Na manhã de segunda-feira, 3, o famoso prédio da Histadrut, central trabalhista israelense, em Tel-Aviv, passou por um forte abalo. Se a sua estrutura concreta e brutalista — feita para expor as características de uma obra de forma crua e transparente — foi mantida, a moral de seu principal dirigente ficou sob suspeita.
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O caso que atingiu a maior central sindical de Israel é considerado um dos episódios mais graves de corrupção no setor público do país em décadas. A operação, conduzida pela unidade anticorrupção Lahav 433, resultou na prisão de cerca de 35 pessoas.
Entre elas estavam o presidente da Histadrut, Arnon Bar-David, e sua mulher, Hila, uma corretora de seguros acusada de ser o elo principal do esquema. Advogados, prefeitos e representantes de sindicatos locais também estão entre os detidos.
Segundo os investigadores, o grupo teria mantido uma rede de influência que envolvia sindicatos, prefeituras e empresas estatais. A corretora ligada ao casal Bar-David era supostamente beneficiada em licitações e contratos para administrar seguros de trabalhadores.
Foram obtidos, segundo as investigações, lucros de dezenas de milhões de shekalim por ano. Em troca, relata a mídia local, políticos e dirigentes sindicais recebiam vantagens pessoais e cargos estratégicos em órgãos controlados pela própria central.
As buscas policiais se espalharam por diversas cidades, entre elas Harish, Kiryat Gat, Rosh Haayin, Rishon Lezion, Ashdod e Kiryat Bialik, alcançando também instituições como Israel Railways, El Al Airlines, o Instituto Wingate e o Fundo Nacional Judaico (KKL). Em todos os endereços, dirigentes e executivos foram interrogados sobre a possível manipulação de contratos e indicações de aliados.
Um dirigente da central, ouvido pelo Israel Hayom, afirmou que “confia plenamente na integridade de Arnon Bar-David” e que a Histadrut está “cooperando com as autoridades e confiante de que ele não cometeu nenhuma infração”.
O advogado de Bar-David, Micha Patman, declarou: Tenho dificuldade em aceitar que todas as ações investigativas justifiquem [a] detenção” e descreveu a operação como ‘um mega-ataque à organização dos trabalhadores’”.
Edifício moldou o sindicalismo israelense
O prédio da Histadrut, situado na Rua Arlozorov 93, em Tel-Aviv, é um marco histórico da arquitetura pública de Israel. Chamado originalmente de Beit Ha-Va’ad Ha-Po‘al, foi erguido nos anos 1950 com linhas retas e concreto exposto, símbolos da estética brutalista que dominou o pós-guerra. O estilo é tema do filme O Brutalista, que concorreu ao Oscar em 2025 e ganhou em três categoria, entre elas o de melhor ator (Adrien Brody).
O edifício, conhecido por sua imponência, foi projetado para refletir poder e estabilidade e chegou a ser apelidado de “a fortaleza dos trabalhadores”. Reformas recentes buscaram adaptá-lo à vida contemporânea e torná-lo mais aberto à população, com retirada de grades em 2017.
O brutalismo, estilo que inspira o prédio, nasceu na Europa e representa a reconstrução material e moral de uma sociedade marcada pela guerra. Em Israel, essa arquitetura se tornou símbolo de perseverança e esforço coletivo, valores que a própria Histadrut ajudou a moldar.
Origens da Histadrut
A Histadrut foi criada em 1920, na cidade de Haifa, para reunir os trabalhadores judeus que imigravam para a então Palestina sob mandato britânico. Depois de alguns anos, a sede foi transferida para Tel-Aviv, acompanhando o crescimento econômico e político do país.
Com o tempo, a entidade ultrapassou as funções sindicais e passou a atuar em várias áreas da vida nacional, como saúde, moradia, educação, transporte e finanças. Na primeira metade do século 20, tornou-se o principal motor econômico de Israel e pilar essencial na construção do Estado.
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Durante as décadas seguintes, o poder da central atingiu dimensões quase estatais. Em seu auge, ela concentrava mais de 20% da renda nacional e reunia 1,8 milhão de associados, cerca de 80% da força de trabalho israelense.
O enfraquecimento veio depois de 1995, quando a Lei de Seguro Saúde Nacional separou o vínculo entre o sindicato e o sistema de saúde. Os trabalhadores de Israel não precisavam mais ser filiados à Histadrut para ter acesso ao plano de saúde, o que drasticamente a base e poder político da entidade.
A adesão despencou, e a influência política diminuiu. Mesmo assim, a central ainda representa hoje mais de 800 mil trabalhadores e aposentados. Mantém influência nas negociações coletivas e na defesa de direitos sociais.
Crise que derrubou a esquerda israelense
O caso que envolve Bar-David pode ser o mais vultoso em termos de quantia. Mas não é o primeiro escândalo na instituição. Em 1976, o economista Asher Yadlin, dirigente ligado ao Partido Trabalhista e à Histadrut, abalou as estruturas da esquerda israelesne. Ele presidia o fundo Kupat Holim Clalit, o maior sistema de saúde de Israel, administrado pela central sindical.
Yadlin foi indicado para dirigir o Banco de Israel em setembro de 1976, durante o governo do primeiro-ministro Yitzhak Rabin (1922-1995). No momento do escândalo, não havia assumido o cargo. Antes disso, houve denúncia de supostas irregularidades cometidas por Yadlin enquanto ele administrava o Kupat Holim.
Ele negou qualquer má conduta, mas, um mês depois, foi detido para prestar depoimento, a respeito de supostas propinas e pagamentos indevidos relacionados a negócios da entidade. Yadlin não assumiu o cargo no banco e ficou preso por três anos e meio. Morreu em 2016, aos 93 anos, longe dos holofotes.
O episódio Yadlin abalou a esquerda israelense e contribuiu para sua perda de prestígio político nos anos seguintes. Em 1977, com a renúncia de Rabin, por causa de uma conta mantida no exterior depois dele deixar o cargo de embaixador nos Estados Unidos, o Likud, partido de direita, conquistou pela primeira vez o poder no país. Menachem Begin (1913-1992) passou a ser o primeiro-ministro.
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