publicidade
Mundo

O assassinato de Charlie Kirk e a consciência pneumopatológica

Portador do que eu chamo de 'síndrome de Raskolnikov', o assassino acreditou ter um 'direito ao crime'

Um manifestante segura um cartaz do ativista conservador Charlie Kirk, em Houston, Texas - 11/10/2025 | Foto: Antranik Tavitian/Reuters
Um manifestante segura um cartaz do ativista conservador Charlie Kirk, em Houston, Texas - 11/10/2025 | Foto: Antranik Tavitian/Reuters

O covarde assassinato de Charlie Kirk é produto daquilo que o filósofo Eric Voegelin chamou de “consciência pneumopatológica” — uma consciência formada pelo adoecimento do espírito, fenômeno bastante característico das ideologias políticas modernas e, em particular, da ideologia da esquerda contemporânea.

+ Leia notícias do Mundo em Oeste

Receba nossas atualizações

Sublinhe-se: o autor fala em pneumopatologia, e não em psicopatologia. Trata-se de uma doença espiritual, não de uma doença mental. A parte humana aqui atingida é o “espírito” (pneuma), não a “alma” ou a “mente” (psyche). Enquanto a psyche diz respeito ao domínio interior da mente humana, o pneuma é, por assim dizer, o “órgão” que estabelece a comunicação entre a alma individual e a realidade transcendente. Nas palavras do autor:

“Em contraste com a estupidez simples, temos agora de distinguir a estupidez elevada ou inteligente (…) A estupidez elevada ou inteligente é um distúrbio no equilíbrio do espírito. O espírito agora se torna o adversário, não a mente. Não é um defeito da mente (…), mas um defeito do espírito, uma revolta contra o espírito (…) Schelling já empregou a expressão ‘pneumopatologia’ para distúrbios espirituais desse tipo. Isso significa que o espírito está doente, não a alma no sentido da psicopatologia.”

A “doença” que matou Charlie Kirk

Mas qual seria, afinal, essa doença do espírito? De acordo com a antropologia filosófica clássica e judaico-cristã, o homem é uma criatura situada a meio caminho (metaxy, na terminologia platônica) entre a transcendência e a imanência ou, em linguagem aristotélica, entre Deus e as bestas. Diz Voegelin:

“A existência tem a estrutura do Entre, do metaxy platônico, e, se algo é constante na história da humanidade, é a linguagem da tensão entre vida e morte, imortalidade e mortalidade, perfeição e imperfeição, tempo e eternidade, entre ordem e desordem, verdade e falsidade, sentido e falta de sentido da existência; entre o amor Dei e o amor sui, l’âme ouverte e l’âme close; entre as virtudes de abertura para o fundamento do ser, como a fé, o amor e a esperança, e os vícios do fechamento progressivo, como a hybris e a revolta; entre os humores de alegria e desespero; e a alienação em seu duplo sentido: alienação do mundo e alienação de Deus.”

A consciência humana saudável é aquela que reconhece e aceita essa existência-em-tensão, tomando-a como ponto de partida para a compreensão da realidade circundante e de seu próprio lugar na ordem das coisas. A consciência pneumopatológica exaspera-se com essa realidade da condição humana, daí que o seu portador passe a vida inteira numa existência-em-revolta.

O gnosticismo

Essa “existência-em-revolta” manifesta-se historicamente sob várias formas. Por exemplo, no antigo gnosticismo, o mundo e o corpo eram considerados prisões criadas de forma demoníaca, que restringem a centelha divina na humanidade. Nas filosofias modernas, essas tensões decorrentes da condição fundamentalmente ambígua do ser humano deram origem às tentativas de divinizar o homem (comtismo, marxismo, nietzscheanismo) ou para explicar a humanidade unicamente em termos de animalidade (darwinismo), ou para explicar Deus como uma projeção da psique humana (feuerbachismo, freudismo). Seja como for, todas essas manifestações da revolta baseiam-se na mesma negação original da ordem da realidade e da condição humana, uma negação advinda daquilo que os antigos gregos chamavam de hybris (arrogância) e os cristãos chamam de o pecado do orgulho.

