estônia, em especial, colocou o país na vanguarda em relação aos vizinhos e à Europa de modo geral, seja pelos aspectos econômicos, assim como pela revolução digital e limitação da influência e do poder do governo sobre a vida dos cidadãos.

Depois de livre, a Estônia continuou a ter de lidar com a incômoda presença russa em seus limites territoriais, uma experiência que ensinou o pequeno país báltico a lidar com grandes nações que pretendem exercer influência em suas fronteiras. Logo, não foi com surpresa que o país tenha passado a enxergar a tentativa de penetração chinesa com vistas a dominar seu estratégico sistema tecnológico.

O modelo chinês, identificado pela Estônia, visa a enfraquecer a aliança atlântica entre Europa e Estados Unidos, tentando dividir dois aliados históricos, essenciais no desenho de visão ocidental, que preserva a democracia e a liberdade como conhecemos. Ao dominar a tecnologia, o grande risco é de silêncio das democracias pelo governo chinês, que utilizam empresas como Huawei e ZTE como extensão dos interesses de Pequim.

A pressão da China

A Estônia, que possui um sofisticado modelo de alta tecnologia, entende que a China tem utilizado sua influência econômica, o monitoramento de cidadãos chineses no exterior e a aproximação com elites locais como instrumentos de pressão em favor de seus interesses. Esses movimentos estão sendo monitorados por Tallin, uma vez que as aproximações dos chineses com os russos podem gerar problemas reais em suas fronteiras.

A maior preocupação da Estônia é o desmantelamento do sistema ocidental como conhecemos, responsável pela garantia de sua independência e por sua prosperidade e desenvolvimento nas últimas três décadas. Sempre cética diante dos acontecimentos, tendo sido ocupada de todos os lados, a Estônia, que foi refém dos russos durante tanto tempo, quer impedir qualquer movimento que possa pôr seu destino em risco.

Leia também: “E-stônia: o país na nuvem”, artigo publicado na Edição 26 da Revista Oeste 

O país báltico, assim como a República Checa, tem sido uma voz mais firme contra a crescente influência chinesa na Europa — mais do que países de maior importância geopolítica, como Alemanha e França. Entretanto, esta não é a primeira vez que o Báltico se torna pioneiro ao escolher o rumo certo. Isto já ocorreu em 1989. A experiência de ter sofrido nas mãos de Moscou por tantos anos tornou a percepção dos países do Leste Europeu extremamente clara.


* Márcio Coimbra é coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie – Brasília. É cientista político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007), ex-diretor da ApexBrasil e diretor-executivo do Interlegis no Senado Federal.

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