O assassino de Charles Kirk foi criado num ambiente em que as pneumopatologias se converteram em doutrinas e agendas políticas. Sua existência-em-revolta, incentivada por uma cultura política de esquerda cuja meta é a destruição do mundo atual para a construção ex nihilo do novo mundo da utopia, levou-o a odiar todos os obstáculos à instauração da “segunda realidade” por ele imaginada.

Portador do que eu chamo de “síndrome de Raskolnikov”, o sujeito acreditou ter um “direito ao crime”. O famoso assassino de Crime e Castigo, de Dostoievski, acreditava ter matado não uma pessoa, mas um princípio. Assim também, para o assassino de Utah, bem como para todos os dementes esquerdistas que, doutrinados por uma desumanização midiática incessante, celebraram a morte do influencer conservador Charlie Kirk, não era uma pessoa, mas um princípio cuja remoção é necessária para pavimentar o caminho do “mundo melhor”.

Leia mais sobre:

2 comentários
  1. Robinson dos Santos Pereira
    Robinson dos Santos Pereira

    São as mesmas pessoas que ironizam a expressão “cidadão de bem”, a ponto de tratar como criminoso e hipocrita não somente quem assim se autodenomina ou a quem se atribui tal expressão. São as mesmas pessoas que criticam e desprezam quem diz “bandido bom é bandido morto”, passando a pensar da mesma forma, só que se direcionando a quem não está cometendo crimes nem usando armas. Essa doença da alma a gente vê através de sintomas como aquele que dá à pessoa “infectada” a certeza de que é repleta de virtudes. Pessoas como o Adalto Gaigher Júnior, que exatamente por ter tantas virtudes – ser uma pessoa com muita empatia – se dá ao direito de dizer que o deputado Nikolas deveria morrer crivado de balas. Para essas pessoas o debate não interessa mais. Sobre o Kirk, disseram que era um misógino a menos, sem parar para pensar que ao considerar que ele merecia morrer, não estão numa situação muito diferente daqueles a quem criticam. Isso é muito maluco. Principalmente porque essas pessoas que estão fazendo essas ameaças, que estão apertando esses gatilhos, analisam o mundo de uma forma muito radical. Diziam que Trump era o anticristo e que o mundo iria acabar no seu primeiro mandato, acreditam em golpes de estado com vendedor de algodão doce e de que governos vão mandar prender casais gays que andam na rua de mãos dadas. Detalhe: defendem o direito do Irã ter armas nucleares. Creio que não vai ser fácil para a sociedade como um todo ultrapassar esse tipo de situação.

  2. Bruno Santos Rodrigues dos Reis
    Bruno Santos Rodrigues dos Reis

    O mundo esta doente e parece não ter cura.

Canal Oeste
Nossos colunistas
Foto do autor J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Foto do autor Augusto Nunes
Augusto Nunes
Foto do autor Ana Paula Henkel
Ana Paula Henkel
Foto do autor Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza
Foto do autor Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino
Foto do autor Alexandre Garcia
Alexandre Garcia
Foto do autor Antonio Cabrera
Antonio Cabrera
Foto do autor Eugênio Esber
Eugênio Esber
Foto do autor Evaristo de Miranda
Evaristo de Miranda
Foto do autor Flávio Gordon
Flávio Gordon
Foto do autor Roberto Motta
Roberto Motta
Foto do autor Miriam Sanger
Miriam Sanger
Foto do autor Adalberto Piotto
Adalberto Piotto
Foto do autor Frank Furedi, da Spiked
Frank Furedi, da Spiked
Foto do autor Jeffrey A. Tucker.
Jeffrey A. Tucker.
Foto do autor Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple
Foto do autor Flavio Morgenstern
Flavio Morgenstern
Foto do autor Ubiratan Jorge Iorio
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
publicidade